
Em seu ensaio, o advogado Carlos Pessoa de Aquino discorre sobre crimes passionais, e faz uma ampla abordagem sob o viés jurídico, usando como âncora o crime de Angela Diniz, assassinada por Doca Street, em 1976, após uma discussão, um crime que consternou o País: “E sempre que relembro Ângela Diniz, não penso apenas na vítima de um crime, mas na mulher que ousou viver.” Confira íntegra...
Escrevo estas linhas como quem acende uma vela num templo antigo. Não é apenas memória, não é apenas Direito, não é apenas literatura: é devoção. Devoção ao Tribunal do Júri, essa catedral laica onde a condição humana se revela sem disfarces, onde a vida, a morte, a culpa, o perdão e a esperança se sentam frente a frente, sob o olhar atento do povo. Sempre vi o Júri como um altar em que a advocacia criminal não é profissão, é sacerdócio. Nele, o verbo não é ornamento: é destino. Nele, cada palavra carrega a gravidade de um julgamento que ultrapassa o processo e toca a própria alma da sociedade.
A série sobre Ângela Diniz reacendeu em mim não apenas a lembrança de um caso que marcou uma época, mas o perfume de um tempo em que o Brasil ainda caminhava tateando entre sombras morais e lampejos de consciência. Eu acompanhei aquele episódio na juventude do meu espírito jurídico, e mais tarde tive a honra de conviver com alguns de seus protagonistas, não como personagens históricos, mas como homens de carne, pensamento, afeto e grandeza. Evandro Lins e Silva, cuja amizade guardo como joia rara, era a própria elegância do Direito em forma humana. Seu sobrinho, Técio Lins e Silva, herdeiro de um talento que não se herda apenas pelo sangue, mas pela vocação, pela disciplina e pelo amor à palavra. Do outro lado, na assistência de acusação, Evaristo de Moraes Filho e George Tavares, ambos já chamados pela eternidade, mas ainda vivos em mim como exemplos de coragem, retidão e compromisso com a dignidade da vítima e da Justiça. Não eram adversários no sentido menor da palavra: eram irmãos na mesma fé jurídica, sacerdotes de um mesmo rito, apenas posicionados em lados distintos do altar.
Quando a história de Ângela Diniz retorna pelas lentes da arte, não retorna como espetáculo, mas como espelho. Espelho incômodo, duro, revelador. Ângela não foi apenas uma mulher assassinada; foi o retrato de uma sociedade que se sentia autorizada a vigiar, julgar e punir a liberdade feminina. Ela carregava no próprio corpo e na própria postura o escândalo da autonomia. Vivia como queria, amava como desejava, recusava-se a caber nos moldes estreitos do moralismo patriarcal. Sua existência era, em si, um gesto político, ainda que não militante, ainda que intuitivo, ainda que apenas humano. Talvez por isso tenha sido tão severamente condenada antes mesmo de ser vitimada. A sociedade, muitas vezes, mata antes do crime, mata no discurso, mata no julgamento moral, mata na exclusão simbólica.
Naquele tempo, falava-se em “legítima defesa da honra”. Hoje, essa expressão nos causa repulsa. Mas ela existiu, foi aceita, foi sustentada por tribunais e por uma mentalidade coletiva que confundia honra com posse, amor com domínio, masculinidade com controle. Não se tratava apenas de uma tese jurídica: era uma visão de mundo. A honra masculina, supostamente maculada pela liberdade feminina, tornava-se argumento de absolvição. Como se a mulher fosse extensão da vaidade do homem, como se sua autonomia fosse uma agressão, como se sua vida pudesse ser relativizada por um sentimento ferido. O Direito, que deveria proteger, por vezes espelhava o preconceito. Essa é uma das mais duras lições da história jurídica: também somos filhos do nosso tempo, e nem sempre o nosso tempo é justo.
Mas o Direito é, por essência, um organismo vivo. Ele erra, mas aprende. Ele cai, mas se refaz. Ele reflete a sociedade, mas também a educa. O caso de Ângela Diniz foi uma dessas rupturas necessárias. A frase “Quem ama não mata” não foi apenas um slogan; foi uma epifania coletiva. Foi o momento em que a sociedade começou a compreender que o amor não se prova com posse, não se defende com violência, não se legitima com morte. Amar é preservar, é respeitar, é libertar. Tudo o que foge disso é dominação disfarçada de afeto.
