
O texto do escritor Palmarí de Lucena analisa a persistência de um imperialismo associado ao petróleo, que reaparece sob a forma de intervenções militares apresentadas como soluções rápidas para crises políticas. Ao revisitar o Panamá e a Venezuela, argumenta que a força substitui a política, corrói o direito internacional e aprofunda instabilidades. Defende alternativas multilaterais, mediação regional e responsabilidade institucional. Ao Brasil, cabe exercer diplomacia ativa, previsível e regionalmente responsável, rejeitando intervenções unilaterais. Confira íntegra…
A história recente da América Latina oferece um manual involuntário sobre como não lidar com crises políticas associadas a interesses estratégicos, especialmente energéticos. Ainda assim, esse manual segue sendo ignorado. A invasão do Panamá, em 1989, e a recorrente tentação de repetir fórmulas semelhantes na Venezuela revelam uma persistente crença de que a força militar pode substituir a política — e produzir estabilidade.
No Panamá, a captura de Manuel Noriega foi apresentada como solução rápida para um problema complexo. A operação foi vendida como cirúrgica, moralmente necessária e juridicamente defensável. O que se omitiu foi o custo humano, a devastação urbana e o precedente perigoso: a ideia de que soberanias frágeis podem ser relativizadas sempre que interesses estratégicos — e econômicos — entram em cena.
Décadas depois, a hipótese de um bombardeio da Venezuela seguido da captura de Nicolás Maduro reaparece como atalho sedutor. Mais uma vez, reduz-se um país ao seu governante, uma crise estrutural a um problema de segurança, e a política a uma operação de força. O petróleo, elemento silencioso, mas central, continua a organizar o tabuleiro: controle de reservas, rotas e alinhamentos internacionais pesa mais do que o aprendizado histórico.
Aprender com esses erros exige abandonar a lógica do espetáculo e adotar critérios práticos. O primeiro deles é multilateralizar de verdade. Não se trata de buscar legitimação posterior para decisões já tomadas, mas de submeter qualquer ação a fóruns com regras, limites e monitoramento, como a Organização dos Estados Americanos e a ONU. A unilateralidade pode ser eficiente no curto prazo, mas corrói a ordem baseada em regras.
O segundo aprendizado é substituir sanções totais por negociações com incentivos graduais. Medidas indiscriminadas tendem a punir populações, fortalecer discursos nacionalistas e fechar canais diplomáticos. Experiências recentes indicam que alívios condicionados — ligados a eleições, liberdades civis e acesso humanitário — produzem mais fissuras do que cercos absolutos.
Há ainda a necessidade de mediação regional, não de tutela externa. Países vizinhos conhecem melhor os custos sociais do colapso e podem atuar como fiadores mais eficazes do que potências distantes. Quando a crise é regional, a solução também deve ser.
Outro ponto crucial é separar governo de sociedade. Isolar elites responsáveis por violações não pode significar o colapso de serviços essenciais. Licenças humanitárias amplas, proteção a organizações civis e exceções claras para saúde e alimentação não são concessões políticas, mas salvaguardas éticas — e estratégicas.
Também é preciso abandonar a lógica das capturas espetaculares. Prisões extraterritoriais, ainda que populares, fragilizam o direito internacional e criam precedentes perigosos. O caminho mais sólido passa por investigações, tribunais internacionais e devido processo legal, mesmo quando isso exige mais tempo e menos manchetes.
Nada disso funciona sem um plano pós-crise definido antes da pressão. O Panamá mostrou que remover um líder não equivale a reconstruir instituições. Qualquer coerção precisa estar condicionada a metas claras de governança, prazos e financiamento para reconstrução social e institucional.
É nesse ponto que o Brasil entra como ator decisivo. O Brasil não dispõe — nem precisa dispor — de poder militar para arbitrar crises regionais. Seu peso reside na diplomacia, na previsibilidade e na capacidade de articulação. Diante de intervenções americanas, o país pode optar pelo silêncio confortável ou pela diplomacia ativa. A segunda opção implica custos, mas preserva coerência histórica.
Na prática, isso significa agir preventivamente: acionar instâncias multilaterais antes que fatos consumados se imponham; articular posições comuns sul-americanas para reduzir o isolamento de países sob pressão; e rejeitar explicitamente ações unilaterais sem mandato internacional. Ao mesmo tempo, o Brasil ganha credibilidade quando mantém uma dupla coerência: rejeita intervenções externas e defende eleições, liberdades civis e corredores humanitários, sem relativizar violações internas.
Há ainda uma dimensão estratégica: ao fortalecer a integração regional, diversificar matrizes energéticas e ampliar acordos transparentes, o Brasil ajuda a reduzir o peso geopolítico do petróleo como gatilho de intervenções — o núcleo do imperialismo contemporâneo aqui analisado.
Aprender, portanto, não é apenas recordar o passado. É escolher, no presente, entre a lógica da força e a da governança; entre a urgência e a institucionalidade; entre o aplauso imediato e a estabilidade verificável. Para o Brasil, insistir nessa escolha não é ingenuidade: é responsabilidade regional.
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