
Em seu comentário, o escritor Palmarí de Lucena analisa como roubo de medicamentos em farmácias revela fragilidades comuns a sistemas distintos. Nos Estados Unidos, opioides alimentam um mercado ilegal ligado à dependência química e à violência, fruto de décadas de prescrição irresponsável. No Brasil, canetas de emagrecimento tornaram-se alvo por seu alto valor e demanda estética, impulsionando furtos oportunistas. Em ambos os casos, quando remédios viram mercadoria cobiçada, a linha entre saúde pública e segurança se rompe, exigindo respostas regulatórias além do mero policiamento. Confira íntegra...
Há um ponto em que a fronteira entre saúde pública e segurança pública deixa de ser teórica e se torna concreta. Ele surge quando medicamentos legais, regulados e produzidos pela indústria farmacêutica passam a circular como ativos do mercado ilícito. O fenômeno não é novo, mas assume contornos distintos conforme o país — e revela muito sobre suas fragilidades institucionais.
Nos Estados Unidos, o roubo de farmácias e clínicas em busca de opioides é uma face tardia de uma crise que se consolidou ao longo de décadas. Analgésicos potentes, prescritos de forma irresponsável, alimentaram uma dependência em escala industrial. Quando o controle apertou, o mercado ilegal ocupou o espaço. Farmácias tornaram-se alvos, clínicas fraudulentas — as chamadas pill mills — proliferaram, e o medicamento passou a cumprir o papel que antes cabia à heroína. O resultado foi devastador: comunidades inteiras corroídas, sistemas de saúde sobrecarregados e uma epidemia de overdoses.
No Brasil, o movimento é outro, mas a lógica é semelhante. Não se rouba para sustentar vício químico, mas para atender a uma demanda marcada por status, estética e promessa de solução rápida. As chamadas “canetas emagrecedoras” tornaram-se produtos de alto valor, fáceis de transportar, difíceis de rastrear e simples de revender. O crime percebeu rapidamente o óbvio: poucos itens, alto retorno e risco relativamente baixo.
A diferença essencial entre os dois cenários não está no método, mas na motivação. Nos Estados Unidos, o medicamento roubado mata diretamente. No Brasil, ele expõe a riscos sanitários, falsificação, automedicação e desigualdade de acesso. Em ambos os casos, porém, o pano de fundo é o mesmo: falhas na regulação, fiscalização insuficiente e um Estado que reage sempre depois que o mercado — legal ou ilegal — já se reorganizou.
Há um erro recorrente na forma como esse tipo de fenômeno é tratado: a tentação de reduzi-lo à esfera policial. Mais câmeras, mais seguranças, estoques escondidos. Tudo isso é necessário, mas insuficiente. Quando um remédio passa a ser disputado como joia, não estamos diante apenas de um problema criminal, mas de um desequilíbrio estrutural entre oferta, demanda, preço e controle público.
A história recente mostra que toda vez que um medicamento se transforma em símbolo social — seja de alívio da dor, seja de pertencimento estético — o crime se antecipa. Não por ideologia, mas por oportunidade. O ilícito não cria a demanda; ele apenas a explora.
O Brasil ainda está no início dessa curva. Diferentemente dos Estados Unidos, há tempo para aprender com o erro alheio. Ignorar o sinal, porém, seria repetir o roteiro: tratar como caso isolado aquilo que já se anuncia como tendência.
Quando o remédio vira mercadoria do crime, o problema não está apenas na prateleira da farmácia. Está na incapacidade do Estado de enxergar que saúde, mercado e segurança pública são partes do mesmo sistema — e que falhas em um deles cobram preço nos demais.
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