Hoje falamos em feminicídio, e essa palavra carrega a maturidade dolorosa de uma sociedade que passou a nomear a violência para combatê-la. Não é apenas homicídio: é homicídio marcado pelo gênero, pela desigualdade, pelo ódio estrutural contra a autonomia da mulher. O feminicídio é a confissão jurídica de que a violência contra a mulher não é casual, mas histórica, cultural, reiterada. Ao tipificá-lo, o Direito diz: nós enxergamos, nós reconhecemos, nós não aceitamos mais.
E, no entanto, mesmo nesse processo de evolução, eu jamais deixei de ver beleza no Tribunal do Júri. Beleza trágica, é verdade, mas beleza real. Porque ali não julgamos apenas fatos: julgamos consciências. O Júri é o lugar onde o Direito encontra o coração do povo. Onde a técnica se curva diante da sensibilidade. Onde o processo se humaniza. Onde o advogado deixa de ser apenas operador jurídico para se tornar intérprete da condição humana. Sempre disse, e repito: o Júri é o último reduto da poesia no Direito Penal. É o espaço onde a palavra ainda pode salvar, onde a emoção ainda pode iluminar, onde a justiça ainda pode ser sentida antes de ser escrita.
Evandro falava no Júri como quem compunha uma sinfonia. Não precisava de excessos. Sua força estava na serenidade, na clareza, na convicção tranquila de quem sabia que defender não é justificar o erro, mas proteger a dignidade do julgamento. Técio, com a energia do seu tempo, trazia a mesma chama, agora temperada pela contemporaneidade, pela técnica moderna, pelo rigor do processo constitucional. Juntos, representavam a continuidade de uma tradição: a advocacia criminal como expressão elevada da democracia.
Evaristo de Moraes Filho, por sua vez, carregava no olhar o peso da história e no verbo a firmeza da justiça. Não acusava por ódio, mas por dever moral. Sua acusação não era vingança: era defesa da sociedade, da vítima, da dignidade humana. George Tavares, vibrante, intenso, apaixonado pela verdade, fazia da tribuna um lugar de chama viva. Não era possível ouvi-lo sem sentir que a Justiça, ali, respirava. Eles não eram meros assistentes de acusação: eram advogados da dignidade, guardiões da memória da vítima, vozes daqueles que já não podiam falar.
Quando penso nesse duelo de titãs, não vejo guerra. Vejo arte. Vejo beleza. Vejo a advocacia em sua forma mais pura: homens cultos, preparados, éticos, conscientes de que o processo é maior do que suas vaidades. No Júri, ninguém vence sozinho. Quando o Júri é digno, todos vencem: a defesa, a acusação, o réu, a vítima e a própria sociedade.
Ângela Diniz buscava liberdade. E a liberdade, muitas vezes, é mal interpretada por sociedades imaturas. A liberdade feminina, então, sempre foi vista como ameaça. Ela rompe contratos invisíveis de submissão. Ela desafia papéis pré-fixados. Ela expõe o medo masculino de perder o controle. Ângela não queria ser símbolo. Queria apenas viver. Mas a história, cruelmente, transformou sua vida em bandeira. Seu sangue passou a escrever um novo capítulo na consciência jurídica brasileira.
O Direito de Família, que tanto estudei e ensinei, também atravessa essa história. Porque é nele que se formam as primeiras noções de afeto, respeito, posse, cuidado e autonomia. Quando a família é educada na lógica do domínio, o crime germina silenciosamente. Quando é educada na lógica do respeito, a sociedade floresce. O feminicídio não nasce no momento do crime; nasce na formação emocional, nos discursos cotidianos, nos silêncios cúmplices, nas piadas que diminuem, nos gestos que controlam, nas tradições que aprisionam.
