PENSAMENTO PLURAL Primeiras-damas e a disputa pela memória, por Palmarí de Lucena

O artigo do escritor Palmarí de Lucena compara duas estratégias audiovisuais de presença pública. Em Becoming, Michelle Obama organiza a memória como mediação cívica, transformando biografia em documento de época. “Já o filme associado a Melania Trump privilegia gestão de imagem e branding, com forte apelo promocional”, pontua. Ambas as obras encontraram público, mas produzem legados distintos: uma converte visibilidade em sentido histórico; a outra, atenção em ativo simbólico. Confira íntegra...

No documentário Becoming, Michelle Obama constrói uma narrativa que é pessoal sem resvalar no intimismo, pública sem ceder ao panfleto. Sua trajetória é apresentada como experiência compartilhável, atravessada por temas como educação, pertencimento, desigualdade racial e responsabilidade cívica. Não se trata de um retrato individual em busca de empatia fácil, mas de um esforço consciente de inscrição histórica. O filme funciona como documento de época justamente porque assume um ponto de vista claro: o de que a memória, quando organizada, pode produzir sentido coletivo.

Essa opção narrativa confere ao audiovisual um papel que vai além do registro biográfico. Ao articular vivência pessoal e questões estruturais, o filme insere a figura da primeira-dama no campo da mediação cívica e cultural. A participação de Michelle Obama é ativa e autoral, mas contida pelo cuidado em contextualizar sua experiência dentro de processos mais amplos. O cinema, nesse caso, opera como linguagem interpretativa, não como vitrine, e aposta na explicitação dos conflitos como forma de dar densidade ao relato.

Em contraste, a presença audiovisual associada a Melania Trump segue outro caminho. O cinema, nesse caso, não se organiza prioritariamente como reflexão, mas como instrumento de gestão de imagem. Desde os valores envolvidos — com remuneração elevada à ex-primeira-dama e uma engrenagem promocional incomum para o gênero documental — até as escolhas narrativas, tudo aponta para um projeto de marketing pessoal e monetização simbólica. O filme se aproxima mais de uma peça de branding do que de um documento histórico: privilegia controle, estética e superfície.

Não há, na obra, esforço consistente de articular trajetória individual a um projeto público ou a um legado cívico claramente formulado. O que se oferece são fragmentos: imagens calculadas, aparições pontuais, silêncios prolongados. Trata-se menos de uma lacuna involuntária e mais de uma escolha narrativa orientada pela administração rigorosa da própria visibilidade. Essa estratégia não é ilegítima; a discrição pode ser compreendida como proteção da esfera privada ou recusa a um protagonismo indesejado.

Do ponto de vista histórico, contudo, a ausência de mediação interpretativa limita o alcance simbólico desses registros. Sem contexto e sem tradução para o debate público, a imagem tende a permanecer no plano do instante, não da permanência. O silêncio reiterado, quando não convertido em linguagem, produz mais opacidade do que densidade.

A comparação entre essas duas abordagens revela modelos distintos de atuação das primeiras-damas na vida pública contemporânea. De um lado, a opção por transformar visibilidade em instrumento de diálogo cívico e construção de memória. De outro, a escolha pela contenção narrativa e pelo controle da imagem. Ambas respondem a concepções diferentes do papel público associado à função e produzem efeitos diversos na memória coletiva.

O cinema, afinal, não é apenas um espelho do que se vive, mas uma ferramenta de seleção, organização e hierarquização da experiência. Ele registra tanto o que se mostra quanto aquilo que se decide não mostrar. E a história, menos interessada em gestos efêmeros do que em significados duradouros, tende a preservar o que se dispõe a dialogar com o coletivo.

Num ambiente saturado de imagens e discursos, talvez o gesto político mais eficaz não seja falar mais alto, mas escolher com clareza o que dizer — e como dizer. O silêncio pode ser eloquente quando acompanhado de sentido; torna-se opaco quando se limita à ausência. É nesse espaço de mediação que se constrói, ou não, um legado.

Há, ainda, um dado que merece registro: ambas as obras encontraram público. Becoming alcançou ampla audiência nas plataformas de streaming e consolidou-se como um dos documentários mais vistos de seu período, confirmando o interesse por narrativas que articulam experiência pessoal e debate cívico. 

Já o filme associado a Melania Trump também registrou desempenho comercial relevante para o gênero, impulsionado por forte campanha promocional e pela curiosidade em torno da figura retratada. O êxito de audiência, contudo, não elimina a diferença fundamental entre os projetos: enquanto um converte visibilidade em mediação histórica, o outro transforma atenção em ativo de imagem. O público assiste aos dois — mas o que permanece após a sessão não é o mesmo.

 

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