
O cineasta Durval Leal inicia com este texto uma série de quatro, tratando do projeto “Nos Passos do Padre Ibiapina”, desde as suas concepções iniciais, até a sua consolidação. Para o autor, há “uma obviedade triste de retardo, que atormenta qualquer gestor que pensa planejamento regional, são mais de 20 anos sem investimento ou qualquer incentivo no turismo religioso na Paraíba, com foco de fortalecer a figura icônica do Padre Ibiapina, um possível Santo Nordestino”. Confira íntegra...
Entre 2003 e 2005, foi implantado no Brejo da Paraíba o projeto “Nos Passos do Padre Ibiapina”, iniciativa de turismo religioso de base comunitária destinada a estruturar rotas de peregrinação e fortalecer a memória do Padre Ibiapina. A proposta foi executada pela ONG PARA’IWA, com chancela da Diocese de Guarabira e apoio do Governo da Paraíba e do Sebrae.
Nos Passos do Padre Ibiapina tem uma obviedade triste de retardo, que atormenta qualquer gestor que pensa planejamento regional, são mais de 20 anos sem investimento ou qualquer incentivo no turismo religioso na Paraíba, com foco de fortalecer a figura icônica do Padre Ibiapina, um possível Santo Nordestino.
É um produto com um potencial de gerar serviços e negócios em muitos municípios do Brejo, Cariri e Sertão da Paraíba, e se expandir para os Cariris Novos, no Ceará, e nos estados de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Piauí. Mas foi relegado ao esquecimento pela Diocese de Guarabira, desde 2006.
No começo dos anos 2000 os caminhos religiosos e culturais, estavam em plena efervescência, os mais conhecidos: Caminhos de Santiago de Compostela que percorre a Espanha, Portugal e França, na Europa, os Caminhos da Fé e da Luz, em São Paulo, os Caminhos de Anchieta no Espírito Santo, foram projetos que surgiram para fortalecer o turismo religioso, traçando caminhos e oportunidades para os peregrinos e as comunidades.
Os Caminhos da Estrada Real que liga de Minas Gerais ao Rio de Janeiro e São Paulo, já nasce como um programa de desenvolvimento regional, com impactos econômicos e culturais, e forte aceitação do público e dos caminhantes gerando negócios, hoje uma referência nacional de um projeto de ação integrada para o desenvolvimento local sustentável.
O Padre Ibiapina é um verdadeiro mito, poucos conhecem sua história, no século dezenove, entre 1853-1883, criou casas de Caridades, que davam assistência as meninas órfãs vítimas das secas e da miséria do sertão, construiu açudes, igrejas e cemitérios, uniu famílias que viviam em litígio. Realizou obras humanitárias gerando trabalho para a população faminta, um homem que com sua religiosidade fez muito pelo povo do nordeste.
Atualmente no Vaticano segue o processo para a sua canonização, para ser o primeiro Santo do Nordeste Brasileiro. Em Santa Fé, distrito de Solânea, no brejo da Paraíba, está o seu Santuário hoje um centro de visitação e peregrinação, em devoção a sua memória, todos os dias 19 de fevereiro, milhares e milhares de romeiros e peregrinos reverenciam e homenageiam o Padre Mestre.
A fé entrou como motivação ao peregrino, caminhante ou visitante, a gestão institucional entrou como condição de funcionamento. O objetivo prático era estruturar trilhas, organizar serviços, criar governança local e colocar o território para trabalhar com segurança, informação clara e renda distribuída.
No começo, o projeto “Nos Passos do Padre Ibiapina” foi tratado como proposta para operação de turismo religioso de base comunitária, com a integração entre a sociedade civil, entidades religiosas e instituições governamentais.
A execução começou com enquadramento institucional, através do contrato 44/2003 SEBRAE – ONG PARA’IWA – Coletivo de Assessoria e Documentação, instituição mentora e executora. A cooperação técnica firmada em 18/09/2003, definiu objeto, parceiros e entregas. Entraram primeiramente a Diocese de Guarabira, durante o bispado de Dom Antônio Muniz, PBTUR, UFPB/PRAC/COEX, UEPB e prefeituras do Brejo.
As metas eram objetivas. Criar uma trilha de peregrinos no Brejo; mapear e estruturar o percurso; sinalizar; produzir material de apoio (passaportes, selos, certificados, folders, plaquete, vídeo e banco de imagens) e capacitar atores locais. A previsão inicial falava em cerca de 119 km, mas o redesenho final chegou a aproximadamente 242 km georreferenciados por GPS, com marcos padronizados.
O desenho do traçado territorial mudou porque o fazer dos caminhos já estava inserido nos meandros dos cotidianos das comunidades. A prática da peregrinação, se estrutura em apoios de logística, para dirimir os riscos e facilitar os suportes. A solução foi reorganizar por lógica de partida e chegada: a saída inicial foi do Monumento a Frei Damião, em Guarabira a chegada em Santa Fé (Solânea), sede do Memorial do Padre Ibiapina, o foco final e o elo de memória e devoção. A partir daí, o caminho ganhou forma de produto: começo, meio, fim, regra e certificação.
O “produto” foi estruturado com quatro vias, todas saindo do Memorial de Frei Damião (Guarabira) e chegando a Santa Fé, em Solânea: Cruzeiro de Roma (60 km), Túnel Samambaia (58 km), Cruzeiro do Espinho (46 km) e Via das Artes (78 km).
Isso atendeu perfis diferentes de peregrinos e permitiu escalonar a operação podendo ser realizada a pé, de bicicletas, a cavalo e de carro de passeio. A primeira, e única a ser aberta, oficialmente foi a Via Cruzeiro de Roma (60 km), com possibilidade de fazer em três dias de caminhada e dois pernoites, a pé. Esta alternativa foi executada por mais de mil pessoas concluindo o roteiro.

A marca da FLOR DO CEDRO, foi escolhida como identidade e para a sinalização dos marcos nos caminhos, porque uma árvore de cedro-rosa sombreia o túmulo do Padre Ibiapina, no jardim do seu Memorial, em Santa Fé, e também por haver memória afetiva do padre com o reflorestamento do Brejo. O detalhe é que a flor do cedro só desabrocha quando seca, um lembrete de resiliência no semiárido e uma senha para juntar fé, paisagem e manejo sustentável com cuidado com a natureza.
Embora a mudança na liderança da Diocese de Guarabira tenha provocado enfraquecimento operacional imediato, o fator determinante para a descontinuidade foi a inexistência de uma política pública formalizada para o turismo religioso no estado. O projeto dependia de cooperação institucional, mas não foi incorporado a um programa permanente com dotação orçamentária, metas e governança continuada.
A ausência de planejamento público de longo prazo tornou a iniciativa vulnerável a mudanças administrativas, tanto eclesiásticas quanto governamentais. O que se perdeu não foi apenas apoio religioso, mas sustentação estrutural.
Nos próximos textos apresentaremos como foram desenvolvidas as ações, os trajetos dos caminhos e as equipes responsáveis na execução.
No turismo religioso de base comunitária, fé e desenvolvimento local precisam atuar de forma integrada, com organização, formação técnica e inserção no mercado. O elemento central é a continuidade das ações. Sem continuidade, a comunidade perde confiança no projeto. Sem confiança local, o visitante percebe a fragilidade da experiência e não retorna.
O QUE RESTOU. UM ABISMO QUE SE ABRIU NOS CAMINHOS DO PADRE IBIAPINA, DEVIDO AO DESCASO DOS GOVERNOS.
Os textos publicados nesta seção “Pensamento Plural” são de responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Blog.