Por isso, este texto não é apenas homenagem à série, nem apenas recordação de um caso histórico. É um ato de fé no Direito como instrumento de transformação. É um gesto de amor à advocacia criminal. É uma reverência aos amigos que fizeram do Júri a sua morada espiritual. É um pedido silencioso para que nunca esqueçamos que, antes de sermos operadores do Direito, somos guardiões da dignidade humana.
Eu amo o Júri porque ele é imperfeito como o homem, e grandioso como a esperança. Amo o Júri porque nele o advogado não fala apenas com a lei, mas com a consciência coletiva. Amo o Júri porque ele nos obriga a ser mais humanos do que técnicos, mais éticos do que estratégicos, mais verdadeiros do que vaidosos. Amo o Júri porque nele a Justiça ainda tem rosto, voz, lágrima e silêncio.
E sempre que relembro Ângela Diniz, não penso apenas na vítima de um crime, mas na mulher que ousou viver. Penso na liberdade que assusta. Penso na coragem de ser quem se é. Penso na longa travessia que o Direito precisou fazer para compreender que nenhuma honra vale uma vida, que nenhum amor legitima a morte, que nenhuma paixão autoriza a violência.
Quem ama não mata.
Quem ama protege.
Quem ama respeita.
Quem ama liberta.
E o Tribunal do Júri, quando fiel à sua essência, é o lugar onde essa verdade deixa de ser poesia e se transforma em justiça viva.
E talvez seja por isso que o caso de Ângela Diniz jamais se esgota. Ele não pertence apenas ao passado, não é peça de museu, não é arquivo morto. Ele é uma ferida pedagógica, dessas que doem para ensinar. A cada geração, retorna com nova roupagem, seja no cinema, na televisão, nos livros ou nas salas de aula, para lembrar que o Direito não pode dormir, que a consciência jurídica precisa ser permanentemente vigiada, que a Justiça não é um ponto de chegada, mas um caminho em constante reconstrução.
Quando assisti à série, senti como se estivesse novamente no plenário do Júri, ouvindo o ranger das cadeiras, o silêncio expectante antes das sustentações orais, o olhar atento dos jurados, o peso invisível que paira no ar quando a liberdade e a condenação disputam o mesmo espaço. A dramaturgia conseguiu algo raro: não transformou o Tribunal do Júri em espetáculo vazio, mas em cenário de humanidade. Ali estavam, novamente, as contradições do Brasil, a tensão entre o arcaico e o moderno, entre o machismo enraizado e a consciência nascente dos direitos da mulher.
E eu, que sempre enxerguei o Júri como uma espécie de teatro sagrado, senti-me reconduzido ao meu próprio altar. Porque cada Júri, para mim, é uma missa laica da Justiça. A toga é o paramento, a tribuna é o púlpito, o processo é o evangelho humano, escrito não por deuses, mas por homens falíveis. No Júri, o advogado não fala apenas para convencer; fala para revelar. Revela fragilidades, revela erros, revela contextos, revela a complexidade de uma alma. Por isso, jamais vi o Júri como mero campo de batalha. Vejo-o como território de revelação.
Evandro Lins e Silva compreendia isso como poucos. Sua defesa nunca foi apenas técnica; era humanista. Ele não defendia crimes, defendia pessoas. Não justificava atos, mas explicava destinos. Seu verbo era elegante porque vinha carregado de respeito. Respeito pelo réu, pela vítima, pelos jurados, pela própria Justiça. Técio, seu sobrinho, herdou essa liturgia. Ao vê-lo atuar, sempre reconheci não apenas a continuidade de um nome, mas a persistência de um ideal: a advocacia criminal como exercício de civilização.
Do outro lado, Evaristo de Moraes Filho e George Tavares personificavam a grandeza da assistência de acusação. Porque acusar, no Júri, quando feito com dignidade, é também um ato de amor à Justiça. Eles não falavam movidos por ressentimento, mas por compromisso ético. Eram vozes da vítima, mas também vozes da sociedade que não aceitava mais a naturalização da violência contra a mulher. Naquele embate, não havia ódio. Havia convicção. Havia consciência histórica. Havia o sentimento de que o Júri não estava julgando apenas um homem, mas uma mentalidade.
