PENSAMENTO PLURAL Na Boca da Noite, por Durval Leal Filho

O cineasta Durval Leal Filho aborda, em seu comentário, relembramentos relativos ao Boca da Noite, que “oferecia espaço, som, luz, cartaz de divulgação e panfletos, as famosas filipetas. Não havia interferência artística. O teatro funcionava com bilheteria e porteiro, e ao final da noite o artista recebia 100% da arrecadação”. Mostrava ainda “que política pública de cultura não é produzir espetáculo, mas criar condições para que o artista encontre o público”. Confira íntegra…

Na boca da noite eu sempre gostei de mirar estrelas. Olhar para o céu e ver a luz mudar os contornos do horizonte era um exercício de contemplação que trazia profundidade à noite. É por volta das 17:45 ou 18 horas que o último traço de rosa se dissolve no horizonte. Nesse instante, as constelações começam a se formar lentamente. As estrelas vão se compondo dentro do escuro. A boca da noite é o momento em que o céu se reorganiza diante dos olhos.

Na boca da noite também se reorganiza a cidade. É quando a gente volta da universidade ou do trabalho. O corpo procura um refúgio e a mente busca companhia. A percepção cultural do lugar se revela no caminhar, no olhar, no casario que muda de cor com a transição da luz. A escuridão chega lentamente e, quando chega, sempre é melhor estar acompanhado de um amigo, um colega ou um parceiro de conversa.

Antigamente, na boca da noite, quase sempre havia alguém ao lado. A gente saía da universidade, pegava um ônibus ou se dirigia ao centro da cidade. Existia encontro. Formavam-se grupos improvisados de conversa. Ali surgiam os gatilhos das ideias. O conhecimento do livre pensar dependia do outro. Era no diálogo que se construía a própria mentalidade, olhando o outro e sonhando. Aquilo que hoje os publicitários chamam de brainstorming era algo natural.

Foi nesse ambiente de convivência cultural e política que surgiu, já na década de 1980, o projeto Boca da Noite.

O Boca da Noite era música, encontro e circulação cultural. Era também um reinvestimento da tradição musical da cidade e da Paraíba. O projeto reunia artistas, público e curiosos. E por trás dessa ideia havia um artífice, um criador: Raimundo Nonato Batista, conhecido entre nós como o Gordo.

Raimundo Nonato Batista era amigo de meu pai, seu Durval, no porto de Cabedelo. Desde pequeno ele aparecia em nosso quintal, debaixo dos coqueiros, onde aconteciam conversas e pequenas farras. Ali passavam Celso Novaes, Vanildo Brito, Ronald Queiroz, Natanael Alves, Firmino Aires e outros amigos de meu pai que gostavam de uma cachaça ao meio-dia. O gordo era querido, irreverente, cheio de energia. Era daqueles homens que faziam algazarra e espetáculo ao mesmo tempo.

Com o tempo, o gordo foi morar em Recife. A vida dele teve episódios difíceis, inclusive problemas de saúde que marcaram sua trajetória. Mas uma coisa ninguém negava: Raimundo Nonato Batista era um visionário. Meu pai dizia que ele não sabia lidar com dinheiro, mas sabia enxergar ideias antes de todo mundo. Ainda na década de 1970 ele já imaginava projetos empresariais e culturais que estavam muito à frente de seu tempo.

Anos depois eu o reencontrei em João Pessoa. Estávamos tomando cerveja em uma mesa no restaurante La Cave, na descida da Padre Meira. Ele já não bebia muito por causa da saúde, ficava mais na água tônica ou na água mineral com gás. Foi ali que ele me contou da nova brincadeira que estava inventando. Disse com aquele sorriso irônico de sempre: “Boca da Noite vai ser o próximo projeto aqui de João Pessoa”.

Embora algumas estruturas culturais já existissem desde o governo Burity: como a Orquestra Sinfônica, o Planetário, a TV Espaço Cultural e, à Escola de Balé. Mas foi durante o governo Wilson Braga que o Boca da Noite se consolidou como experiência de política pública voltada diretamente ao artista.

O estado não produzia o espetáculo. O estado criava as condições para que o espetáculo acontecesse.

O funcionamento era simples e inteligente. O Boca da Noite oferecia espaço, som, luz, cartaz de divulgação e panfletos, as famosas filipetas. Não havia interferência artística. O teatro funcionava com bilheteria e porteiro, e ao final da noite o artista recebia 100% da arrecadação. Se o espetáculo atingisse determinado público, ganhava novas pautas. Se não atingisse, havia outros espaços de apoio.

Nesse contexto surgiam também outros palcos e experiências. O Jaguaribe Carne e o Teatro de Arena se tornaram lugares de experimentação. Foi nesse ambiente que vi apresentações marcantes e artistas importantes. Foi ali que vi a performance de Pedro Osmar “Música para Tancredo Neves dormir para Fafá de Belém cantar”. A cidade começou a ter uma vida cultural noturna pulsante.

O Boca da Noite revelava algo essencial sobre política pública de cultura. A cultura precisa ter uma estrutura semelhante à universidade. Na universidade existem ensino, pesquisa e extensão. Na política cultural também deveria existir uma lógica semelhante. Primeiro a criatividade, que é o campo da formação. Depois a inovação, que surge quando o artista experimenta. E por fim o público, que valida essa inovação.

Quando a cultura encontra o público, cria-se um circuito econômico e simbólico. O ingresso do Boca da Noite era barato, algo equivalente hoje a dois, dois e cinquenta meia ou cinco reais. O público não era enorme, mas era suficiente para valorizar o artista e formar plateia. Casa cheia não se constrói apenas com fama; constrói-se com inovação e continuidade. E nisso Raimundo Nonato Batista era um mestre.

Raimundo Nonato Batista passou horas conversando comigo sobre cultura. Ele acreditava que a política pública precisava criar oportunidades e não dependência. Foi também um dos articuladores da Lei Viva Cultura. A proposta surgiu de discussões e alinhavos entre artistas, gestores e vereadores. Houve resistência dentro da prefeitura, mas a articulação política acabou garantindo a aprovação da lei.

Assim, quando se fala em cultura na Paraíba, é preciso lembrar dessas histórias. O Boca da Noite não foi apenas um evento. Foi uma forma de pensar a cultura como encontro social, como circulação artística e como política pública. Raimundo Nonato Batista enxergava a noite como território de cultura, como momento de encontro no lusco-fusco da cidade.

As estrelas aparecem no céu e as pessoas aparecem nas ruas. Entre uma conversa e outra, entre um espetáculo e outro, surgem ideias que podem transformar uma cidade. Talvez seja por isso que a boca da noite continua sendo, para mim, o lugar onde a cultura começa.

O Boca da Noite mostrava que política pública de cultura não é produzir espetáculo, mas criar condições para que o artista encontre o público.

PARA A AMIGA CIDA LOBO.

 

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