PENSAMENTO PLURAL Acho que é tudo mentira, por Ronaldo Cunha Lima Filho

O advogado Ronaldo Cunha Lima Filho traz, em seu comentário, um relato metafórico sobre o acontece no Brasil, atualmente, especialmente em função das ligações nada sadias entre empresários, como Daniel Vorcaro, e setores do Judiciário. Um envolvimento que registra, além festas nababescas, viagens suntuosas e eventos internacionais, também contratos milionários com escritórios de advogados de parentes dos ministros. Confira íntegra...

Sexta-feira à noite. O tradicional clima seco de Brasília faz o cansaço de um extenuante dia de trabalho parecer ainda maior. O famoso juiz Honório da Gama chega à sua casa, onde já o espera sua esposa, a não menos conhecida advogada Fortuna da Gama. Os dois começam a conversar avidamente. Assunto não falta, mas um, em especial, domina a ampla sala enquanto o casal aprecia uma taça de vinho. Um Château Margaux 2018, hábito adquirido desde que o doutor Honório se tornou juiz em Brasília.

O tema central é o espetacular contrato de honorários advocatícios que Fortuna celebrou com o banco Naufrágio, uma instituição financeira quebrada, mergulhada nas mais horrendas falcatruas. Um detalhe pitoresco, porém, impõe rigoroso sigilo à conversa. O juiz Honório atua no mesmo fórum onde tramita o processo do banco, e o magistrado responsável pelo caso é seu amigo pessoal.

Esse amigo, o também juiz Armando Figueiredo, vem demonstrando um comportamento que tem despertado a curiosidade do mundo jurídico. Dizem que deseja poupar o Naufrágio de um desastre ainda maior. Dizem também que existem interesses cruzados envolvendo processos de dois de seus irmãos. Eu não acredito. É tudo fofoca.

Já na segunda garrafa, Fortuna e Honório celebram a conquista. Um contrato fabuloso com o banco Naufrágio, no valor de 129 milhões. Pessoas do meio garantem tratar-se do maior contrato de honorários advocatícios já firmado por um único escritório. Acho que é pura inveja.

Pois bem, dizem as más línguas que o festejado juiz Honório, conhecido por seu rigor impiedoso, vem atuando discretamente nos bastidores para suavizar o caminho do banco e, de quebra, dar uma mãozinha para que sua felizarda e competente esposa faça valer os galácticos honorários arduamente conquistados, após dias e mais dias de trabalho.

Ao contrário do que se murmura nos corredores, acredito que o doutor Honório não afronta a decência, a ética nem a moralidade. Ele está acima de qualquer suspeita e sabe que, como servidor público, tem a obrigação inegociável de prestar contas de seus atos. Por isso afirmo convictamente, é tudo mentira.

Já o doutor Armando, que não faz grande esforço para esconder seus interesses, parece cada vez mais perdido na condução do rumoroso processo do banco Naufrágio. Idas e vindas indicam que ele pode acabar afundando junto com a instituição que tenta heroicamente salvar. Ou será que, no fim das contas, é tudo mentira?

 

Os textos publicados nesta seção “Pensamento Plural” são de responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Blog.