Em seu comentário, o escritor Palmarí de Lucena volta ao tema da última edição de The Economist, para enfatizar várias outras reportagens que a revista trouxe sobre o Brasil, em diferente momentos, e alcançado personagens diversos da política brasileira. Confira íntegra…
A The Economist não é uma revista qualquer. Fundada no século XIX, construiu uma reputação global como voz liberal no sentido clássico do termo — defensora do livre mercado, da austeridade fiscal, da integração econômica mundial e do capitalismo competitivo. Está no extremo oposto da caricatura “comunista” tão facilmente usada no Brasil como insulto retórico. Mais que uma publicação, é uma marca de prestígio internacional, dirigida a elites políticas, investidores e acadêmicos.
Quando uma revista com esse perfil se volta contra um governo, não é na chave da militância doméstica, mas na lógica de sua coerência ideológica. Foi assim em diferentes momentos da política brasileira. Em 2015, sob Dilma Rousseff, estampou a “queda do gigante” em capa histórica, criticando gastos públicos excessivos e a perda de credibilidade fiscal. À época, o governo buscou rebater com dados e análises, enquanto aliados insinuava tratar-se de perseguição política.
Em seguida, no período Bolsonaro, a revista foi implacável: denunciou a má gestão da pandemia, o negacionismo climático e o avanço da destruição ambiental. A reação, previsivelmente, foi minimizar a importância do veículo e brandir a soberania nacional — mas nunca o acusar de “comunista”, algo simplesmente inverossímil.
Já no governo Lula, em 2023 e novamente em 2025, o alvo foi a política fiscal frouxa, o intervencionismo em setores estratégicos e a diplomacia com regimes autoritários. Nesses casos, a resposta veio em forma de contestação técnica, e não de rotulagem ideológica.
Essa diferença de reação diz muito. No Brasil, acusações de “comunismo” são armas de guerra cultural, acionadas sobretudo contra veículos nacionais e jornalistas de prestígio local. Contra Miriam Leitão, Vera Magalhães ou jornais como Folha e O Globo, a etiqueta “mídia golpista” ou “militante” serve para mobilizar bases políticas. Já no caso de uma publicação estrangeira com credibilidade consolidada junto ao mercado financeiro internacional, o silêncio ou a contestação racional tornam-se a única saída viável.
Acusar a The Economist de comunista seria refutado em segundos e prejudicaria a imagem de qualquer governo. O cálculo, portanto, é seletivo: quando se trata de atores domésticos, o rótulo ideológico rende dividendos; quando a crítica vem blindada pela autoridade de fora, resta apenas a refutação técnica.
Esse episódio ilumina um traço da política nacional: a banalização da palavra “comunista” como insulto não resiste ao contato com a realidade de uma crítica consistente, respaldada por reputação internacional. O que prevalece, no fim, não é ideologia pura, mas conveniência.
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