PENSAMENTO PLURAL Extremismo político e o efeito Pigmalião, por Palmarí de Lucena

O texto do escritor Palmarí de Lucena analisa o extremismo político a partir do efeito Pigmalião, mostrando como expectativas, rótulos e enquadramentos reiterados contribuem para produzir os comportamentos que se pretende combater. Ao transformar adversários em personagens fixos, o debate público empobrece e a radicalização torna-se resposta adaptativa. Redes sociais e discursos preventivos ampliam o fenômeno. A advertência central é democrática: combater ideias sem fabricar identidades é condição para preservar o espaço do diálogo. Confira íntegra…

O extremismo político costuma ser descrito como um desvio que irrompe à margem da normalidade democrática. Essa leitura, embora confortável, ignora um mecanismo mais sutil e recorrente: a maneira como expectativas coletivas, rótulos persistentes e enquadramentos reiterados ajudam a produzir exatamente o radicalismo que se pretende conter. É nesse ponto que o antigo mito de Pigmalião ganha atualidade analítica.

No mito, o escultor molda a estátua segundo um ideal e, ao vê-la ganhar vida, reconhece nela a confirmação de sua própria obra. Na política contemporânea, o processo é menos deliberado, mas não menos eficaz. Grupos sociais passam a ser definidos antecipadamente como antissistêmicos, irracionais ou incompatíveis com a convivência democrática. Com o tempo, parte desses grupos tende a internalizar o papel que lhes foi atribuído, não por adesão doutrinária profunda, mas por coerência identitária. A expectativa transforma-se em comportamento.

O chamado efeito Pigmalião, amplamente documentado na psicologia social, descreve esse fenômeno: indivíduos tendem a agir de acordo com as expectativas que recaem sobre eles. Em contextos de polarização, o efeito se intensifica. Quando a moderação deixa de ser reconhecida e o diálogo passa a ser interpretado como fraqueza ou dissimulação, o discurso mais rígido ganha vantagem simbólica. O extremismo, nesse ambiente, não surge apenas como opção ideológica, mas como resposta adaptativa.

O discurso público contribui para essa dinâmica ao insistir em personagens fixos. O adversário político é convertido em tipo moral: ameaça, inimigo, caricatura. Cada gesto passa a ser lido como confirmação prévia do diagnóstico. A crítica perde nuance; a análise cede lugar à antecipação. O resultado é um empobrecimento do debate e a consolidação de identidades políticas pouco permeáveis à revisão.

As redes sociais ampliam esse processo ao introduzir incentivos estruturais. Algoritmos tendem a favorecer conteúdos que geram engajamento rápido, frequentemente associado à indignação e à simplificação. A exposição contínua a mensagens homogêneas reforça convicções e reduz o espaço para a ambivalência. O efeito Pigmalião, nesse contexto, deixa de ser apenas interpessoal e passa a operar de forma sistêmica.

Também as instituições enfrentam um dilema. Ao agir exclusivamente com base na expectativa do pior — endurecendo discursos, antecipando conflitos, reduzindo interlocutores a estereótipos — podem reforçar a narrativa de exclusão que sustenta posições extremadas. Medidas necessárias à proteção da ordem democrática exigem calibragem cuidadosa para não se converterem, simbolicamente, em confirmação da profecia que pretendem evitar.

O risco central é democrático. Quando o espaço público passa a operar por identidades rígidas, diminui-se a possibilidade de trânsito, revisão e recuo. O indivíduo percebe que o rótulo precede qualquer gesto e que a saída do papel atribuído é socialmente custosa. A radicalização deixa de ser apenas escolha e passa a ser trajetória induzida.

O mito de Pigmalião, lido à luz do presente, oferece um alerta útil. Combater ideias extremistas é parte da defesa democrática; fabricar adversários por antecipação é um erro estratégico. Democracias se fragilizam não apenas quando toleram excessos, mas também quando produzem, por expectativa reiterada, os comportamentos que temem.

A tarefa pública, portanto, não é negar conflitos nem suavizar divergências, mas evitar que o medo substitua a análise e que o rótulo substitua o argumento. Porque, uma vez viva, a estátua tende a mover-se conforme o molde que lhe foi imposto — e a cobrar da sociedade o preço dessa escolha.

 

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