
O texto do escritor Palmarí de Lucena critica o cenário político brasileiro atual, marcado pela exclusão do eleitor, alianças oportunistas e heranças familiares no poder. A política se tornou um jogo de interesses entre elites, sem projetos reais ou participação cidadã. A mediocridade das lideranças é tratada como parte de um sistema que prioriza a autopreservação. “A esperança de mudança está nas eleições de 2026, que podem romper o ciclo vicioso com renovação consciente e responsabilidade democrática”, prega. Confira íntegra...
A campanha política já começou — embora a lei finja que não. E começou do modo mais revelador possível: sem eleitor. O noticiário é ocupado por anúncios sucessivos de adesões, deserções, recomposições de alianças e conchavos tratados como se fossem de interesse público. A política virou um boletim de bastidores, consumido como se representasse a vontade coletiva.
Candidatos trocam recados pela imprensa, encenam gestos de maturidade institucional enquanto negociam cargos de confiança como fichas de pôquer. Funções públicas circulam entre grupos e partidos conforme o anúncio mais recente de apoio, sem constrangimento, sem explicação e sem qualquer vínculo com projetos de governo. A coerência deixou de ser exigência; tornou-se inconveniente.
Nesse cenário, a política equivale a um conjunto de birras juvenis em um recreio de luxo. Adultos engravatados disputam poder e cargos como se estivessem em um playground exclusivo, enquanto o cidadão fica de fora, reduzido à plateia. Não há pedagogia democrática, não há construção coletiva, nem sequer o esforço de fingir participação.
E para agravar, reaparece o velho truque da substituição do voto pela herança: primeiras-damas, cônjuges, filhos e parentes de políticos cassados surgem como “alternativas” automáticas. Assim, esposa substitui marido, filho substitui pai, e a linhagem substitui o debate. Não se trata de renovação, mas de continuidade disfarçada. O sobrenome vira programa político e a legitimidade eleitoral é reduzida a uma formalidade de família.
E há um pano de fundo que sustenta esse teatro: a mediocridade das lideranças políticas brasileiras não é um acidente; é um sistema. Governa-se pouco, calcula-se muito. O horizonte encurta, a ambição empobrece, e a política passa a premiar não quem pensa o país, mas quem ocupa espaço e prolonga mandatos. Em 2025, isso ficou visível no Congresso: diante de problemas reais, escolheu-se a omissão e a autopreservação em vez de soluções.
O efeito é corrosivo: distanciamento entre representantes e representados. A política perde densidade moral e utilidade pública, virando um clube de autoproteção. E a saída para esse dilema está nas mãos do eleitor: as eleições de 2026 oferecem uma chance de romper o ciclo. Substituir quem falhou não é um gesto de protesto, mas de responsabilidade democrática. Sem renovação consciente, a política seguirá refém das mesmas ambições — e o país, das mesmas frustrações.
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