
Em sua crônica, o cineasta Durval Leal reflete como “o homem é mau, mas encontra justificativas rápidas, desculpas rápidas, esquecimentos rápidos”, mas é vulnerável ante a mulher. E ainda: “Não que homem não seja perverso. É. Mas é primário. A mulher… a mulher é um livro com capítulos secretos.” Confira íntegra…
Eu sempre achei o homem perverso. O homem é perverso. O homem é mau. Isso, para mim, sempre foi motivo de conversa, dessas analogias filosóficas, sociológicas, antropológicas, mas tudo no bar, na lambuza da cachaça, não é erudição, é botequim. E, no botequim, a humanidade se revela mais do que em qualquer tese. O homem é mau, mas encontra justificativas rápidas, desculpas rápidas, esquecimentos rápidos.
Só que, ouvindo o outro lado, eu sempre gostei de ouvir minhas amigas. Muitas amigas. Amigas inteligentíssimas. E, muito inteligente mesmo, ao tratar dos homens e ao tratar das iguais.
As mulheres, para mim, como já falei várias vezes, são um mistério. Mas são mistérios revelados, porém ainda a decifrar. E são todas elas magnânimas, ímpares. Não são conjuntos, não são coletivos, são mulheres.
E, um dia, essa minha amiga teve o desplante de dizer: Cruel mesmo, Duva, são as mulheres.
Eu fiquei olhando. E ela repetiu: Concordo com você, Duva. O homem é perverso, sim. Mas o homem é primário. Homem tem começo, meio e fim.
Eu fiquei sem entender bem. Uma própria amiga mulher dizendo aquilo, olhando nos meus olhos, como se estivesse me entregando um segredo da espécie. E, no meio da conversa, ela ainda me disse que eu tinha um delay. E eu sempre respeitei esse meu modelo, meu delay mesmo. Sempre com mulheres sou lento, não sei nunca onde vão chegar, e como sou medroso. Pois, já me decifraram. Tenho delay, é meu. Não nego.
Aí, como eu sou lento, processo lentamente, eu fiquei ali assimilando. Ela descreveu o mecanismo: o homem goza e, para ele, o cacete morre, se for dos bons três vezes e, se encerra. Acabou-se o assunto. Que coisa mesmo, não é mesmo, me diga! E a mulher, não. A mulher fica tramando ainda outras coisas, e o papai… E não para. Porque são sem fins.
Aí eu disse: “Coisa doida! Coisa de louco!” Mas, é mesmo…
Depois continuei a pensar, as cabeças pesaram. E, ela, ainda, tão direta, dizendo que mulher é cruel. E completou: Agora inventaram uma coisa: SORORIDADE. Tu já viste mulher ser solidária com outra mulher. E com as que cantam e encanta, imagine ver a outra de cima nos tamancos?
Eu quase derrubei o copo. Não conhecia o termo, voei… E tal revelação só podia ser de uma papisa, sacerdotisa, feiticeira senhora de caldeirões. E ela continuou, com aquele ar de quem já viu muito do mundo e não tem mais paciência para pano quente: “E como é que é? Homem ou mulher trai a mulher, o marido a marida da outra, e a mulher faz toda pilantragem se gostar do bofe, e aí phudeu.”
Eu só disse: Meu Deus! Tu não tem cabimento na vida não, cidadã!
E ela, firme como sempre, continuou: Tu já viu essa amizadezinha de “somos amigas”? Eu sou mulher, Duva. Eu nunca vi tanto fingimento junto. Se botar quatro mulheres sozinhas numa sala e gravar, você vai ver como o homem é pequeno, tadinho.
Ela continua “Aí vem agora com essa de SORORIDADE, minha… minha nossa senhora!
Eu fiquei assim, pensando: Meu Deus, será que nós somos tão pequenos? O ser humano é muito vil, em tudo, somos um estranhamento em movimento.
Porque, dentro das minhas amigas, eu me sinto às vezes muito inocente. Das minhas filhas, da minha mulher… quase patético. Porque elas são muito rápidas. A rapidez delas está em todas as variáveis. É um fenômeno. E aí parei bem e fiquei pensando: “Minha nossa senhora! Que crueldade essa fulana tá falando das outras!” Aí fui pensar. E puxei na memória.
E vi algumas coisas.
Porque eu sempre tive muitas amigas queridas. Loucas. Verdadeiras. Diretas. Muito interessantes. A gente conversando, tomando uma cerveja e tal. Conversa vai, conversa vem. Uma delas vira e diz: Duva, tu visse o que passou aí? Eu disse não.
E, continuou “mulher tem prazo de validade!”
