PENSAMENTO PLURAL A lenta pedagogia da tirania, por Palmarí de Lucena

A partir da reflexão de David Brooks publicada no New York Times, o artigo do escritor Palmarí de Lucena examina sinais de tensão institucional nos Estados Unidos, relacionando política contemporânea e interpretações históricas da concentração de poder. O texto aborda o enfraquecimento de mecanismos democráticos, a personalização das decisões de governo e a perda gradual de hábitos cívicos, recorrendo a autores clássicos para contextualizar riscos recorrentes em sistemas políticos submetidos a lideranças fortemente centralizadoras. Confira íntegra...

Este artigo parte de uma reflexão recente do colunista David Brooks, publicada no New York Times. Não se trata de tradução nem de glosa, mas de uma leitura crítica, inspirada em seus argumentos, sobre sinais de deterioração institucional e moral nos Estados Unidos — sinais que já ultrapassam a conjuntura e começam a produzir efeitos estruturais.

Brooks cita uma observação do chefe de polícia de Minneapolis, Brian O’Hara, que afirma temer “o momento em que tudo explode”. A frase funciona como alerta. Mais do que um episódio específico, ela aponta para uma sequência de eventos que sugere trajetória. Em política, trajetórias importam mais do que fatos isolados.

Segundo Brooks, essa trajetória envolve ao menos quatro processos simultâneos. O primeiro é o enfraquecimento da ordem internacional do pós-guerra. O segundo, a erosão da tranquilidade interna, sobretudo quando o Estado se apresenta como força de coerção em operações migratórias. O terceiro, o desgaste da ordem democrática, visível em ataques a instituições de contenção e no uso instrumental do sistema judicial. O quarto, mais difícil de mensurar, diz respeito ao estado psicológico do presidente.

Esses processos não são independentes. O último tende a alimentar os demais. O narcisismo associado ao poder raramente se estabiliza. Ao contrário, intensifica-se com o tempo, à medida que desaparecem inibições e se enfraquece o senso de limite. Quando isso ocorre no comando do Estado, decisões públicas passam a refletir impulsos privados.

Todo presidente tende a se tornar mais autocentrado ao longo do mandato. Quando se parte, porém, de um nível já elevado de autossuficiência moral, o resultado é previsível: grandiosidade, sensação de exceção permanente, redução da empatia e reações desproporcionais a críticas ou contrariedades.

Nos últimos anos, esse padrão ganhou uma dimensão adicional com a banalização do recurso à força. A política externa torna-se errática quando passa a operar como extensão de impulsos pessoais, dissolvendo critérios de prudência e previsibilidade.

A história sugere que a tirania não evolui para a moderação. Evolui para a degradação. Governantes intoxicados pelo próprio poder tendem a perder freios, ampliar riscos e cercar-se de lealdades interesseiras. O isolamento cresce; a paranoia também. O Estado passa a confundir autopreservação com interesse público.

Por isso, Brooks recorre aos historiadores da Roma antiga. Autores como Salústio e Tácito compreenderam a relação direta entre moral privada e ordem pública. Quando a primeira se deteriora, a segunda dificilmente se sustenta.

Edward Gibbon observou que o amor ao poder é a mais antissocial das paixões humanas, pois exige submissão coletiva para satisfazer o orgulho individual. Em contextos de discórdia, escreveu, as leis perdem força e raramente são substituídas pela humanidade. A política deixa de ser mediação e passa a ser confronto.

No século XVIII, Edward Wortley Montagu distinguiu ambição de desejo de dominação. A ambição pode servir ao bem comum. A dominação, não. Trata-se de uma paixão autocentrada, que atrai tudo para si e expulsa as virtudes sociais. O tirano associa-se apenas aos que aceitam mentir continuamente em seu favor. Amizades e inimizades tornam-se intercambiáveis conforme a conveniência.

Tácito descreveu com precisão os efeitos desse processo sobre a sociedade. No início, há uma corrida à servidão: aduladores se multiplicam. A lisonja cresce até eliminar qualquer resquício de dignidade. Em seguida, os moralmente íntegros se retraem. O espaço público se empobrece. O excesso de abusos anestesia a sociedade; o que antes chocava passa a parecer normal.

Com o tempo, perdem-se hábitos democráticos essenciais: a persuasão, o compromisso, a confiança, a intolerância à corrupção, a moderação. “É mais fácil esmagar o ânimo dos homens do que reavivá-lo”, escreveu Tácito. A inércia forçada acaba sendo aceita — e, por fim, desejada.

Não é razoável afirmar que os Estados Unidos caminhem para um colapso à maneira de Roma. Suas instituições são mais robustas, e a cultura democrática ainda resiste. Mas também não é possível ignorar que muitos acontecimentos recentes são impulsionados pela psicologia de um único líder.

A história registra poucos casos de governantes intoxicados pelo poder que, já em rota de radicalização, tenham recuperado espontaneamente o senso de limite. O curso mais frequente é o da aceleração do processo.

Talvez por isso os fundadores da República americana tenham lido Tácito com tanta atenção. Eles sabiam que nenhuma arquitetura constitucional é suficiente quando o desejo de poder deixa de ser contido por freios éticos internos. Sem esse limite, o funcionamento regular das instituições torna-se frágil, mesmo em democracias consolidadas.

 

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