PENSAMENTO PLURAL O aviador governador, por Durval Leal Filho

Em sua crônica, o cineasta Durval Leal Filho traz um tanto da história do cinema na Paraíba, e  resgata um personagem da política da Paraíba, o ex-governador Zé Maranhão, que era um aviador, coisa que, há algumas décadas, era considerado algo extraordinário. Mas, revela outra faceta: o apoio que Maranhão deu apoio para várias produções cinematográficas. Confira íntegra...

Desde menino, a imagem de um homem pequeno costurando um banco de couro me acompanha como chave de leitura de um tempo e de um governante, que olhava a cultura de cima ele preferia sobrevoar sem enxergar direito.

Lembro do dia em que, ainda menino, fui com meu pai a uma capotaria na Rua Cardoso Vieira, na Cidade Baixa, de João Pessoa-PB. Cheiro de couro novo e de cola, silêncio concentrado, a máquina costurando firme. Num canto, um homem ainda jovem, baixo, trabalhava na capa de uma cadeira diferente, estranha aos meus olhos não acostumados a bancos de carro, conhecia cadeiras de sala e bancos de madeira.

Curioso, aproximei-me devagar e fiquei observando: costurar o couro, fechar cantos, alinhar acabamentos. Quando ele fez uma pausa, perguntei de que cadeira era aquela. A resposta veio simples e orgulhosa: “É de avião… É do meu avião. Estou recuperando.” Essas três palavras ficaram vibrando dentro de mim, como se a oficina abrisse uma pista inteira no meu pensamento.

Meu pai, percebendo meu espanto, me puxou para fora. Na calçada, explicou: “Aquele homem era o jovem deputado José Maranhão, rico, tinha até avião, que além de político era artífice, sabia costurar, unir couro e linha, transformar matéria bruta em forma útil”. A imagem de alguém com tanta posse que não tem vergonha de sujar as mãos numa oficina me marcou, e virou régua íntima para medir discurso e prática.

Anos depois, o aviador deputado se tornou governador. Eu já estava do outro lado da câmera, buscando apoio para a produção de outro avião: o que voa na tela, carregando imagens, perguntas e memórias. Fomos encontrá-lo para pedir apoio ao filme “Eu Sou o Servo”, sobre Padre Ibiapina.

Cinema, para mim, sempre foi transformar o que está escrito num papel em reunião de gente, luz e tempo. Uma equipe parece um grande exército: produção, arte, som, fotografia, figurino. O roteiro é constituição interna; improviso sem aviso é golpe contra o orçamento e o equilíbrio. Planejamento e pré-produção são o coração invisível do cinema. É ali que cada detalhe se organiza para que a ficção encontre corpo possível e a história ganhe respiração na tela.

Nessa lógica, o produtor costura departamentos, traduz necessidades, equilibra expectativas. Lembra, às vezes, aquele jovem na capotaria, unindo couro e linha. Só que o material é humano e simbólico: paisagens, personagens, histórias, recursos escassos. O fascínio é ver o que nasce na escrita ganhar corpo na tela, gerar leitura crítica, provocar o olhar do espectador que reconhece o próprio lugar como paisagem digna de cinema.

Maranhão sabia que o filme seria filmado no Brejo, conhecia bem território afetivo e geográfico da obra do Padre Ibiapina, Maranhão era de Araruna. Falou do Memorial Santuário em Arara/Solânea, que seu governo estava tocando a construção para homenagear o futuro Santo do Nordeste, o Santuário do Padre Ibiapina: elo entre paisagem, fé e memória.

Ele, garantiu alguns apoios: estrutura do Corpo de Bombeiros, cessão de armas para filmagem e facilitação junto ao Exército. Pequenos gestos, necessários e bemvindos, mas ainda curtos para a escala do cinema.

O tempo passou e continuei batendo e abrindo portas para fazer cinema. Já vinha respaldado por produções mais consolidadas, equipe acostumada a editais, patrocínios e apoios. Mais, uma vez voltamos a Maranhão Governador, com Vânia Perazzo, diretora, apresentando o filme de ficção, 35mm, “Por 30 Dinheiro”, comédia de circo popular, misto de riso, miséria e sonho itinerante.

Na sala em reunião estavam Tião Gomes, deputado estadual que articulou a reunião, Inaldo Leitão, assessor do governador, velho parceiro da cultura universitária na UFPB, e o ator Chico Dias e eu como produtor executivo, com o esposo de Vânia.

Enquanto Vânia explicava o roteiro e a filmagem cruzando cidades para mostrar as paisagens da Paraíba, o governador começou a interferir na história, sugerindo cenários, comentando cenas como coautor. Eu via Chico Dias me olhar e gesticular, como aviso: o governador atravessava o roteiro como quem atravessa uma pista de pouso sem avisar a torre, desviando o curso do avião.

Perguntei, entre ousadia e diplomacia, uma provocação, se ele não gostaria de fazer o caminho das locações conosco, visitando cidades, apresentando o projeto aos prefeitos e costurando o apoio político necessário, já que ele também imaginava o filme. Achou boa ideia, prometeu planejar e, cinco minutos depois, já tangenciava o assunto.

Ao fim, ficou a sensação de que a capa do banco de seu avião era mais concreta do que qualquer compromisso contínuo.

Mas é também ali que aparece o tamanho da fragilidade quando o apoio público se resume a simpatia e promessa. Cinema não se faz apenas com entusiasmo de quem cria. Faz-se com estrutura, continuidade e política pública. Apoiar cinema não é elogiar filmes, posar para fotografia ou lembrar com nostalgia das salas antigas. Apoiar cinema é garantir o ciclo inteiro: formação técnica, produção, circulação, formação de plateia, mercado, memória, preservação da imagem e do som.

Novamente, fomos encontrá-lo na granja, numa homenagem à cultura.

Era o mesmo homem que aprendera a voar e a costurar, mas agora operava de dentro do gabinete, escolhendo o que apoiar e, sobretudo, como apoiar. Lá conversamos com o José Maranhão e falamos da premiação do filme o “O Senhor do Castelo”, longa documentário sobre Ariano Suassuna, premiado no Festival de Tiradentes. Falamos do filme circular nas escolas, de apresentar a Ariano para os alunos em salas de aula, divulgar um filme sobre escritor do Auto da Compadecida.

Ele ouviu, sorriu, deu parabéns, achou boa ideia e orientou que procurássemos o secretário de Educação. Saímos com a sensação de promessa no ar, dessas promessas que parecem assinatura e, depois, evaporam no corredor.

Sem isso, cada filme vira quase um milagre artesanal, sustentado pela obstinação de quem insiste em contar histórias. E os governantes continuam fazendo o que fazem desde sempre: sobrevoam a cultura como quem aprecia a paisagem pela janela de um avião.

Enquanto isso, o cinema já mudava o mapa simbólico da Paraíba: no Cariri, a “Roliúde Nordestina”, em Cabaceiras, vem se estabelecendo como a região de se fazer audiovisual no Brasil, vitrine nacional com grandes produções ali realizadas.