PENSAMENTO PLURAL Ser local e universal, por Durval Leal Filho

Em seu comentário, o cineasta Durval Leal postula uma arte que, mesmo sendo local, tenha um significado de universalidade, e destaca a artesania que se pratica no Nordeste. “Vejo a necessidade do reconhecimento e fortalecimento dos fazeres locais, com renda direta pra quem faz e a valorização da autoestima do cidadão”, afirma. Confira íntegra...

“Data vênia, tenho que discordar. Todos os continentes têm muito a trocar conosco. A Europa, não mais do seu tradicional lugar colonial e hegemônico em suas epistemologias. Olhar para o Sul não é cegar o Norte.” (Assim falou uma amiga Doutora em Economia Criativa)

Prossegui… Bom dia. Ter sua atenção me deixa “mais maior de grande”. Obrigado. Que bom que a Sra. tenha outra percepção. Acho estranha esta palavra DISCORDAR, pois vem de discórdia e a discórdia é pequena.

Uma vez ouvi de um querido amigo que com discórdia nada floresce.

Por isso fico feliz e atento como a Sra. e muitos percebem, eu busco os detalhes.

Pois do alto da torre, da província, vejo o largo. E nas margens as diferenças são imensas, e iguais pois vilas não são únicas em suas tradições.

A região do Crato, sua região, ela é única e universal, dentro do aspecto local, não há nada mais refinado do que a cultura local com identidade e geografia definida e reconhecimento de todo o povo do lugar.

Isso é preponderante para qualquer desenvolvimento o crescimento com reconhecimento, com gente é necessário contato na formação primária do sentir afeto.

Digo isso, pois vivi que na formação, também de jovens, o primeiro crescimento é o afeto no que faz, o cuidado do fazer o seu fazer bem. Isso é primário, o face to face. O crescimento do afeto vem com o outro. Ver as mãos do outro trabalhar seu fazer, faz surgir melhor o perceber dos fazeres com perfeições e erros.

Vejo Universal. Vejo a necessidade do Norte e do Sul, mas antes vejo a necessidade do reconhecimento e fortalecimento dos fazeres locais, com renda direta pra quem faz e a valorização da autoestima do cidadão.

O Ceará tem um entre seus, vários, conceito do fazer Renda, a renda é cearense, ela é renda produto e conceito, mas no Brasil temos várias tipologias de Rendas. Mas a Renda, a de bilro, do Ceará é a renda do Brasil.

E eu não percebo, há muitos anos o reconhecimento do Ceará para favorecimento dessa marca imagem no engrandecimento do local. Valorizando a PERSONA RENDEIRA.

É NECESSÁRIO AO CHEGAR NA TORRE, COLOCAR NA TORRE A BANDEIRA.

Necessidade de você primeiro ser grande no aqui, no seu lugar, para conseguir manter a permanência do fazer, das artesanias, quando se busca continuidades é importante o ser conhecido no local PARA SER UNIVERSAL, e admirado.

O advento das telas diminuiu o local, diminuiu e diluiu o reconhecimento dos fazeres e os mestres do local, da vila. Assim os fazeres locais estão sendo suprimidos por telas. Por não estarem em telas.

O único e soberano produto é o que gera renda para o cidadão, como um conceito e valoração de negócio, isso já no primário o aprendiz deseja. Quem quer fazer uma atividade que não gera negócio, dinheiro e bem-estar?

TODOS QUEREM RECEBER O RECONHECIMENTO E O BÔNUS DO NEGÓCIO.

E no “Brazil” o fazer artesão e a sobrevivência dos artífices não fazem negócio nem gera ESTIMA PARA O AFETO DO FAZER. Assim percebo, e não vejo renovação no design. Perguntas somam…

Quando tivemos um concurso nacional de design de renda, cerâmica e ou em bijuterias? Com jovens designers apresentando seu novo olhar.

Quando nós tivemos uma consagração anual dos mestres no Palácio do Planalto, recebendo medalhas de méritos? Por ele ser um cidadão que é MEMÓRIA VIVA. Aquele que faz o último NÓ.

Esse é o fator primário que chama atenção DAR LUZ a quem PRECISA DE LUZ, nós não estamos valorizando o produto do savoir faire do brasileiro.

FALTA DISCUTIR ISSO, ESSE PORQUÊS DESSES ENTRAVES. O PORQUÊ DISSO? É DISCUSSÃO ATUAL.

Estamos perdendo artesãos e artífices, porque as manufaturas básicas estão sendo perdidas de conceituação e admiração pelos jovens nas vilas.

Brevemente, professora, nós não teremos lanterneiros, lanterneiros moldam lataria, nós temos um grande mercado de carro e de acidentes com sinistros. Mas na base da recuperação da permanência dos produtos, do carro, não temos mais jovens interessados em ser lanterneiro para consertar aquele produto que pode ser recondicionado, renovado reaproveitado, não ser lixo, resíduo.

Se na cadeia produtiva do carro, que é um dos maiores negócios e que mais geram parâmetros de profissionais e serviços, lá no final o lanterneiro está sendo extinto.

Porque é um trabalho manual, é um conhecimento adquirido que precisa de tempo e aprendizado, assim estamos perdendo isso que é na base.

Sou um analfabeto digital, sou lento com meus dedos, mas tenho certeza que as plataformas são úteis, necessárias para instruções cotidianas, mas é no presencial, no toque de um junto ao outro que formamos profissionais.

O FAZER ENTRE GENTE É QUE SE FAZ A PERMANÊNCIA DO SABER FAZER DA ARTESANIA.

O Brasil, desde a década de 70, perdeu as Escolas de Ofícios, as escolas de profissionais a importância de valorizar o fazer. Ficamos no SESC e SENAC, nos cinco S, com esse domínio de latifúndios onde as escolas locais foram suprimidas com os mestres locais sendo escanteados e esquecidos.

Assim, cotidianamente, se perde a repetição do trabalho dos artífices na vila, sem fazeres sem aprendizes. A criminalização do jovem aprendiz fez aumentar a perda do afeto dos produtos locais, pois ninguém tem mais mestres.

Você não tem mais a quem seguir, a tela é o mestre, e a tela é um algoritmico generativo com parâmetros definidos. Plataformas são formas de vender o pensamento de quem lucra, são necessárias sim, e tenho dúvidas.

Mas quem deve lucrar, definir no algoritmo, somos nós, os que fazem, e isso faz parte do fortalecimento do quem sabe fazer. Essa relação com a plataforma também no local é fortalecimento, Pois assim seremos universais onde também o fazer tela será conhecido universalmente, a partir de quem faz a geração dos negócios e faz localmente, interagindo universalmente.

Aí seremos universais multiculturais e estaremos nos “market in places” de Lisboa, Madrid, Tóquio, Berlim… Seremos telas e negócios universais, mas primeiro a base, também tem de perceber e ver essa diversidade do mundo com ele como tela.

Fui longo, pois não sou de DISCÓRDIA. Mais uma vez obrigado pela sua atenção. Gratíssimo.

SOU PRIMÁRIO E LOCAL COM CELSO FURTADO E SOU TERRÁQUEO UNIVERSAL, COMO IGNACY SACHS.

 

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