E que mentalidade era essa? A de que o corpo da mulher era território de posse. A de que sua liberdade precisava de autorização. A de que sua vida podia ser relativizada por um sentimento masculino ferido. A de que a honra do homem valia mais do que a existência da mulher. A tese da “legítima defesa da honra” foi talvez a expressão jurídica mais cruel dessa lógica. Ela vestia de nobreza aquilo que era, na essência, dominação. Era a tentativa de dar roupagem moral ao inaceitável.
Mas o Direito, quando verdadeiramente vivo, reage. Ele se corrige. Ele se refunda. A sociedade brasileira precisou do choque desse caso para despertar. Precisou ver a brutalidade do argumento para rejeitá-lo. Precisou ouvir as vozes femininas nas ruas, nos tribunais, nas universidades, nos lares. Precisou aprender que a honra não se defende com violência, mas com caráter. Que o amor não se prova com controle, mas com respeito. Que a liberdade feminina não é ameaça, é conquista civilizatória.
Hoje, quando falamos em feminicídio, falamos com a consciência de quem já atravessou o deserto da negação. Falamos sabendo que há uma estrutura de desigualdade que precisa ser desmontada. Falamos reconhecendo que o Direito tem papel pedagógico, simbólico e político. Nomear é proteger. Reconhecer é combater. Tipificar é afirmar que a vida da mulher tem valor absoluto.
Por isso, este texto é também um gesto de reconciliação com a história. Não para apagar seus erros, mas para transformá-los em aprendizado. Não para condenar pessoas do passado com os olhos do presente, mas para compreender que o presente só existe porque alguém teve coragem de romper com o passado.
E no centro de tudo isso está o Tribunal do Júri. Sempre ele. Esse espaço onde a democracia se manifesta de forma mais visceral. Onde o povo, representado por seus jurados, olha nos olhos da tragédia humana e decide. Onde a Justiça deixa de ser abstrata e se torna concreta, viva, pulsante. Onde o Direito deixa de ser apenas norma e passa a ser narrativa, consciência e responsabilidade.
Eu amo o Júri porque ele é humano demais para ser perfeito, e imperfeito demais para ser desumano. Amo o Júri porque ele não se esconde atrás de tecnicismos. Ele encara a vida como ela é: contraditória, frágil, intensa. Amo o Júri porque nele o advogado precisa ser inteiro: jurista, psicólogo, filósofo, poeta, sacerdote da palavra e guardião da ética.
E talvez seja por isso que a história de Ângela Diniz dialogue tão profundamente com a história do Júri brasileiro. Ambos revelam nossas contradições. Ambos mostram nossa capacidade de errar e de aprender. Ambos nos obrigam a olhar para dentro.
Ângela buscava viver. O Júri busca julgar. Ambos enfrentaram uma sociedade que, por muito tempo, confundiu controle com amor e violência com honra. Mas ambos também apontam para um futuro onde a dignidade feminina não será concessão, mas fundamento. Onde a liberdade não será exceção, mas regra. Onde a Justiça não precisará mais pedir licença para ser humana.
E enquanto houver Júri, enquanto houver advogados que compreendam sua missão como sacerdócio, enquanto houver homens e mulheres dispostos a defender a vida, a liberdade e a dignidade, a história de Ângela Diniz não terá sido em vão. Ela terá se transformado em semente. Em memória viva. Em chama que ilumina o caminho do Direito.
Porque, no fundo, o Tribunal do Júri é isso: o lugar onde a dor se transforma em consciência, onde a tragédia se converte em aprendizado, onde o passado encontra o futuro, e onde a Justiça, mesmo tardia, ainda pode ser bela.
E eu sempre acreditei que o Júri é a mais alta expressão da pedagogia social do Direito. Ele não apenas julga: ele ensina. Cada julgamento é uma aula pública sobre valores, limites, responsabilidade e humanidade. No caso de Ângela Diniz, o Júri ensinou ao Brasil que havia algo profundamente errado na forma como a mulher era vista, tratada e julgada. Não foi um aprendizado imediato, nem linear, mas foi irreversível. O eco daquele plenário atravessou décadas e ajudou a moldar a consciência jurídica que hoje reconhece o feminicídio como uma chaga social intolerável.
