
Em seu comentário, o escritor Palmarí de Lucena afirma que os “rankings que atribuem notas elevadas a parlamentares criam uma ilusão de mérito ao reduzir mandatos complexos a indicadores simplificados”. Presença em plenário, volume de proposições e adesão a slogans genéricos passam a valer mais do que impacto social, qualidade legislativa e responsabilidade institucional. E ainda: “Ao confundir alinhamento a critérios pré-definidos com virtude democrática, essas avaliações substituem o debate público por selos de aprovação, empobrecem o juízo crítico do eleitor e transformam métricas técnicas em instrumentos de marketing político”, confira íntegra...
A indústria de rankings parlamentares vende uma promessa sedutora: a ideia de que a política pode ser medida com a precisão de um balanço contábil. O resultado, porém, é menos transparência e mais mistificação. Ao converter mandatos complexos em notas simplificadas, essas avaliações produzem uma aparência de mérito que frequentemente encobre pobreza intelectual, irrelevância legislativa e oportunismo político.
O vício começa na escolha dos critérios. Presença em plenário, volume de proposições, adesão a slogans como “antiprivilégios” e “antidesperdício” são tratados como sinônimos de virtude pública. Não são. Comparecer a votações é obrigação elementar, não distinção moral. Protocolar projetos em série — muitos deles inofensivos, repetitivos ou juridicamente inviáveis — não revela compromisso com o interesse público, mas familiaridade com a lógica do marketing legislativo.
Esses rankings evitam, de forma conveniente, qualquer juízo sobre o conteúdo das propostas. Não medem impacto social, coerência constitucional, viabilidade fiscal nem contribuição efetiva para políticas públicas duradouras. Premiam o gesto, ignoram a consequência. O parlamentar performático, barulhento e simplificador sai fortalecido; o trabalho silencioso, técnico e negociador permanece invisível.
Há também um problema menos explícito, mas mais grave: o viés ideológico disfarçado de neutralidade técnica. Iniciativas como o Ranking dos Políticos estabelecem previamente quais valores devem ser considerados virtuosos e quais posturas merecem punição simbólica. O alinhamento a essas balizas é recompensado com notas altas; a divergência, tratada como desvio. Não se trata de avaliar a qualidade da representação, mas de premiar a conformidade a uma agenda específica, apresentada como senso comum.
O selo de “bom parlamentar” passa, então, a funcionar como atalho discursivo. Dispensa explicações, substitui o debate e imuniza discursos frágeis contra críticas legítimas. É a lógica do carimbo: não importa o que se faz, importa o que o ranking autoriza dizer sobre si mesmo. O eleitor, por sua vez, é convidado a terceirizar seu julgamento crítico a tabelas e infográficos.
Esse mecanismo empobrece a democracia. Ao invés de estimular cidadãos a avaliar argumentos, resultados e responsabilidades, consolida-se uma pedagogia da superficialidade. Bons números passam a valer mais do que boas leis. A política é reduzida a performance quantificável, e não a deliberação responsável.
Nada disso significa rejeitar a transparência ou a fiscalização do mandato parlamentar. Dados objetivos são indispensáveis. O erro está em tratá-los como juízo final. Rankings podem informar comportamentos; não podem certificar excelência democrática. Quando assumem esse papel, deixam de ser instrumentos de controle social e se tornam peças de propaganda travestidas de técnica.
A democracia não precisa de parlamentares bem ranqueados. Precisa de representantes capazes de pensar além do slogan, resistir à tentação do aplauso fácil e assumir o custo político de decisões complexas. Avaliações que ignoram isso não esclarecem o eleitor — apenas o distraem.
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