Eu quase caí da cadeira. E respondi: Menina, deixa de ser perversa! E ela: Diga tu que não tenho razão, ela está tão derrubada, coitada que tu nem visse a bichinha passar… Tadinha mas merece!
E eu só consegui soltar: Phuta que pariu… sou inocente e lerdo, phora.
E sou mesmo. Ou, pelo menos, às vezes me percebo assim dentro dessas conversas. Mas veja, o que me impressiona é como tudo isso vem de dentro delas mesmas. A crítica, a análise, a navalha afiada da convivência. O homem é bruto, burro, direto, pernicioso. Vai, faz, erra, inventa uma desculpa e pronto. A mulher, não. A mulher observa, analisa, remexe, devolve. E cria teoria. E refaz a teoria. E aplica a teoria na outra mulher.
Aí entra a tal SORORIDADE que, no discurso, é linda. Mas, ali na mesa, minha amiga dizia: Duva, SORORIDADE é muito bonita, mas não combina com certas práticas. Mulher fala de mulher com auditoria fiscal de sentimentos. É uma espécie de vigilância interna. Quando não é por vadiagem é por inveja.
Imagina se elas comungam, é tudo teoria, escuta e pegou o celular e entrou no Google…
Sororidade é a união, aliança e sentimento de irmandade entre mulheres, baseada na empatia, solidariedade, apoio mútuo e companheirismo, que busca fortalecer a convivência e lutas em comum, especialmente no contexto do feminismo. Ela se caracteriza por não julgar outras mulheres, incentivar a cooperação em vez da rivalidade, e criar redes de apoio para combater padrões sociais machistas e patriarcais.
Eu ouvi. E fiquei pensando. Porque, como disse, eu tenho delay. E processar tudo aquilo exige tempo. É uma matemática que eu não faço.
Ela continuou: Vê bem, Duva. Homem quando trai, faz burrice. Mulher quando trai, faz estratégia. Homem quando fala mal do outro, diz: “É um idiota.” Mulher faz relatório.
Eu fiquei em silêncio, porque era muito. E, ao mesmo tempo, parecia tudo verdade. Ou, pelo menos, verdade vivida por ela, nas observações dela, numa mesa de bar com apenas duas doses.
E eu pensando: o humano é assim? É esse bicho que se desmonta no bar?
E ela: Se botar quatro mulheres juntas, a verdade aparece. Não que homem não seja perverso. É. Mas é primário. A mulher… a mulher é um livro com capítulos secretos.
E eu só consegui responder: Então, eu sou pequeno mesmo. Um inocente vendo espetáculo que não entendo. Imaginei as conversas jogadas fora com meus amigos, era futebol, a última trepada fugida, mesmos todos sabendo que era mentira. Pois homem mente muito quando se exalta de garanhão. Apesar de 90 por cento chocar ovos.
E ela, rindo: É, Duva. Tu é pequeno porque não vê as camadas. Mulher é cruel com ela mesma e com as outras. Ainda chamam isso de convivência. Eu ri, meio sem força.
Fui recordando: as rodas de amigas. As confissões que elas faziam. As falas rápidas. As conclusões duras. O jeito leve com que tratavam coisas seríssimas. E eu ali, sempre o mais lento da mesa.
Aí voltei para aquela frase: Mulher tem prazo de validade. E era uma mulher dizendo.
Tu és muito perversa. E ela: Sou não. Só digo a verdade.
Ela seguiu. O homem é mau, sim. Mas é primário, bruto, raso. A mulher, segundo elas mesmas, já ouvi muito disso, Duva, e veja que o meu eu não é tão cruel, é que vejo nas profundas e nas estratégias, as minucias das inimigas. E ainda, inventaram essa coisa moderna chamada SORORIDADE, que, na prática, desmancha na boca de quem fala.
E eu, no meio disso, carregando meu atraso natural, o meu delay, tentando entender como é que funciona esse mundo onde o humano é demasiado humano, e a moral é farsa, e a convivência é picadeiro, e a crueldade é cotidiana, e a inocência… talvez seja só ignorância assumida.
E assim, sigo, ouvindo, pensando, sendo lento, sendo inocente, sendo patético, às vezes perverso. E rindo. Porque, na vida, só sobra isso, o riso meio trágico, meio burlesco, dessa humanidade que inventou a maldade, a perversão, a crueldade e a tal SORORIDADE, e depois colocou tudo no mesmo copo de cerveja para ver no que dá.
E concluo a crônica assim: a humanidade ali, na mesa de bar, é burlesca. É satírica. É confissão e julgamento no mesmo gole. O homem é perverso, sim!
Tiro no ÁLVARO E NO DUVA !!!
(* Imagem acima da escultura Amor, do artista ucraniano Alexander Milov)
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