Ao assistir à série, senti que não estava apenas revendo um episódio histórico, mas relendo a própria trajetória do nosso Direito Penal. Era como folhear um livro vivo, no qual cada cena carregava não apenas dramaturgia, mas reflexão. Vi ali o embate entre dois mundos: o mundo antigo, que aceitava a submissão feminina como natural, e o mundo novo, que começa a compreender a mulher como sujeito pleno de direitos, dona de seu corpo, de sua vontade e de seu destino. A arte, nesse caso, não foi ornamento: foi instrumento de consciência.
E penso que a advocacia criminal, sobretudo no Júri, é exatamente isso: consciência em movimento. Não somos meros intérpretes da lei; somos mediadores entre a norma e a vida. Somos tradutores da dor, da culpa, da esperança e do arrependimento. Somos pontes entre a frieza do processo e a pulsação da existência humana. Quando Evandro falava, não falava apenas como advogado; falava como humanista. Quando Evaristo sustentava a acusação, não o fazia como inquisidor, mas como defensor da dignidade ferida. Quando George erguia a voz, era a própria sociedade que parecia clamar por um novo pacto moral. Quando Técio se colocava na tribuna, era a tradição que se renovava, viva, vibrante, atual.
Esse é o verdadeiro duelo de titãs: não a destruição do outro, mas a elevação do debate. No Júri verdadeiro, não se humilha, não se desumaniza, não se banaliza a tragédia. O que se faz é honrá-la com seriedade, com técnica e com ética. Cada palavra precisa ser medida, cada gesto precisa ser sincero, cada silêncio precisa ser respeitado. Porque ali estão vidas. Sempre vidas.
E como não falar, nesse contexto, do Direito de Família? Ele é o ventre de onde brotam nossas primeiras noções de afeto, limite e respeito. Quando a família ensina que amor é posse, prepara o terreno para a violência. Quando ensina que amor é cuidado, constrói a base da paz social. O feminicídio é o desfecho trágico de uma educação emocional fracassada. É o resultado extremo de uma cultura que confundiu autoridade com dominação e zelo com controle. Por isso, combater o feminicídio não é apenas tarefa do Direito Penal: é missão do Direito de Família, da escola, da cultura, da arte, da palavra.
Ângela Diniz, sem talvez o saber, tornou-se símbolo dessa ruptura. Sua vida e sua morte obrigaram o Brasil a se olhar no espelho. E o espelho mostrou um rosto duro, desigual, injusto. Mas também revelou a possibilidade de mudança. Porque o espelho só dói quando ainda há esperança de transformação.
Eu, que vivi o Júri por décadas, que vi lágrimas de réus, de vítimas, de jurados e de advogados, posso afirmar sem hesitação: o Júri é o lugar onde o Direito mais se aproxima da vida. Ele não é laboratório frio. É praça pública da alma. Nele, o advogado não pode mentir para si mesmo. Nele, a técnica sem ética se desmascara. Nele, a eloquência vazia se dissolve. Só permanece aquilo que é verdadeiro.
E talvez seja por isso que sempre amei o Júri. Porque ele não tolera máscaras por muito tempo. Ele exige inteireza. Ele cobra humanidade. Ele pune a soberba e premia a sinceridade. Ele não é tribunal apenas de réus: é tribunal de advogados, de juízes, de promotores, de assistentes de acusação, de toda a sociedade.
Quando penso em Evandro, penso na dignidade da defesa. Quando penso em Evaristo, penso na dignidade da acusação. Quando penso em George, penso na chama da consciência social. Quando penso em Técio, penso na continuidade da esperança. Cada um deles representa uma face da mesma joia: a advocacia como serviço à humanidade.
E o caso de Ângela Diniz, nesse sentido, é uma espécie de rito de passagem do Direito brasileiro. Antes dele, tolerávamos a violência travestida de honra. Depois dele, começamos a desconfiar dessa retórica. Antes dele, a mulher era vista muitas vezes como objeto de disputa emocional. Depois dele, começou a emergir como sujeito de direitos. Antes dele, o Júri refletia a sociedade sem questioná-la. Depois dele, passou a ser chamado a transformá-la.
