PENSAMENTO PLURAL A tempestade perfeita do Brasil de hoje, por Palmarí de Lucena

O escritor Palmarí de Lucena pondera como o “Brasil vive uma tempestade perfeita marcada pela convergência de crises econômicas, políticas, institucionais e sociais”. Escândalos financeiros e previdenciários corroem a confiança, enquanto a percepção de conflitos de interesses fragiliza os três Poderes. A insegurança permanente transforma cidades em espaços cercados, simbolizados pelo crescimento da indústria de grades. Somam-se a isso a precarização da educação e da cultura, que empobrece o debate público, alimenta a polarização e reduz a capacidade coletiva de reação. Confira íntegra...

Há momentos em que os problemas deixam de se somar e passam a se reforçar. O Brasil parece viver um desses ciclos raros — e perigosos — em que fatores políticos, econômicos, institucionais, sociais e simbólicos se alinham não para produzir crise episódica, mas para normalizá-la. É a chamada tempestade perfeita: não um evento isolado, mas um estado contínuo de tensão.

No plano econômico, o país convive com crescimento errático, baixa produtividade e uma incapacidade crônica de planejar o futuro. Episódios recentes, como o caso do Banco Master, expõem fragilidades de governança, supervisão e transparência que não são exceção, mas sintoma. Quando falhas privadas encontram brechas regulatórias, o risco deixa de ser setorial e passa a contaminar a confiança sistêmica — ingrediente essencial para investimento, crédito e estabilidade.

A política, em vez de funcionar como instância de mediação, tornou-se parte do problema. A fragmentação partidária e o fisiologismo transformaram o Congresso em arena de barganhas permanentes, onde a lógica do curto prazo prevalece sobre qualquer noção de projeto nacional. Governar virou administrar sobrevivências, não construir consensos. Nesse ambiente, políticas públicas são capturadas por interesses difusos e o custo da inação recai sobre a sociedade.

No campo institucional, o desgaste é ainda mais sensível. A exposição excessiva de autoridades, a confusão entre protagonismo e vaidade e a diluição de fronteiras entre os Poderes corroem a confiança pública. A percepção de conflitos de interesses — reais ou aparentes — atravessa os três pilares do Estado democrático. Quando decisões do Executivo parecem calibradas por conveniências políticas, quando o Legislativo atua sob incentivos paroquiais e quando o Judiciário se vê envolvido em agendas e sociabilidades que comprometem a necessária distância, a legalidade pode até resistir, mas a legitimidade se enfraquece.

O escândalo envolvendo o INSS acrescenta uma camada social a essa crise. Fraudes em benefícios, falhas de controle e demora na resposta estatal atingem justamente quem depende do sistema para sobreviver. Não é apenas um problema administrativo: é a erosão do pacto previdenciário, que se sustenta na confiança de que contribuições serão protegidas e direitos, respeitados. Quando isso falha, a desigualdade se aprofunda e o descrédito se espalha.

A segurança pública fecha um dos flancos mais visíveis da tempestade. O país vive uma crise permanente, marcada por crime organizado fortalecido, territórios capturados e uma sensação difusa de insegurança que atravessa classes e regiões. A resposta estatal oscila entre o improviso e a retórica dura, sem coordenação federativa consistente, inteligência integrada e políticas de prevenção de longo prazo. A violência deixa de ser apenas um problema policial e passa a organizar a vida cotidiana, afetando economia, educação e coesão social.

É nesse contexto que surge um indicador silencioso — e revelador — da crise: um dos setores que mais crescem no país é o da venda de grades. Grades para proteger residências, grades para cercar condomínios, grades para isolar comércios, escolas e equipamentos públicos. Crescem menos as políticas de prevenção do crime do que as barreiras físicas contra ele. A paisagem urbana se fecha, se fragmenta e se defende, como se a vida coletiva tivesse sido substituída por uma lógica de contenção permanente. A pergunta é incômoda: essas grades servem para proteger cidadãos de criminosos — ou para proteger a sociedade de um sistema penal incapaz de dissuadir, conter e ressocializar?

A precarização da educação e da cultura completa o quadro. A educação pública sofre com descontinuidade de políticas, desvalorização docente, currículos instáveis e a substituição do aprendizado estruturado por soluções improvisadas. Forma-se menos, treina-se mal e avalia-se pouco. O resultado é um ciclo perverso: baixa qualificação, baixa produtividade e menor capacidade crítica da sociedade para compreender — e cobrar — políticas públicas. A cultura, tratada ora como ornamento dispensável, ora como trincheira ideológica, padece de orçamentos erráticos e insegurança institucional. Sem educação sólida e cultura viva, o espaço público empobrece e a polarização se intensifica.

A esfera social reflete esse desalinho. O debate cede lugar ao rótulo; o argumento, à suspeita. Redes sociais amplificam ressentimentos, simplificam diagnósticos e recompensam a indignação permanente. Em um ambiente de baixa educação cívica e cultura fragilizada, a desinformação encontra terreno fértil. A sociedade se cansa, mas não encontra instrumentos para sair do conflito.

Nada disso é novo isoladamente. O que torna o momento singular é a simultaneidade. Fragilidade econômica, política transacional, instituições tensionadas, escândalos que corroem a confiança social, crise crônica de segurança e o esvaziamento da educação e da cultura criam um ambiente em que qualquer choque — externo ou interno — produz danos desproporcionais. A tempestade perfeita não nasce do vento mais forte, mas do encontro de correntes mal resolvidas.

Ainda assim, não se trata de fatalismo. O Brasil já demonstrou capacidade de reconstrução institucional e pactos mínimos de convivência. O desafio é abandonar a ilusão de soluções milagrosas e recuperar o valor do método: supervisão regulatória efetiva, discrição institucional, responsabilidade fiscal e previdenciária, combate real a conflitos de interesses, coordenação federativa na segurança e investimento contínuo — não retórico — em educação e cultura como políticas de Estado, não de governo.

Tempestades passam. Mas só deixam de ser recorrentes quando se aprende a ler os sinais do céu — e a corrigir, com método, as falhas no leme.

 

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