PENSAMENTO PLURAL Quando a cidade vira passagem — e a orla vira produto, por Palmarí de Lucena

O comentário do escritor Palmarí de Lucena adverte contra o desaparecimento de marcos urbanos e a progressiva “maceionização” da orla de João Pessoa revelam um mesmo processo: a troca da cidade vivida pela cidade funcional. Em nome da fluidez e da ativação econômica, perde-se a legibilidade, identidade e vínculo simbólico. A ocupação improvisada e permanente do espaço público transforma paisagem em passagem, memória em ruído. “Ganha-se eficiência operacional; perde-se narrativa urbana e pertencimento cotidiano”, pontua. Confira íntegra...

O desaparecimento dos totens do Largo da Gameleira e o processo de maceionização da orla de João Pessoa não são episódios isolados. Ambos revelam uma mesma tendência urbana: a substituição gradual do lugar pela passagem, da paisagem pela ocupação funcional, da memória coletiva pelo uso imediato do espaço público. A cidade segue operando, mas já não se apresenta com a mesma clareza a quem a habita.

Marcos urbanos — esculturas, totens, elementos singulares — não são ornamentos dispensáveis. Organizam o olhar, oferecem referências e ajudam a transformar áreas de circulação em lugares reconhecíveis. Quando são removidos sem critérios explícitos ou debate público, elimina-se mais do que um objeto físico: apaga-se uma camada de leitura urbana e enfraquece-se o vínculo simbólico entre o cidadão e a cidade.

A justificativa costuma recorrer a termos respeitáveis — fluidez, modernização, eficiência. São argumentos legítimos, mas insuficientes quando aplicados de forma isolada. Cidades não se sustentam apenas por circulação desobstruída e soluções padronizadas. Precisam também de pausas visuais, singularidades e referências capazes de interromper o automatismo do deslocamento cotidiano.

Essa lógica se projeta hoje sobre a orla, em um movimento que pode ser descrito como maceionização. Um litoral historicamente marcado pela abertura visual, pela contenção da verticalização e pela relação direta com o mar passa a conviver com fileiras de banheiros químicos, trailers de alimentação rápida e estruturas provisórias que se tornam permanentes. Em muitos trechos, a vista marítima é fragmentada, e o mar deixa de ser protagonista para ocupar um plano secundário.

Nesse contexto, chama atenção a naturalização de um barraquismo espontâneo, frequentemente apresentado como requalificação de logradouros. A ocupação desordenada, improvisada e visualmente poluente passa a ser legitimada por um discurso de “ativação” do espaço público, como se qualquer presença fosse sinônimo de urbanidade. Confunde-se vitalidade com saturação, uso com apropriação precária, planejamento com tolerância ao improviso permanente.

Soma-se a isso a ocupação intensiva do espaço público por publicidade e a sobreposição de eventos, sons e fluxos que produzem ruído contínuo. O espaço torna-se economicamente ativo, mas progressivamente menos convidativo à permanência cotidiana e ao uso qualificado.

Não se trata de rejeitar o turismo ou a atividade econômica associada à orla, ambos componentes legítimos da dinâmica urbana. O ponto de inflexão surge quando essas atividades deixam de se integrar ao projeto da cidade e passam a orientá-lo. Decisões pontuais, ainda que justificadas individualmente, produzem efeitos cumulativos e alteram o modelo urbano sem que haja discussão pública sobre o conjunto.

A poluição associada a restaurantes, a proliferação de barracas no Largo da Gameleira, a decadência do Hotel Tambaú e de seu entorno, assim como a maceionização da orla, convergem para um mesmo resultado: a perda de narrativa urbana. Ganha-se eficiência operacional, perde-se identidade. A cidade torna-se mais veloz e funcional, porém menos legível para quem a habita — sobretudo para o morador que permanece quando as estruturas são desmontadas e o espaço público deixa de ser projeto para se tornar apenas ocupação.

 

Os textos publicados nesta seção “Pensamento Plural” são de responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Blog.