Nada disso aconteceu de forma mágica. Foi luta. Foi dor. Foi resistência. Mas foi avanço.
E é por isso que a frase “Quem ama não mata” permanece tão poderosa. Ela é simples como uma verdade fundamental. Ela dispensa códigos, tratados e manuais. Ela fala direto à consciência humana. Quem ama não mata porque amar é reconhecer o outro como fim em si mesmo, nunca como propriedade. Quem ama não mata porque matar é a negação absoluta do amor. Quem ama não mata porque o amor é vida em estado de reverência.
Quando escrevo este texto, escrevo também como professor. Penso nos meus alunos, futuros criminalistas, familiaristas, operadores do Direito. Quero que eles compreendam que a advocacia não é apenas técnica, é postura ética diante do mundo. Quero que eles saibam que cada processo carrega uma história humana. Que cada tese jurídica tem consequências existenciais. Que cada palavra dita em plenário pode ferir ou curar.
Quero que entendam que o Júri não é palco de vaidades, mas espaço de serviço. Que não é arena de guerra, mas templo de responsabilidade. Que não é lugar para humilhar, mas para compreender. Que não é espetáculo, mas liturgia.
E quero que saibam que casos como o de Ângela Diniz não são apenas conteúdos de séries ou capítulos de livros. São marcos civilizatórios. São convites permanentes à reflexão. São alertas de que a Justiça precisa ser permanentemente vigiada, revisitada e humanizada.
Porque, no fim, o Direito só vale quando protege a vida. Só é legítimo quando defende a dignidade. Só é justo quando promove a liberdade.
E o Júri, com toda a sua imperfeição e grandeza, é o lugar onde essa verdade se manifesta de forma mais crua e mais bela.
E talvez seja por isso que sempre digo que o Tribunal do Júri não é apenas uma instituição jurídica: é uma experiência espiritual do Direito. Nele, não julgamos apenas fatos, mas valores. Não avaliamos apenas provas, mas consciências. Não aplicamos apenas normas, mas projetamos o tipo de sociedade que desejamos ser. Cada Júri é um retrato moral do seu tempo. Cada veredicto é uma fotografia da alma coletiva.
No caso de Ângela Diniz, o Júri foi convocado a decidir mais do que o destino de um homem. Foi chamado a decidir se a vida de uma mulher podia ser relativizada em nome de uma suposta honra. Foi chamado a responder se o amor poderia ser confundido com posse. Foi chamado a escolher entre o passado que tolerava a violência e o futuro que começava a rejeitá-la. Por isso, aquele julgamento ultrapassou os limites do processo e se transformou em marco cultural.
Eu sempre vi nesses momentos uma beleza grave, quase solene. A beleza do Direito quando ele é obrigado a amadurecer. A beleza do conflito que gera consciência. A beleza amarga da dor que educa. Porque há tragédias que não podem ser em vão. Há mortes que clamam por transformação. Há histórias que exigem que o mundo não permaneça o mesmo depois delas.
A série, ao revisitar esse episódio, cumpre um papel que vai além do entretenimento. Ela reabre o debate, provoca reflexão, reacende a memória. Faz com que novas gerações entendam que os direitos das mulheres não foram concessões espontâneas, mas conquistas arrancadas da resistência, do sofrimento e da coragem. Faz com que percebam que o feminicídio não é um fenômeno isolado, mas o resultado extremo de uma cultura que por muito tempo naturalizou a desigualdade.
E eu, que vivi o Júri como vocação e destino, sinto-me honrado por poder escrever sobre isso não apenas como observador, mas como participante da mesma tradição que aqueles gigantes da advocacia representaram. Evandro, Técio, Evaristo e George não são apenas nomes na história: são arquétipos da grande advocacia brasileira. Representam a defesa forte, a acusação ética, o embate digno, a palavra elevada. Representam a ideia de que o Direito pode ser duro sem ser cruel, rigoroso sem ser desumano, técnico sem ser frio.
