
Em sua nova crônica, o cineasta Durval Leal Filho dá sequência à serie de textos sobre o projeto Os Passos de Ibiapina, considerada uma das rotas religiosas mais celebradas pelos fiéis. “Eu tento puxar Ibiapina para a atualidade e lembro da imagem da caatinga aberta, do horizonte seco, e de uma ética que não depende de palco”, comenta Durval. Confira íntegra...
Hoje, 19 de fevereiro de 2026, eu travo para fechar meus quatro textos sobre Ibiapina. Não é falta de assunto; é excesso de espelho. É o aniversário de morte dele, em Santa Fé, no seu Santuário o povo reverencia o homem.
A pergunta é simples e chata: como trazer um homem do século XIX para um tempo em que quase todo mundo se olha antes de olhar o outro?
Se eu resumisse Ibiapina numa fórmula, eu diria: HUMANISMO RELIGIOSO NA PRÁTICA, sem vitrine. Entrega de serviço, de tempo, de presença. Não era “sentir pena” do pobre para aliviar a consciência; era organizar mutirão, juntar gente, levantar coisas sólidas: casa de caridade, açude, escola, igreja, cemitério e cruzeiros.
O CUIDADO COMO OBRA, E A OBRA VIRAVA PACTO.
O curioso é que ele não vendia “o outro” como miséria. Ele não fazia do sofrimento uma moeda moral. No vocabulário acadêmico, o que aparece é ALTERIDADE: reconhecer a pessoa como fim, não como ferramenta. E, no vocabulário do povo, é mais direto: “chegar junto”, sem perguntar se dá like, sem esperar aplausos.
Aí eu tento puxar Ibiapina para a atualidade e lembro da imagem da caatinga aberta, do horizonte seco, e de uma ética que não depende de palco. É uma pedagogia do encontro: colocar dois inimigos no meio da vila e fazê-los amarrar os bigodes, não para humilhar, mas para selar compromisso. Convivência não nasce de discurso; nasce de REGRA COMPARTILHADA e trabalho em comum.
No meio dessa lembrança, eu mesmo apelo para uma metáfora moderna: aquela de Yuval Harari, o escritor israelense, de SAPIENS, de que a nossa história tem um fundo de carniça, sobrevivência, impulso. A Lucy, Australopithecus afarensis, encontra a carniça, come, aprende, transforma. O corpo em carcaça vira proteína, a pele vira proteção, a cognição cresce ao deparar as tripas.
Só que, quando eu trago essa ideia para o presente, eu vejo o risco: o CARNICEIRO de hoje não é só o caçador de sobrevivência. É o sujeito que confunde necessidade com vaidade, e faz da vaidade uma dieta diária obscura e corrupta. E, num universo de telas e algoritmos, a carniça vem pronta: já cortada, temperada, empacotada, com legenda e indignação programada.
Aí entra o “HOMEM É MAU”.
Tem uma linha clássica que insiste nisso: o indivíduo como ameaça, a sociedade como contenção, a vida como disputa. Eu não preciso discutir filosofia em sala; basta olhar a pressa em vencer, humilhar, “lacrar e lucrar”, vejam a experiência do Dandi dono do Banco Master. O espelho virou método. A pessoa se mede por si mesma, e o outro aparece só como degrau ou inimigo.
Ibiapina, no contrapeso, parece dizer o oposto sem gritar: o ser humano é frágil, sim, e por isso precisa de “cuidado e instituição comunitária”. A caridade, ali, não foi mimo; foi tecnologia social em pleno império escravagista. O mutirão vira capital social. A obra vira confiança. E confiança, em turismo religioso de base local ou em qualquer política pública, é o que mantém a comunidade em pé, ainda com um pouco de fé em raríssimos homens.

Quando eu penso na política de hoje, eu caio numa imagem: um ministro do supremo, ALEXANDRE DE MORAES, como personagem símbolo de um tempo em que todo mundo quer ser guardião de alguma verdade, um protetor de repúblicas, mesmo que seja de bananas.
Na minha narrativa, o problema não é uma pessoa específica; é o modelo: a ideia da farsa de que proteger a “República” pode virar um sem freio, uma ditadura de toga, para proteção do próprio ego e arbítrios mascarados de um coringa que inflige a LEI, forjando todos como tolos.
Daí a sensação de processos longos com um FAKE NEWS, de inquéritos que se esticam, como FAKE NEWS, de versões que se empilham, em FAKE NEWS, e a vaidade ocupando o lugar do serviço. Para ocultar as verdades de um contrato de 131 milhões, que não são FAKE NEWS.
Não estou descrevendo um fato técnico; estou descrevendo o clima: o cheiro de disputa permanente, a fome de controle, a necessidade de ter a última palavra. E, quando a vaidade vira “suprema”, o sujeito já não sente o cheiro de si mesmo: só fareja as hienas ao redor e quer proteger sua carniça que se traveste, no escandaloso, em Banco Master, a carniça que alimenta nababescamente sua prole, em búnquer para saques, travestido de escritório de advocacia.
Nesse mesmo quadro, aparece a imprensa com outra mesa de banquete com carniças: gente que recolhe sobras, comenta restos, disputa migalhas de atenção. Eu cito, a astuta e brilhante jornalista MALU GASPAR, no contexto como imagem dessa engrenagem, não como sentença. Porque o ponto, aqui, é estrutural: o espetáculo precisa de carne putrefada todo dia, e a plateia, treinada, pede repetição como em um Coliseu romano das barbaridades corporativistas dos justiceiros carniceiros, supremos senhores de injustiças.
Temos todos um pouco do carniceiro Alexandre de Moraes diante das carcaças, se alimenta e protege sua proteína, até a Malu Gaspar, que consome sobras expostas do carniceiro.
No fim, Ibiapina me volta como um método simples e incômodo: menos espelho, mais obra. Menos algoritmo, mais mutirão. Menos “eu”, mais “nós”.
E isso não é romantização; é um conceito BEM COMUM, sustentado por práticas de cuidado. Talvez por isso seja tão difícil trazê-lo para a realidade do hoje.
ELE NÃO CABE NA TELA. ELE EXIGE CHÃO, POEIRA, GENTE, ÉTICA E SILÊNCIO.
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