
Em seu comentário, o professor Emir Candeia reflete sobre a crise da Groelândia, com a investida do presidente Trump. Emir se funda, no texto, em palestra do professor Alexandre Bertocello, versando sobre as questões de geopolítica que envolvem o debate sobre a Groelândia. Bertocello sinaliza os interesses que envolvem a ofensiva americana numa região que pode marcar o próximo conflito entre potências pelo Ártico. Confira íntegra...
Baseado em palestra do professor Bertocello, é necessário tratar a possível anexação da Groenlândia pelos Estados Unidos fora do campo emocional, ideológico ou moral. Trata-se de geopolítica dura, do tipo que define quem controla o próximo século.
A Groenlândia ocupa uma posição única e estratégica: está localizada entre os Estados Unidos, a Europa e a Rússia, no coração do Ártico. Essa região deixou de ser apenas um território gelado e periférico para se tornar a nova rota marítima comercial global — possivelmente a mais importante do mundo nas próximas décadas.
Hoje, essa rota é majoritariamente controlada pela Rússia, que já conseguiu reduzir em cerca de 50% o tempo de transporte entre a Ásia e a Europa. Isso não é apenas logística: é poder econômico, poder naval, controle das cadeias globais e redução brutal do custo do frete. Quem domina a rota domina o comércio.
A Groenlândia é o ponto-chave desse tabuleiro. Quem controla a ilha controla: a vigilância aérea do Ártico, a rota marítima, a defesa antimíssil, e a instalação de sistemas de interceptação antecipada de mísseis.
Para os Estados Unidos, isso é vital. Interceptar um míssil antes de ele se aproximar do território americano é a diferença entre defesa e vulnerabilidade. Não se trata de projeção de poder abstrata, mas de segurança nacional concreta.
Enquanto o Ocidente debate resoluções, a Rússia constrói. Hoje, a Rússia possui mais de 50 bases militares no Ártico, com pistas aéreas, portos militares, sistemas de mísseis e a maior frota de quebra-gelos do mundo, incluindo sete de propulsão nuclear. Isso não é retórica: é infraestrutura real, instalada e operacional.
Do outro lado, a China avança de forma silenciosa e eficiente. Investe em: portos no norte da Europa, infraestrutura logística ligada à Nova Rota da Seda, mineração na Groenlândia, e, principalmente, terras raras.
A China já controla mais de 70% do refino mundial de terras raras, insumos essenciais para: baterias, mísseis nucleares, inteligência artificial, sistemas militares avançados.
E a Groenlândia possui reservas não exploradas estratégicas desses minerais. Quem chegar primeiro não apenas extrai — define as regras do jogo.
Enquanto isso, a OTAN conta com 32 países, mas mais da metade não cumpre a meta mínima de 2% do PIB em gastos militares. Os Estados Unidos bancam mais de 65% do orçamento da OTAN. Ou seja, pagam a conta, têm o poder militar e, logicamente, querem definir a estratégia.
O problema é que a Europa insiste em operar por meio de: resoluções, conselhos, votações, cooperação burocrática, discursos morais. Isso é lento. Geopolítica não espera consenso.
Rússia e China jogam de outra forma: estratégia clara, logística pesada, ocupação territorial e objetivos definidos. Sem espetáculo. Sem discursos vazios.
Os Estados Unidos entendem que precisam se antecipar, marcar presença e consolidar posição antes que Rússia e China completem seu avanço no Ártico. A questão não é se Trump é simpático ou antipático. Isso é irrelevante.
A questão central é simples: quem controla as rotas, os minerais e as bases logísticas controlará o próximo século.
Grande parte do Ocidente ainda acredita que geopolítica funciona como uma assembleia: discursos, resoluções e boas intenções. A realidade é outra. O mundo real é decidido por quem chega primeiro, constrói primeiro e controla primeiro.
No Ártico, não vence quem fala melhor. Vence quem ocupa.
A Groenlândia é como um cruzamento de rodovias no deserto: quem controla o entroncamento decide quem passa, quanto paga e quem fica de fora. Não é uma questão de simpatia, é uma questão de controle do fluxo.
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