Quando penso neles, penso no Júri como uma orquestra. Cada instrumento tem sua função. A defesa traz a humanidade do acusado. A assistência de acusação traz a voz da vítima. O juiz rege o equilíbrio. Os jurados traduzem a consciência social. E o silêncio do plenário é o espaço sagrado onde a decisão amadurece. Não há música sem tensão. Não há harmonia sem conflito. Mas quando todos tocam com respeito, nasce algo maior que a soma das partes: nasce a Justiça possível.
A legitimidade do Júri não vem da perfeição, mas da sinceridade. Ele não promete infalibilidade, promete humanidade. Ele não garante ausência de erros, garante participação popular. Ele não oferece respostas fáceis, oferece responsabilidade coletiva. Por isso ele é tão poderoso. Por isso ele é tão belo. Por isso ele é tão temido e tão amado.
Ângela Diniz, com sua história interrompida, obrigou o Júri a ser mais do que um tribunal: a ser consciência histórica. Sua vida e sua morte se tornaram símbolo de uma transição civilizatória. Ela passou a representar a mulher que não aceita cabrestos, que não pede permissão para existir, que não negocia sua dignidade. E isso, numa sociedade patriarcal, é revolucionário.
Não há como falar desse caso sem falar da liberdade. A liberdade que assusta. A liberdade que incomoda. A liberdade que desorganiza estruturas antigas. A liberdade feminina sempre foi vista como ameaça porque revela a fragilidade de poderes construídos sobre a dominação. Mas não há Justiça sem liberdade. Não há amor sem liberdade. Não há dignidade sem liberdade.
E é por isso que, hoje, ao olhar para trás, vejo a “legítima defesa da honra” não apenas como uma tese jurídica equivocada, mas como um retrato de uma época que precisava ser superada. Ela simbolizava o medo masculino da autonomia feminina. Simbolizava a tentativa de manter intacto um mundo que já estava ruindo. Sua superação não foi apenas jurídica: foi moral, cultural e civilizatória.
O Direito, quando é grande, acompanha esse movimento. Ele deixa de proteger privilégios e passa a proteger pessoas. Deixa de legitimar estruturas opressoras e passa a afirmar a dignidade humana como valor absoluto. Foi isso que começou a acontecer após casos como o de Ângela Diniz. Lentamente, dolorosamente, mas de forma irreversível.
Por isso, escrevo este texto como quem escreve uma carta de amor ao Júri. Um amor crítico, consciente, maduro. Não um amor ingênuo, mas um amor que reconhece as falhas e, justamente por isso, acredita na possibilidade de aprimoramento. Amo o Júri porque ele é o espaço onde o Direito ainda respira humanidade. Onde o advogado não pode se esconder atrás de fórmulas. Onde a palavra ainda tem peso existencial.
E amo a advocacia criminal porque ela nos obriga a olhar para o abismo sem perder a fé no ser humano. Ela nos coloca diante do erro sem abandonar a esperança. Ela nos faz defender pessoas em seus momentos mais frágeis, mais sombrios, mais desesperados. Isso exige coragem. Exige humildade. Exige amor.
O Júri, nesse sentido, é a mais alta prova de amor ao Direito. Porque ali não há garantias de vitória, apenas a certeza do compromisso. Compromisso com a verdade possível. Compromisso com a dignidade humana. Compromisso com a Justiça como valor ético e não apenas formal.
E é por isso que a história de Ângela Diniz continuará sendo contada. Não para reabrir feridas, mas para evitar que elas se repitam. Não para alimentar ódio, mas para fortalecer a consciência. Não para explorar tragédias, mas para educar o futuro.
Enquanto houver Júri, haverá esperança de que a sociedade possa se rever.
Enquanto houver advogados que falem com ética e paixão, haverá possibilidade de Justiça.
Enquanto houver memória, haverá aprendizado.
E enquanto houver textos como este, escritos não com a tinta da neutralidade, mas com a tinta do amor ao Direito, o caso de Ângela Diniz não será apenas lembrança dolorosa, mas semente de um mundo mais digno, mais justo e mais humano.
E então, ao evocarmos Ângela Diniz, não falamos apenas de um nome inscrito na crônica policial de um país que ainda aprendia a compreender a gravidade da violência contra a mulher. Falamos de um símbolo que rasgou o véu da naturalização da brutalidade, de uma história que obrigou o Brasil a encarar, com dor e vergonha, o quanto a cultura do machismo estrutural transformava o agressor em “apaixonado” e a vítima em “provocadora”.
