
O texto do escritor Palmarí de Lucena analisa como o uso impreciso da linguagem no debate público não é mero problema de estilo, mas falha estrutural de raciocínio. Ao substituir explicações por categorias vagas, metáforas esportivas ou jargão tecnocrático, o discurso político dilui responsabilidades e obscurece desigualdades reais. O ensaio sustenta que a precisão vocabular é condição institucional da democracia: sem categorias claras, diagnósticos se empobrecem, políticas perdem eficácia e a imaginação pública se estreita. Confira íntegra...
O debate público costuma tratar a linguagem como questão de estilo. Na prática, ela é método de raciocínio. As palavras usadas para descrever grupos sociais, conflitos políticos e políticas públicas fazem mais do que comunicar ideias: moldam responsabilidades, definem prioridades e delimitam o que pode — ou não — ser discutido de forma aberta.
Nos últimos anos, o discurso público passou a recorrer com frequência a expressões que soam técnicas, neutras ou culturalmente familiares, mas que são usadas de modo a borrar distinções essenciais. Faixa etária confunde-se com renda; categorias biológicas, com resultados sociais; desempenho, com valor cívico. Esses atalhos podem facilitar a comunicação, mas empobrecem a análise.
Termos como “população em idade ativa”, “idosos vulneráveis” ou “jovens em situação de risco” não são problemáticos em si. As dificuldades surgem quando passam a funcionar como explicações, e não apenas como descrições. Idade não determina segurança econômica; juventude não equivale a precariedade; envelhecimento não implica dependência. Quando categorias analíticas se fundem por conveniência, fatores estruturais — educação, mercado de trabalho, exclusão histórica — saem de cena.
Na saúde pública, ocorre desvio semelhante. Expressões criadas para fins epidemiológicos, como “população sexualmente ativa”, por vezes são deslocadas de seu contexto técnico e reutilizadas no debate político ou cultural. Fora do ambiente clínico, esses termos tendem a perder precisão e a adquirir conotações morais ou comportamentais não intencionais, o que dificulta, em vez de esclarecer, a compreensão pública.
Esse mesmo mecanismo aparece quando se trata de homossexuais no discurso público. Com frequência, a orientação sexual é dissolvida em categorias vagas como “comportamentos”, “estilos de vida” ou “pautas identitárias”, evitando-se nomear diretamente discriminações concretas — no acesso à saúde, à segurança, ao trabalho ou à proteção legal. A substituição vocabular não elimina o problema; apenas o torna menos visível e, portanto, menos exigente de resposta institucional.
O discurso político também passou a recorrer com insistência a metáforas do esporte, especialmente do futebol. Governar vira “jogar no ataque”; negociar é “segurar o resultado”; divergência política é narrada como rivalidade. Embora tenham apelo popular, essas metáforas reconfiguram processos democráticos como competições de soma zero. Resultados viram placares; legitimidade passa a ser medida pela vitória, e não pela deliberação, pelas regras ou pelo impacto de longo prazo.
A linguagem tecnocrática cumpre papel complementar. Ao traduzir conflitos sociais em métricas, indicadores e categorias neutras, reduz questões morais e históricas a desafios técnicos. Isso ocorre também quando desigualdades vividas por homossexuais são tratadas apenas como “recortes estatísticos” ou “segmentos específicos”, sem análise das causas sociais, culturais e institucionais que as produzem. A mensuração é necessária, mas insuficiente quando substitui a explicação.
É nesse ambiente que formas contemporâneas de discriminação tendem a operar de maneira indireta. Raramente explícitas, manifestam-se por substituição semântica. Raça, orientação sexual ou pertencimento social desaparecem do vocabulário, mas permanecem nas práticas. Fala-se em “periferia”, “territórios vulneráveis”, “grupos sensíveis”. Pouco é dito — e muito é pressuposto.
Nesse ponto surgem também as declarações preventivas de inocência, como “não sou racista” ou “não tenho nada contra homossexuais”, frequentemente introduzidas antes ou depois de argumentos sensíveis. Essas frases não constituem prova de discriminação — mas tampouco asseguram neutralidade. No debate público, funcionam como escudos discursivos: deslocam a discussão do conteúdo para a intenção do emissor e interrompem a análise estrutural. O foco deixa de ser consequências e passa a ser biografia.
Nada disso pressupõe intenção deliberada. A linguagem evolui por hábito, conveniência e reprodução institucional. Ainda assim, seus efeitos são concretos. As palavras definem os limites do debate público e influenciam quais perguntas parecem legítimas e quais são descartadas como excessivas ou divisiva.
Em democracias maduras, a linguagem pública não é acessório retórico; é infraestrutura institucional. A precisão vocabular não é preciosismo acadêmico, mas exigência cívica. Categorias claras sustentam diagnósticos claros — e diagnósticos claros são condição para políticas eficazes. Quando o vocabulário se torna impreciso, o risco não é apenas o mal-entendido, mas o empobrecimento da própria imaginação política.
Recuperar o rigor da linguagem pública não significa vigiar palavras nem atribuir intenções. Significa criar condições para que o debate opere com categorias compatíveis com um Estado que reconhece cidadãos como sujeitos de direitos — independentemente de idade, renda, raça ou orientação sexual — e não como abstrações convenientes, torcidas mobilizáveis ou realidades que o discurso prefere contornar a nomear.
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