
O artigo do escritor Palmarí de Lucena alerta para o risco silencioso da “brasilização”: a dinâmica em que juros elevados tornam-se o principal motor do crescimento da dívida pública, comprimindo investimentos e políticas sociais. Mesmo sem colapso imediato, a combinação de rigidez orçamentária, pressões por gastos e falta de reformas estruturais eleva o custo da confiança. O texto também destaca o papel do Congresso na sustentabilidade fiscal e adverte que credibilidade é condição essencial para preservar autonomia e escolhas futuras. Confira íntegra...
A história econômica é generosa em advertências. Países que trataram a inflação com descuido pagaram com desorganização monetária. Outros que acumularam dívidas excessivas descobriram, tarde demais, que a confiança não é um ativo infinito. Cada geração tende a acreditar que aprendeu as lições do passado. Nem sempre aprende.
O Brasil oferece hoje um alerta menos espetacular do que as crises clássicas, porém mais instrutivo. Não se trata de colapso iminente. O país cresce moderadamente, preserva a autonomia formal de seu banco central e mantém o resultado primário próximo do equilíbrio. À primeira vista, nada que sugira descontrole flagrante.
O ponto sensível está no custo da dívida.
Para manter a inflação sob vigilância, as taxas de juros permanecem elevadas. A consequência é direta: o Tesouro precisa contrair novos empréstimos em volume expressivo apenas para honrar encargos financeiros. Ainda que o governo não amplie gastos correntes de forma desmedida, o estoque da dívida avança impulsionado pelo peso dos juros. A estabilização exigiria superávits robustos e persistentes — tarefa politicamente árdua — ou uma redução consistente das taxas. Sem isso, a dinâmica se torna desfavorável.
O mundo desenvolvido observa essa engrenagem como fenômeno típico de economias emergentes. Convém cautela. Países ricos acumulam dívidas elevadas, enfrentam envelhecimento populacional acelerado e convivem novamente com pressões inflacionárias após anos de relativa estabilidade de preços. Enquanto o crédito é barato, a situação parece administrável. Se o custo do dinheiro subir de forma estrutural, a matemática muda.
Juros persistentemente mais altos transformam dilemas marginais em problemas centrais. Um ou dois pontos percentuais adicionais de gasto deixam de ser debate técnico e passam a comprometer escolhas estratégicas. O serviço da dívida começa a disputar espaço com investimentos, políticas sociais e prioridades nacionais. O orçamento perde elasticidade. A política perde margem.
Essa dinâmica não é apenas econômica; é institucional. Expectativas sobre a solidez das regras fiscais, a previsibilidade das decisões públicas e a capacidade de correção de rumos influenciam o prêmio de risco. A experiência brasileira demonstra que a combinação de rigidez orçamentária, pressões permanentes de gasto e memória inflacionária eleva o custo da confiança.
E aqui surge o papel decisivo do Congresso.
É no Parlamento que se consolidam despesas obrigatórias, se ampliam benefícios, se criam vinculações e se aprovam renúncias tributárias. Quando se expandem direitos sem financiamento permanente, a conta é empurrada para o futuro. Quando reformas estruturais são evitadas por conveniência política, a percepção de risco aumenta. Juros não são apenas produto da política monetária; refletem também o compromisso legislativo com a sustentabilidade fiscal.
Nas democracias avançadas, o desafio é semelhante. Sistemas previdenciários pressionados pelo envelhecimento populacional, eleitores resistentes a ajustes e polarização política dificultam decisões impopulares. Se o Congresso cede sistematicamente às demandas de curto prazo e evita enfrentar a trajetória do gasto obrigatório, contribui para que o custo da dívida suba. E, uma vez elevado, esse custo reduz a própria capacidade de escolha do Legislativo, pois parcela crescente do orçamento passa a estar previamente comprometida.
A chamada “brasilização” não é destino inevitável. É processo gradual no qual os juros assumem protagonismo e limitam a autonomia do Estado. O espelho está diante das economias ricas. Ele reflete uma advertência clara: preservar credibilidade fiscal, conter pressões estruturais de gasto e fortalecer a responsabilidade legislativa não são exercícios de ortodoxia, mas condições para evitar que o principal programa de governo venha a ser, silenciosamente, o pagamento de juros.
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