
Em seu texto, o cineasta Durval Leal Filho afirma que “o discurso do algoritmo e a fragilidade humana de reconhecer e respeitar o outro não decaem na mesma velocidade que se produzem e difundem imagens nas redes”. E ainda: “A deseducação acelera porque o ego da câmera suplanta o humano. Redes de TV lideram: entram em lares, festas, tristezas sem bater à porta ética, lucrando com rostos anônimos virando memes ou notícias baratas.” Confira íntegra…
Eu não consigo ter tranquilidade quando me deparo com a deseducação flagrante em vários sentidos.
A EDUCAÇÃO É NECESSÁRIA PARA SABER ENTRAR E SAIR DOS UNIVERSOS ALHEIOS.
O advento da tela sobrepõe tudo: o discurso do algoritmo e a fragilidade humana de reconhecer e respeitar o outro não decaem na mesma velocidade que se produzem e difundem imagens nas redes.
A deseducação desestimula em tela, porque ela se tornou prima-dona do ego e do dia a dia.
Me considero um aprendiz de construir discursos e conteúdos através da imagem. Dentro dela, a primeira lição é o respeito ao outro, à condição humana alheia. Isso me fez enxergar quanto somos intrometidos, entramos em universos particulares sem pedir permissão, só porque o celular ou a câmera nos faz sentir senhores do fato, do acontecimento, da felicidade alheia.
Gravar pessoas deve ser um ato de pedir, admitir que você está sendo intrometido.
O mais intrometido? As redes de televisão, que invadem casas sem “com licença”, gravam sem pudor e jogam a imagem ao léu.
Qual instituição ou pessoa tem direito de divulgar a imagem do outro? Em respeito a quê? Com que objetivo? Para lucrar com cliques e audiência? Elas chegam ajustando a câmera, já gravando, invadindo, sem papel, sem ordem judicial, sem documento de autorização para uso de imagem.
No Carnaval, onde tudo é esbórnia, beijos e interesse público, lembre: o público é efêmero, mas a imagem é sua, e privada. Você está na festa, mas a festa não está em você; ela serve ao lucro deles.
Imagina o repórter enquadrando sua dança íntima “acidentalmente”. Não há nada acidental quando se liga uma câmera e invade o outro, “roubam a minha alma” como diziam os “selvagens indígenas”.
Fortalecer o respeito e a dignidade humana a partir da imagem é necessário, racional e lúcido. Primeiramente, o respeito está na abordagem sincera: “Me constrange gravar sem sua permissão”.
NÃO É DESEDUCAÇÃO FINGIR PUDOR, É RECONHECER O OUTRO.
O profissional de câmera e o repórter acham que “estão fazendo o trabalho deles”, mas e nós? Nosso viver é direito à privacidade, não à exibição pública forçada.
A tela não é passe livre para intromissões.
Profissionais de comunicação, a crítica é direta: vocês geram telas e conteúdos usando o outro como objeto descartável, sem ética ou normas. Consentimento explícito (quando a pessoa for identificável e o uso não se enquadrar em exceções legais) é lei (art. 5º, X, Constituição Federal; art. 20 do Código Civil; LGPD (Lei 13.709/2018)). Leia abaixo.
Sem ele, violações viram crimes, uso indevido de imagem, multas pesadas.
Parem de romantizar a invasão como “jornalismo cru”. O algoritmo ama o caos sensacionalista, mas a dignidade humana cobra a conta ética e judicial. Peçam licença verbal, registrem o ok, editem com respeito.
A deseducação acelera porque o ego da câmera suplanta o humano. Redes de TV lideram: entram em lares, festas, tristezas sem bater à porta ética, lucrando com rostos anônimos virando memes ou notícias baratas.
Para o aprendiz de imagem que sou, respeito é o filtro inicial. Sem ele, discursos viram pixels vazios, roubados de universos particulares.
Carnaval ou rua cotidiana: público não autoriza roubo visual. Sigam normas profissionais, termo de uso de imagem, borracha no rosto se negado, direito de ser esquecido.
No Brasil, a ANPD e tribunais esperam violadores com processos. A tela vira espelho da desumanidade quando prioriza lucro sobre empatia.
Quem invade sem convite perde o direito ao seu próprio universo visual. Ética na comunicação não é luxo opcional; é obrigatoriedade diária.
Gerar conteúdo respeitoso constrói credibilidade; invasão destrói reputações. Redes de TV, pioneiras da tela, liderem a mudança: transparência, edição humana, priorizem dignidade sobre deadline.
Deseducação em tela é pandemia visual, curada por educação ética urgente. Parem de usar o outro como pano de fundo lucrativo. Peçam, respeitem, humanizem cada clique. A imagem privada não vira pública só porque pisca na lente.
Fortaleçam a dignidade: desliguem o ego, liguem a empatia. Só assim, telas iluminam sem queimar almas alheias.
A VERDADEIRA PRIMA-DONA DEVE SER A ÉTICA.
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Lei 13.060/2014: Essa lei disciplina o uso de instrumentos de menor potencial ofensivo por agentes de segurança pública, e não altera o Código Civil (art. 20). Para o tema “imagem”, o dispositivo central é o art. 20 do Código Civil, que reforça que a divulgação ou uso comercial de imagem sem autorização pode ser proibida judicialmente, com indenização por danos à honra ou fins lucrativos. Exceções limitadas: administração da justiça ou manutenção da ordem pública, quando estritamente necessário.
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LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados – Lei 13.709/2018): A LGPD trata a imagem como dado pessoal quando identifica ou torna identificável alguém, exigindo base legal para coleta, uso ou divulgação, sob pena de multas e sanções pela ANPD. A imagem não é automaticamente “dado pessoal sensível” em toda hipótese; ela pode se tornar sensível quando vinculada a biometria/identificação biométrica. Protege contra exposição indevida em telas ou redes, alinhandose ao direito constitucional à imagem.
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