
O artigo do escritor Palmarí de Lucena parte de fotografia de autoria própria, capturada no Museo Botero, para refletir sobre a tensão entre contemplação artística e imersão digital. A imagem de uma criança diante do celular, frente a uma obra monumental de Fernando Botero, simboliza o contraste entre permanência cultural e estímulo instantâneo das redes sociais. Sem demonizar a tecnologia, o texto defende a mediação responsável de famílias, escolas e Estado no uso digital por crianças. Confira íntegra...
A cena é eloquente. No amplo salão do Museo Botero, em Bogotá, uma menina de poucos anos permanece imóvel diante de um celular. À sua frente, domina a parede uma pintura monumental de Fernando Botero — figura feminina reclinada, volumosa, soberana na sua permanência. O contraste dispensa legenda: de um lado, a arte que atravessa décadas; de outro, a tela portátil que se renova a cada segundo.
Não se trata de condenar a tecnologia, tampouco de romantizar um passado analógico. O celular é ferramenta, meio, extensão contemporânea da experiência humana. O problema emerge quando o acesso precoce e irrestrito às redes sociais se transforma não em instrumento, mas em ambiente dominante da infância e da adolescência.
A pintura de Botero exige tempo. Ela impõe pausa, distância, contemplação. A rede social, ao contrário, foi desenhada para capturar atenção, fragmentá-la e mantê-la em fluxo contínuo. Crianças e adolescentes — ainda em formação emocional, cognitiva e ética — são particularmente vulneráveis a essa arquitetura da dispersão. A lógica da recompensa instantânea, dos “likes” e da exposição permanente introduz uma pedagogia invisível, cujo currículo raramente é debatido com a devida seriedade.
O Brasil já discute restrições ao uso de celulares nas escolas. Mas a questão vai além da sala de aula. Trata-se de refletir sobre o que significa crescer em um ambiente onde a validação social depende de métricas digitais. O acesso às redes não é neutro: envolve algoritmos que priorizam engajamento, muitas vezes estimulando comparações, ansiedade e padrões irreais de vida e de corpo.
A fotografia capturada no museu simboliza essa tensão. A criança está fisicamente diante de uma obra de arte — expressão de densidade cultural e memória —, mas sua atenção habita outro espaço, invisível aos olhos de quem observa. A pergunta que se impõe não é se devemos proibir ou liberar, mas como mediar.
A mediação é tarefa de famílias, escolas e do próprio Estado. Não se trata de demonizar plataformas, mas de reconhecer que infância não é mercado. Crianças não podem ser tratadas como consumidores plenos de ambientes digitais projetados para adultos. Regulamentação, educação midiática e limites proporcionais são medidas que equilibram liberdade e proteção.
A moldura dourada no museu delimita um espaço de permanência. A tela do celular, ao contrário, não conhece bordas fixas. Talvez o desafio contemporâneo seja ensinar as novas gerações a transitar entre esses dois mundos — o da contemplação e o da conexão — sem que um sufoque o outro.
A menina na galeria não está errada. Ela é filha de seu tempo. Mas cabe aos adultos decidir que tempo queremos oferecer a ela: o da experiência profunda ou o da distração infinita.
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