
O artigo do escritor Palmarí de Lucena analisa como as crises financeiras expõem duas reações recorrentes da política: o silêncio prolongado e a acusação apressada. A partir do caso do Banco Master, Palmarí argumenta que a inércia política fragiliza a confiança institucional, enquanto a politização imediata obscurece responsabilidades reais. Entre omissão e ruído, perde-se a chance de investigação técnica, transparência e aprendizado institucional, fundamentais para preservar a credibilidade do sistema financeiro e da própria democracia. Confira íntegra...
Crises financeiras costumam provocar duas reações simultâneas e igualmente problemáticas no debate público. De um lado, o silêncio prolongado da classe política, que demora a se manifestar ou se esconde atrás de cautelas formais. De outro, a acusação imediata, quase automática, que aponta partidos e políticos antes mesmo que os fatos sejam plenamente apurados. Entre a inércia e o julgamento apressado, perde-se o essencial: clareza, método e responsabilidade institucional.
O episódio envolvendo o Banco Master ilustra esse descompasso. As suspeitas relacionadas a operações financeiras de alto risco, estruturas pouco transparentes e estratégias agressivas de captação levantaram alertas relevantes para o sistema financeiro. Ainda assim, a resposta política foi marcada mais pela hesitação e pelo ruído do que por iniciativas consistentes de esclarecimento público.
A inércia costuma ser justificada como prudência. Processos são complexos, investigações exigem cuidado, decisões precipitadas podem gerar injustiças. Tudo isso é verdadeiro — até o ponto em que a prudência se transforma em álibi. Quando sinais de risco se acumulam e nenhuma instância política se mobiliza para exigir informações, promover audiências ou cobrar explicações formais, o silêncio deixa de ser neutro. Ele passa a produzir efeitos.
Há razões estruturais para essa paralisia. O sistema político convive de forma contínua com o sistema financeiro: vota suas regras, dialoga com seus atores e depende de sua estabilidade para sustentar políticas públicas. Esse entrelaçamento não implica, por si só, conivência, mas cria zonas de conforto. Questionar demais gera atrito; agir cedo tem custo político. O resultado é uma vigilância frequentemente reativa, acionada apenas quando o problema já ganhou dimensão pública.
Esse vazio, no entanto, é rapidamente ocupado pela acusação apressada. Antes que se estabeleçam nexos claros entre decisões, omissões e responsabilidades, surgem tentativas de enquadrar episódios complexos como culpa direta deste ou daquele partido, deste ou daquele campo ideológico. É um reflexo compreensível em ambientes polarizados, mas intelectualmente pobre. O sistema financeiro não nasce nem se desfaz em um único governo, nem responde a uma única orientação partidária.
A rotulagem instantânea produz um efeito paradoxal: protege o que deveria ser examinado com rigor. Em vez de discutir governança, incentivos distorcidos, falhas de supervisão e mecanismos de prevenção, o debate se reduz a trocas previsíveis de acusações. A indignação torna-se performática; a responsabilização, difusa.
Isso não significa absolver a política, mas exigir mais dela. A cobrança legítima não está em apontar culpados genéricos, e sim em perguntar quem tinha poder de agir, quem recebeu alertas, quem deixou de fazê-lo — e por quais razões. Essas perguntas são menos ruidosas, mas muito mais eficazes para evitar a repetição de erros.
Há ainda um risco democrático nessa dinâmica. Quando toda crise é apresentada como prova definitiva da falência da política como um todo, alimenta-se um ceticismo corrosivo. A ideia de que “todos são iguais” pode parecer sedutora no curto prazo, mas abre espaço para soluções simplistas, que prometem ordem sem método e punição sem critério.
Crises financeiras exigem investigação técnica, transparência e tempo. Exigem também uma política capaz de agir sem histeria e sem omissão. O silêncio prolongado corrói a confiança; a acusação apressada compromete a verdade. Entre um e outro, perde-se a oportunidade de aprendizado institucional.
Em democracias maduras, o desafio não é escolher entre calar ou acusar, mas agir com precisão. Nem a inércia que protege, nem o ruído que confunde. Porque, quando o debate público oscila entre o silêncio político e a culpa antecipada, o risco deixa de ser apenas financeiro. Torna-se institucional.
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