PENSAMENTO PLURAL Crescimento sem destino, por Palmarí de Lucena

Inspirado no pensamento de Celso Furtado, o texto do escritor Palmarí de Lucena analisa a conjuntura econômica brasileira destacando a distinção entre crescimento e desenvolvimento. Argumenta que a estabilidade recente convive com desigualdades persistentes, dependência de commodities e perda de densidade industrial. Defende a importância da disciplina fiscal com previsibilidade, sem dogmatismo, e critica a má distribuição de emendas parlamentares, que fragiliza o planejamento federativo. O País é apresentado como estando diante de uma encruzilhada histórica entre funcionar e se transformar. Confira íntegra...

Se Celso Furtado observasse a conjuntura econômica brasileira atual, provavelmente começaria com uma advertência simples, quase desconcertante: o país voltou a crescer, mas continua sem se desenvolver. Para ele, crescimento jamais foi sinônimo de superação histórica. Era, no máximo, um movimento contábil. O desenvolvimento, ao contrário, exigia transformação — estrutural, social e cultural.

O Brasil contemporâneo exibe sinais ambíguos. Há estabilidade relativa, recuperação parcial do consumo e melhora pontual de indicadores macroeconômicos. Mas, sob essa superfície, persiste o que Furtado identificaria como uma armadilha estrutural: uma economia que funciona, mas não emancipa; que produz, mas não integra; que cresce, mas não se redistribui.

A dependência de commodities segue como eixo silencioso do modelo. Soja, minério e petróleo sustentam o saldo externo, enquanto a indústria perde densidade tecnológica e o país se acomoda a uma posição periférica na divisão internacional do trabalho. Para Furtado, isso não era um detalhe técnico, mas um limite histórico. Economias que exportam natureza e importam tecnologia tendem a reproduzir desigualdades internas e vulnerabilidade externa, ainda que atravessem períodos favoráveis.

A desigualdade, nesse quadro, não seria vista como efeito colateral, mas como engrenagem central. Um país em que a renda se concentra e a mobilidade social é restrita limita o próprio mercado interno e reduz sua capacidade de inovar. Furtado insistia: não há desenvolvimento quando a maioria permanece como espectadora do crescimento, e não como sua beneficiária.

É nesse contexto que o debate sobre o equilíbrio das contas públicas e o arcabouço fiscal requer sobriedade. A disciplina fiscal não é um capricho tecnocrático, mas um instrumento de previsibilidade — e previsibilidade, em economia, é forma de confiança. Quando um arranjo institucional consegue estabilizar expectativas e conter excessos, a tentação de reescrevê-lo a cada impasse costuma revelar mais ansiedade política do que racionalidade econômica. Nem todo ajuste representa avanço; por vezes, insistir em “consertar” o que funciona apenas reintroduz a incerteza que se pretendia evitar. O desafio está menos em negar o arcabouço do que em fazê-lo conviver com políticas de longo prazo, sem transformar prudência em imobilismo nem responsabilidade em dogma.

A esse quadro soma-se o impacto nocivo da má distribuição das emendas parlamentares, hoje dissociadas, em larga medida, de uma lógica consistente de planejamento federativo. Criadas como instrumento legítimo de descentralização, elas passaram a operar como mecanismo de fragmentação da política pública. A pulverização de recursos, frequentemente orientada por critérios eleitorais imediatos, enfraquece a coordenação entre União, Estados e municípios, distorce prioridades nacionais e compromete a eficiência do gasto. Obras pontuais e de baixo impacto estrutural proliferam, enquanto investimentos articulados — em infraestrutura, educação, ciência e inovação — permanecem insuficientes. Sob uma ótica furtadiana, trata-se de uma inversão de sentido: o orçamento deixa de ser ferramenta de desenvolvimento integrado e passa a funcionar como moeda de sobrevivência política, ampliando assimetrias regionais e esvaziando a capacidade do Estado de planejar o futuro de forma cooperativa.

O Estado, assim, não surge como vilão nem como salvador, mas como ausência estratégica. A primazia do curto prazo — seja na expansão irrefletida, seja no ajuste automático — tende a comprimir o horizonte de futuro. Para Furtado, o papel do Estado não se limitava a corrigir falhas, mas a induzir rumos: articular o planejamento nacional com a ação federativa, investir de forma consistente em educação, ciência, infraestrutura e política industrial como projeto de país, e não como resposta episódica.

O aspecto mais inquietante, contudo, talvez fosse outro: a naturalização do inacabado. O Brasil parece ter se habituado a operar abaixo de suas possibilidades, como se o subdesenvolvimento fosse um estado permanente, administrável, aceitável para determinados setores. Furtado nunca aceitou essa resignação. Via nela não um destino, mas uma escolha histórica — reiterada sempre que se confunde ajuste com projeto e estabilidade com futuro.

Se estivesse entre nós, Celso Furtado dificilmente falaria em colapso iminente ou redenção próxima. Falaria em encruzilhada. Um país que pode continuar crescendo sem mudar — ou decidir, enfim, transformar crescimento em desenvolvimento, e economia em construção civilizatória.

O drama brasileiro, diria ele, não é a escassez de recursos nem de talento. É a persistência de um modelo que se contenta em funcionar, quando poderia, finalmente, se transformar.

 

Os textos publicados nesta seção “Pensamento Plural” são de responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Blog.