
Em seu comentário, o escritor Palmarí de Lucena observa o quanto a poluição das praias da orla de João Pessoa é um problema estrutural de saneamento que envolve saúde pública, meio ambiente e gestão administrativa. A denúncia perde eficácia quando é convertida em confronto político ou absorvida pela polarização nacional, desviando o foco das responsabilidades institucionais da Cagepa. “A fulanização e a retórica performática enfraquecem a cobrança técnica e dificultam soluções duradouras”, alerta. Problemas estruturais exigem fiscalização, transparência, planejamento e gestão pública consistente. Confira íntegra...
A recorrente denúncia de lançamento de esgotos nas praias da orla de João Pessoa é um tema grave. Envolve saúde pública, preservação ambiental e a própria imagem da cidade em um período de intenso fluxo turístico. Não se trata de retórica nem de conveniência política, mas de uma questão objetiva de saneamento básico, regulada por normas ambientais claras e sujeita a fiscalização e responsabilização administrativa.
A denúncia, no entanto, perde força quando é enquadrada como confronto pessoal ou absorvida pela disputa política mais ampla. Ao privilegiar a responsabilização direta de agentes individuais, o debate se afasta do núcleo do problema: a atuação da Cagepa, empresa estadual responsável pelo saneamento, e as falhas estruturais de planejamento, operação e fiscalização que permitem a continuidade da poluição costeira. Saneamento não resulta de decisões isoladas, mas de políticas públicas de longo prazo, investimentos consistentes e execução técnica adequada.
Nesse contexto, chama atenção a tendência de parlamentares deslocarem para o plenário denúncias de natureza eminentemente local — como falhas de saneamento, gestão urbana ou prestação de serviços públicos — sob enquadramentos que as incorporam à polarização política nacional. Revestidos de carga partidária ou ideológica, esses temas perdem densidade técnica e passam a operar como instrumentos de afirmação política, mais voltados à disputa simbólica do que à resolução concreta dos problemas. O efeito é previsível: diluição de responsabilidades institucionais e enfraquecimento da cobrança objetiva sobre os órgãos competentes.
A personalização excessiva — a chamada fulanização — simplifica um problema complexo e reduz sua capacidade de gerar respostas institucionais efetivas. Crimes ambientais não se enfrentam com retórica, mas com apuração técnica, autos de infração, planos de correção e cumprimento rigoroso da legislação. Quando o discurso migra do campo administrativo para o embate político, uma denúncia legítima corre o risco de se transformar em ruído.
Também fragiliza o debate o uso de uma linguagem de confronto, marcada por convocação e responsabilização sumária. Esse registro remete mais a uma lógica de comando do que ao funcionamento regular das instituições em um Estado democrático. Órgãos de controle atuam com base em procedimentos formais, provas técnicas e atribuições legais específicas. Cobrá-los de forma genérica, sem delimitar responsabilidades e processos, enfraquece a crítica em vez de fortalecê-la.
A poluição das praias exige um debate público mais rigoroso e menos performático. É preciso cobrar da Cagepa transparência, cronogramas de obras, manutenção da rede, ampliação do tratamento de esgoto e cumprimento das notificações ambientais já emitidas. Do mesmo modo, cabe aos órgãos fiscalizadores atuar de forma contínua, técnica e independente, sem se deixar capturar por disputas circunstanciais.
Problemas estruturais exigem soluções estruturais. Ao reduzir um tema ambiental grave a um embate personalista ou à lógica da polarização nacional, perde-se a oportunidade de construir uma cobrança pública eficaz, baseada em responsabilidades institucionais, dados técnicos e compromisso com o interesse coletivo. A defesa das praias — patrimônio ambiental e econômico da cidade — pede menos retórica e mais gestão.
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