PENSAMENTO PLURAL A organização da decadência, por Palmarí de Lucena

O artigo de Palmarí de Lucena examina como a decadência moral se torna sistêmica quando o excesso deixa de ser desvio individual e passa a operar como engrenagem de poder. De Roma Antiga ao colonialismo britânico no Quênia, da corte de Versalhes à Era Dourada americana e a escândalos contemporâneos, repete-se o padrão: seletividade na aplicação da lei, redes de silêncio e autopreservação. “A erosão não é imediata, mas progressiva, corroendo a confiança pública e fragilizando as bases institucionais”, enfatiza. Confira íntegra...

Há um fio recorrente na História que conecta poder concentrado, segredo e deterioração moral. Ele não nasce do excesso isolado — traço comum às sociedades humanas —, mas da institucionalização do excesso. O problema não é o desvio individual, e sim o momento em que práticas condenáveis passam a funcionar como engrenagens de um sistema. Toda ordem que acumulou poder suficiente para se imaginar imune às próprias regras produziu, em maior ou menor escala, essa arquitetura silenciosa.

Na Roma Antiga, a decadência não se restringia aos costumes privados. Ela estava integrada à dinâmica política. O sistema de clientelas permitia a circulação de favores, silêncios e proteções fora do alcance formal das instituições. O escândalo raramente surgia como ruptura; era tolerado enquanto preservasse equilíbrios. O risco não estava apenas nos excessos visíveis, mas no pacto tácito de autopreservação. Quando todos sabem demais sobre todos, a denúncia deixa de ser instrumento de justiça e se converte em ameaça mútua.

O mesmo padrão emergiu em contextos distintos. No Quênia colonial das décadas de 1920 a 1940, a elite britânica instalada nas terras altas — retratada no livro White Mischief — transformou isolamento geográfico em licença moral. O chamado Happy Valley Set operava sob regras próprias, protegido pela hierarquia racial, pela distância da metrópole e pela expectativa de impunidade. O assassinato de Josslyn Hay, em 1941, jamais plenamente esclarecido, não desestruturou aquele círculo; apenas expôs suas fissuras.

Na Europa absolutista, a engrenagem assumiu feição mais sofisticada. Em Versalhes, o excesso foi convertido em etiqueta. A proximidade com o soberano não representava apenas prestígio, mas mecanismo de controle. Participar dos jogos privados significava partilhar segredos; recusar-se implicava isolamento. A moral pública mantinha rigidez formal; a privada operava sob negociação tácita.

No século XIX, o fenômeno reapareceu em linguagem econômica. A chamada Era Dourada americana produziu fortunas extraordinárias e redes informais de influência. Magnatas, políticos e intermediários estruturaram circuitos nos quais favorecimento e corrupção deixaram de ser anomalias morais para se tornarem custos operacionais de um modelo de expansão acelerada.

Episódios contemporâneos reiteram a permanência do método. O escândalo envolvendo Jeffrey Epstein destacou-se não apenas pela gravidade dos crimes, mas pela arquitetura social que lhes deu sustentação. Mais do que indivíduo, ele simbolizava um ponto de interseção entre elites políticas, financeiras e simbólicas. Seu ativo central não era autoridade formal, mas acesso — e a informação derivada desse acesso. Como em Roma, em Versalhes ou no colonialismo britânico, o elemento decisivo não foi a ausência de leis, e sim a seletividade de sua aplicação.

A decadência organizada raramente produz colapso imediato. Ela opera por desgaste. Quando a percepção pública identifica assimetria na aplicação da lei e seletividade na indignação, instala-se um cinismo difuso. A confiança institucional, elemento essencial de qualquer regime político, começa a se dissolver. O dano não é apenas moral; é estrutural.

A História sugere que sociedades não sucumbem apenas por seus vícios, mas pela tolerância prolongada a sistemas que os normalizam. Roma confiou na estabilidade de suas redes privadas; o colonialismo apostou na distância como escudo; democracias contemporâneas, por vezes, depositam fé excessiva na capacidade de autocorreção institucional. O denominador comum não é o excesso em si, mas sua organização.

A decadência, nesse sentido, não é destino inevitável. É escolha cumulativa — sustentada enquanto funcional. Até que deixa de ser.

 

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