PENSAMENTO PLURAL O último político: Zé Maranhão e o duelo final de uma era, por Emir Candeia

Em seu comentário, o professor Emir Candeia resgata mais um viés da memória do senador Zé Maranhão, a quem considera o último de uma geração que primava, sobretudo, por valores morais. “Sua biografia política é objetiva e impressionante: começou como deputado estadual em 1955 e percorreu mandatos como deputado federal, vice-governador, governador em três ocasiões e senador, com décadas de protagonismo”, pontua, e ainda: “o homem que carregou a própria lenda e fez do fim um ato coerente com toda uma vida pública”. Confira íntegra...

No artigo “O Último Pistoleiro”, Benedito Antonio Luciano observa que, em The Shootist (1976), o protagonista deixa de ser um herói “invencível” e passa a ser um homem que precisa conviver “com o peso de sua própria lenda”.

É exatamente essa chave que ajuda a enxergar, em linguagem de analogia, a trajetória de José Targino Maranhão — o Zé Maranhão: um político de outra escola, moldado no corpo a corpo, na presença física, no aperto de mão e no olhar direto, como se a rua fosse o seu “saloon” e cada campanha fosse, de algum modo, mais um duelo.

1) O pistoleiro lendário e o político “sempre vencedor”. No filme, John Bernard Books é reconhecido como um dos melhores atiradores do Oeste. Em torno dele existe reputação, mito, expectativa. No mundo real paraibano, Zé Maranhão construiu algo semelhante: uma imagem pública de liderança resiliente, acostumada a vitórias e retornos.

Sua biografia política é objetiva e impressionante: começou como deputado estadual em 1955 e percorreu mandatos como deputado federal, vice-governador, governador em três ocasiões e senador, com décadas de protagonismo.
Em termos de “tabuleiro”, ele ocupou praticamente todas as casas relevantes do poder estadual e nacional disponíveis a um líder paraibano.

2) O tempo muda — e a forma de lutar também. No texto de Benedito, há a ideia de que o filme funciona como fim de um ciclo e “crepúsculo simbólico” de uma época. Para a política, o paralelo é direto: a modernidade empurra a prática pública para outros meios — televisão, redes, marketing, gabinete, protocolo, distanciamento.

Só que há pessoas que não se sentem “inteiras” longe do ambiente onde sempre foram fortes. É como um comerciante antigo que, mesmo com o banco oferecendo aplicativo e atendimento remoto, prefere ir pessoalmente à agência: não é teimosia pura; é identidade. Zé Maranhão era, notoriamente, um político de presença. E foi essa presença que o levou ao seu último grande risco.

3) O duelo final: a campanha e a pandemia. No auge da pandemia, o “progresso” vinha com outra linguagem: isolamento, cautela, evitar aglomeração. Mas Maranhão permaneceu na linha de frente — e isso ficou registrado de forma clara: ele atuava ativamente no segundo turno da campanha em João Pessoa quando testou positivo para a covid-19.

No Senado, a homenagem resumiu o traço essencial: “ele escolheu ir para uma campanha… se expondo nesse momento de covid”. A analogia com O Último Pistoleiro não é dizer que ele “quis morrer”, mas que ele escolheu o próprio estilo de luta até o fim. Assim como Books decide encarar o duelo final para preservar dignidade e coerência com a própria lenda, Zé Maranhão manteve o gesto político que sempre o definiu: estar na rua, defendendo seus aliados, sustentando a militância pelo contato direto — e pagando o preço máximo por isso.

4) “O Último Político” como símbolo. Benedito conclui que o filme é um espelho da condição humana diante da inevitabilidade da morte. No caso de Maranhão, o espelho tem duas camadas: a morte física, trazida pela doença em um período brutal da história recente; e a morte política simbólica de um modo de fazer política — a política do líder que “vive” a campanha na rua, com presença constante, em um tempo que passou a exigir mediação, distância e novas regras.

Se John Wayne encerra a própria trajetória cinematográfica encarnando um homem que revisita a lenda e a coloca em perspectiva, Zé Maranhão encerra a trajetória pública como quem, no último ato, reafirma sua natureza: não se retirou para assistir de longe.

E é por isso que a comparação sustenta o título: Zé Maranhão pode ser lembrado, nessa analogia, como “O Último Político” — o homem que carregou a própria lenda e fez do fim um ato coerente com toda uma vida pública.

 

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