Ângela tornou-se espelho incômodo de uma sociedade que, por muito tempo, romantizou a violência e absolveu o algoz em nome de uma suposta “defesa da honra”. Seu nome passou a ecoar não apenas como memória de uma vida interrompida, mas como um grito coletivo por justiça, dignidade e mudança. A sua história ajudou a deslocar consciências, a despertar movimentos, a fortalecer o clamor feminino por respeito e igualdade.
Ela deixou de ser apenas pessoa para se tornar símbolo. Símbolo de quantas mulheres foram silenciadas antes dela. Símbolo de quantas ainda lutam para viver plenamente sua liberdade, seus afetos, seus sonhos e sua autonomia. Sua lembrança expõe a urgência de um Direito que não seja cúmplice da opressão, mas guardião da vida; de uma Justiça que não relativize a violência, mas a combata com rigor e humanidade.
E é nesse ponto que a memória de Ângela Diniz ultrapassa o passado: ela se projeta como advertência e compromisso. Advertência para que jamais se aceite qualquer narrativa que justifique o injustificável. Compromisso para que o Direito, a educação e a cultura caminhem juntos na construção de uma sociedade onde amar jamais seja sinônimo de dominar, ferir ou destruir.
Assim, Ângela não é apenas recordação trágica. Ela é semente de consciência. É chama que ilumina a luta contra o feminicídio. É apelo permanente para que a dignidade feminina não seja concessão, mas princípio inegociável.
Porque lembrar Ângela Diniz é, acima de tudo, afirmar que nenhuma vida pode ser relativizada, nenhum corpo pode ser tratado como posse, e nenhum silêncio pode ser mais forte que o direito de existir em liberdade.
E é por isso que, diante da memória de Ângela, eu me volto ao Tribunal do Júri como quem se volta a um altar laico da democracia. Ali, onde a palavra disputa com o silêncio, onde a verdade luta contra o preconceito, onde a Justiça não é apenas técnica, mas consciência viva da sociedade. O Júri é o coração pulsante do Direito Penal humano, o espaço em que a cidadania se faz voz, e a voz se faz responsabilidade histórica.
No Tribunal do Júri, aprendi que cada causa é mais do que um processo: é um fragmento da alma social que pede compreensão, equilíbrio e coragem. Ali, o advogado criminalista não defende apenas pessoas; defende princípios, defende a dignidade, defende a própria possibilidade de um Direito que seja justo sem deixar de ser humano. Ali, o verbo é ponte, a toga é compromisso, e a palavra é instrumento de vida.
Minha paixão pela advocacia criminal nasce desse chão sagrado, onde a Justiça se constrói não no conforto das certezas, mas na coragem das dúvidas. Amar o Júri é aceitar o risco, é abraçar a imperfeição humana, é crer que ainda é possível transformar dor em consciência e tragédia em aprendizado coletivo. É lutar para que nenhuma morte seja banalizada, para que nenhum corpo seja esquecido, para que nenhuma mulher seja reduzida a estatística.
O Tribunal do Júri é poesia viva. É drama, é tensão, é esperança. É o palco onde a ética se coloca à prova e a humanidade é convocada a decidir seu próprio destino. Por isso, minha devoção a ele é eterna: porque ali o Direito respira, o povo julga, e a Justiça tenta, a cada dia, ser um pouco mais justa.
E assim, entre Ângela Diniz e o Júri, entre a memória e a luta, entre a dor e a esperança, segue minha advocacia criminal: não como profissão, mas como vocação; não como técnica fria, mas como chama que arde; não como discurso vazio, mas como ato de amor ao humano.
Porque enquanto houver um Tribunal do Júri em funcionamento, haverá a possibilidade de redenção do próprio Direito. E enquanto houver um advogado criminalista que creia na dignidade da vida, haverá resistência contra a barbárie.
Essa é a minha fé.
Essa é a minha paixão.
Essa é a minha eterna ode à Justiça.
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