
O texto do escritor Palmarí de Lucena descreve “o canalhismo como método de poder — uma prática reiterada que corrói instituições, normaliza o ilícito e esvazia a democracia por dentro”. Na política, na economia, na cultura e no urbanismo, ele se manifesta pela esperteza predatória, pelo desprezo ao interesse público e pela captura de recursos e discursos. Seu triunfo não está apenas em governar mal, mas em anestesiar a indignação, transformar o escândalo em rotina e tornar a democracia refém da indiferença. Confira íntegra...
A palavra é antiga, dura e incômoda. Canalha não designa um erro pontual nem uma divergência ideológica legítima. Nomeia um modo de agir, uma ética da esperteza, uma prática reiterada que corrói instituições por dentro enquanto finge respeitá-las. Quando a canalha se instala na política, ela não governa — parasita.
No Congresso, prospera na zona cinzenta entre o legal e o ilegítimo. Não se move por projetos de país, mas por emendas negociadas na penumbra, blindagens cruzadas e fidelidades circunstanciais. Seu talento não está na elaboração de leis, mas na engenharia do atraso: adiar investigações, esvaziar comissões, relativizar escândalos. O resultado é um Parlamento ativo na forma, mas esvaziado no conteúdo.
A segurança pública talvez seja o campo em que esse canalhismo cobra seu preço mais visível. Enquanto o crime organizado se estrutura, ocupa territórios e diversifica suas fontes de renda, parte do poder público responde com negligência, improviso e retórica. Falta coordenação, investimento continuado, inteligência policial e políticas baseadas em evidência. A população paga com medo cotidiano; a canalha, com indiferença.
Na economia, o canalhismo assume forma concreta. Lavagem de dinheiro, captura de setores inteiros, simbiose entre atividades ilícitas e mercados aparentemente regulares. Não se trata apenas de corrupção clássica, mas da normalização do ilícito como método. Onde a canalha manda, a concorrência honesta recua, o investimento produtivo se retrai e o risco passa a ser medido pela proximidade com o poder.
A colaboração com interesses estrangeiros prejudiciais ao país completa o quadro. A canalha não reconhece soberania como valor permanente — apenas como retórica ocasional. Quando convém, submete agendas nacionais a governos estrangeiros, grupos econômicos oportunistas ou disputas geopolíticas alheias, em troca de proteção, visibilidade ou ganhos imediatos. Não é diplomacia nem pragmatismo responsável, mas alinhamento servil, à revelia do interesse público. O país vira moeda de troca simbólica, com perda de credibilidade e custo econômico real. O padrão se repete: ganho imediato para poucos, prejuízo duradouro para o Brasil.
A cumplicidade com a degradação ambiental obedece à mesma lógica predatória. A canalha não apenas explora a crise climática — organiza-se para lucrar com ela. Flexibiliza normas urbanísticas, desmonta a fiscalização, intimida técnicos e converte o território em mercadoria de curto prazo. Florestas são suprimidas para abrir caminho a empreendimentos imobiliários que prometem segurança e exclusividade, mas produzem segregação territorial: condomínios murados, cercas elétricas, vigilância privada e a naturalização de um apartheid socioambiental. O dano não é colateral; é estrutural, pois destrói ecossistemas, fragmenta cidades e institucionaliza a desigualdade no desenho urbano.
O canalhismo também se dissemina pela cultura como método. Sua marca é a vulgaridade estratégica: o rebaixamento deliberado da linguagem, do gosto e do debate, não como expressão popular legítima, mas como tática de ocupação do espaço público. O choque substitui o argumento, o insulto ocupa o lugar da crítica e a grosseria é vendida como autenticidade. Ao normalizar o tosco e o agressivo, esse processo anestesia o debate e empobrece o horizonte comum. Não se trata de censurar linguagens populares, mas de denunciar a instrumentalização do mau gosto como ferramenta de poder.
Essa lógica se completa na gestão do dinheiro público. Milhões do contribuinte financiam grandes shows enquanto serviços essenciais permanecem precarizados. Sob o pretexto de “democratização da cultura”, recursos são concentrados em poucos nomes e produtores, sem critérios transparentes de impacto, contrapartida social ou prioridade. O espetáculo vira política pública; o aplauso, prestação de contas. Em programas eleitorais municipais, falta quase tudo — menos barulho.
Nesse ambiente, escândalos deixam de ser exceção e viram rotina. A canalha aposta no cansaço moral da sociedade, na repetição que anestesia, na crença de que “sempre foi assim”. Seu triunfo não está apenas em vencer eleições, mas em destruir o senso de indignação.
É também nesse contexto que o golpismo retórico opera como bandeira permanente de um segmento do Parlamento. Não como ameaça concreta ao regime, mas como instrumento de agitação e distração. Grita-se contra fantasmas institucionais enquanto se evita discutir segurança, economia real, crime organizado, educação ou meio ambiente. O barulho substitui o trabalho; a provocação ocupa o espaço da solução.
Quando tribunais são pressionados, agências reguladoras são aparelhadas e órgãos de controle são desmoralizados, não se trata de falha acidental. É método. A canalha sabe que instituições fortes limitam seus ganhos; por isso, trabalha para enfraquecê-las ou torná-las decorativas.
Nada disso é inevitável. Canalhas não surgem do nada nem governam sozinhos. Dependem de cumplicidades, silêncios estratégicos e relativismos convenientes. Combatê-los exige menos retórica moralista e mais compromisso institucional: transparência efetiva, fiscalização real, punição previsível e memória pública.
Chamar a canalha pelo nome não é exagero retórico. É precisão. Em tempos de linguagem diluída, recuperar palavras duras é lembrar que há limites — e que atravessá-los tem custo. Quando o canalhismo vira método, a democracia deixa de ser imperfeita e passa a ser refém.
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