
Em sua crônica, o escritor G. G. Carsan traz um paralelo entre o que foi a praia do Bessa no passado, e como se encontra atualmente. “A praia do Bessa caiu na boca do povo. É a bola da vez. Antes calma e frequentada por moradores do bairro e visitantes de bairros próximos, agora, tornou-se a praia mais buscada de todas”, diz. Confira íntegra...
Desde a virada do ano tenho frequentado mais, a praia do Bessa, bairro de mesmo nome, onde moro, a meio km da praia. E cavalheiros e damas, as coisas estão mudadas, cito a seguir.
A praia do Bessa caiu na boca do povo. É a bola da vez. Antes calma e frequentada por moradores do bairro e visitantes de bairros próximos, agora, tornou-se a praia mais buscada de todas.
Antes, era comum caminhar na calçada, à tarde, e encontrar pessoas conhecidas e aquelas que moram na vizinhança, pois sempre se via os mesmos rostos, e agora, você vai e vem e não conhece ninguém.
Ontem, domingo à tarde, passava das 15 horas, fui à praia, pensando em caminhar na calçada, ou areia, se a maré estivesse baixa. Não estava. O que encontrei foi a praia lotada, o pessoal encolhido, porque a água avançava e a faixa de areia diminuía. Era tanta gente acumulada, que estava difícil enxergar a água.
Debaixo dos coqueiros, naqueles espaços em que antes, ficavam os bares de madeira, como Golfinhos, Maré Bar, Trio Elétrico, entre outros, parecia aldeia indígena em dia de festa. Povo nu, amontoado, bebendo e comendo, cantando e ouvindo música alta, misturada. Um furdunço incrível.
O lixo se acumulando, o pessoal avançando contra a vegetação de restinga, protetora das areias, as águas do mar e árvores com copa fechada servindo de sanitário para milhares de pessoas, e um vai e vem maluco de banhistas, com seus coolers, caixas de som, redes armadas nos coqueiros.
Do bar e restaurante Bessa Brasil ao bar e restaurante O Barril, a faixa de areia fica tomada de guarda-sóis coloridos, com área demarcada desde as primeiras horas da manhã. Nas sombras naturais dos coqueiros, dezenas de comerciantes estacionam suas cozinhas e bares ambulantes para servir os banhistas, principalmente com bebidas à base de álcool e petiscos variados.
As estruturas de vários comerciantes, antes pequenas e removíveis diariamente, já tomaram conta do ponto, inclusive na avenida, onde trailers ficam estacionados permanentemente, servindo para tornar tudo um grande comércio.
A praia do Bessa, antes tão bucólica, tão provincial, com suas casas de dois andares, com aquelas pessoas que chegaram primeiro ao local, mudou de cara. As construtoras estão derrubando todas as casas e construindo edifícios na orla, voltados para atender ao turista de ocasião, pois as construções mais em evidência são os flats, de 18 a 32 metros quadrados. Restam pouquíssimas casas e logo sumirão todas.
Às 10 horas da manhã não se encontra vaga no estacionamento de toda a orla. As ruas adjacentes são ocupadas e há estacionamentos privados sendo oferecidos a quem vem de longe. Vans e ônibus de excursão estão sendo direcionados para a praia do Bessa, trazendo hordas de turistas nesse verão.
Quem habita o bairro por causa da praia, pode esquecer de uma praia tranquila, acolhedora, onde se ia para encontrar a natureza, caminhar em paz, curtir a sombra de um coqueiro, beber uma água de coco a preço justo – subiu para 10 reais.
Quem vem à praia do Bessa, quer usufruir. Não se importa com manutenção e limpeza. Apesar de alguns avanços dos próprios comerciantes, em melhorar suas áreas, os banhistas se acumulam em todos os pontos, formam fila para tudo, congestionam a calçada impedindo a livre movimentação de quem caminha. Em tempo, fazer caminhada é diferente de andar. É outro ritmo, que precisa ser constante.
A maioria dos banhistas bebe em demasia e isso provoca atritos com os nativos, geralmente pessoas maduras, idosas, mais exigentes. Não, ninguém pode reclamar de nada, somente calar, aceitar, retirar-se.
Assim como em 2007, antes da retirada das barracas, o Bessa voltou a ser a bola da vez. Mas compete lembrar que bola da vez, quando encaçapada, perde totalmente seu valor, que passa para outra bola. Então é aguardar para ver a próxima jogada. Entretanto, os antigos moradores já deram o fora e nada os trará de volta para habitar flats ratoeiras.
A expansão imobiliária avassaladora continua em todo bairro do Bessa e está mudando drasticamente a fisionomia local, tornando-se, incontinenti e incontinente, uma terra-de- ninguém, ou melhor, uma praia-de-ninguém.
O detalhe não básico é a cegueira dos órgãos oficiais (Prefeitura, Marinha, SEMOB, Polícia Militar), que permitem todos os tipos de concessões burlativas das leis e códigos de conduta e ocupação das praias, além de não fiscalizar e punir eficazmente os motoristas que bebem durante várias horas e, depois, tomam as ruas, dirigindo alcoolizados.
Sei que isso é Brasil. Sei que a maioria gosta assim, livre, absurdo, sem lei, sem regras, mas é preciso pontuar, registrar, clamar solitário na areia do mar. O povo só entende o que é visto, escrito, falado. Demora, mas compreende, um dia, talvez.
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