PENSAMENTO PLURAL Todos queremos ser amados, por Durval Leal Filho

O cineasta Durval Leal Filho aborda, em seu texto, como a questão da sinceridade raramente é aceita. “A sinceridade parte de você querer se expressar, dizer o que sente e o que pensa. No entanto, falar o que se sente raramente encontra acolhimento”, acentua. E ainda: “Em uma sociedade acostumada a máscaras, a transparência soa estranha.” Confira íntegra...

Uma coisa tenho prestado atenção ao longo da minha formação: a sinceridade não é uma coisa muito aceita. A sinceridade parte de você querer se expressar, dizer o que sente e o que pensa. No entanto, falar o que se sente raramente encontra acolhimento. Verdades não existem além do fato fático.

O outro, quase sempre, não quer nem deseja saber o que você sente ou como se comporta, ou ainda o que você aceita. A sinceridade, quando aparece, parece algo que muitos preferem esconder no armário do inconsciente.

TODOS QUEREMOS SER AMADO

Às vezes percebe-se que você é considerado grosseiro ao falar. O tom de voz direto, ou mesmo a escrita direta, parece incomodar. Expressar-se sem rodeios, colocando início, meio e fim, torna-se algo difícil de ser aceito. Não é o conteúdo apenas que incomoda, mas o fato de que a clareza desnuda posições. O discurso direto revela aquilo que muitos preferem manter envolto em ambiguidades, onde ninguém se compromete inteiramente com aquilo que diz.

Existe também uma estranha dificuldade em compreender que a sinceridade pode carregar dúvidas. Quando alguém se posiciona de forma sincera, imediatamente surge a suspeita de arrogância ou fragilidade.

A sinceridade, que poderia ser apenas uma posição humana diante do mundo, passa a ser interpretada como presunção ou como ataque. Assim, o ato simples de falar o que se pensa torna-se um terreno delicado, quase perigoso para quem deseja apenas expressar o que percebe.

Talvez por isso o silêncio tenha sido tantas vezes considerado uma virtude.

Caberia ao homem e ao ser humano, dizem alguns, falar menos. Não por acaso temos uma língua e dois ouvidos, dois olhos. A fala exige cuidado e atenção. Ao falar, denunciamos algo de nós mesmos: nossa presunção, nossa fragilidade ou nossa inocência. A palavra é sempre um risco, pois revela aquilo que somos ou aquilo que ainda estamos tentando compreender.

A fala, na verdade, possui muitas modulações. Existe a modulação da ignorância, aquela marcada pelos decibéis altos, pela necessidade de impor presença. Há também a modulação daqueles que interrogam com aparente sinceridade, mas cuja voz carrega o peso da presunção de um tempo ou de um conhecimento acumulado. Em qualquer desses casos, a palavra deixa rastros. Ela mostra intenções, fragilidades e até as contradições que carregamos sem perceber.

Por isso a fala pode ser ambígua. Às vezes ela se veste de sinceridade, mas esconde uma hipocrisia cuidadosamente mascarada. Outras vezes, aquilo que parece duro ou direto pode ser apenas uma tentativa honesta de não esconder sentimentos reais.

No entanto, em uma sociedade acostumada a máscaras, a transparência soa estranha. O gesto de dizer o que se pensa pode ser interpretado como agressividade ou falta de delicadeza.

Talvez seja por isso que a sinceridade, paradoxalmente, se tornou algo triste. Quando um país passa a consumir, quase como regra de comportamento, a chamada Lei de Gerson, a ideia de levar vantagem em tudo, a sinceridade deixa de ser virtude e passa a ser inconveniência. Aos poucos, instala-se uma cultura em que a aparência vale mais que a verdade e em que o cálculo substitui o diálogo.

Nesse ambiente, o país parece emburrecer um pouco mais a cada dia. Não necessariamente pela ausência de informação, mas pela multiplicação de máscaras. A hipocrisia passa a ser uma espécie de linguagem social aceita. A polaridade política torna-se latente, cruel e muitas vezes triste. Quem tenta observar os dois lados percebe rapidamente que a sinceridade não encontra lugar confortável nesse terreno dividido.

Se alguém aponta a ignorância misógina e golpista presente em setores Bolsonaristas, imediatamente surgem reações. Mas se a mesma pessoa também critica o lado burguês pseudosocialista de certos compadres petistas, que fazem da corrupção pública sua senha, a reação não é menor. O tom de voz passa a ser examinado, e qualquer crítica é interpretada como ataque. Assim, mesmo quando se apontam fatos, a resposta costuma vir carregada de suspeita.

Nesse cenário, a sinceridade passa a ser confundida com grosseria. Falar com base em fatos, pontuar acontecimentos ou apresentar argumentos transforma o indivíduo em alguém desagradável. A sociedade prefere narrativas confortáveis, ainda que frágeis. Aqueles que tentam atravessar os discursos com alguma franqueza acabam percebendo que não pertencem completamente a lado algum.

O problema é que os lados no Brasil perderam o próprio prisma da polarização tradicional. Antes se imaginava uma disputa entre posições distintas. Agora, muitas vezes, parece existir apenas uma disputa de narrativas. O debate já não acontece sobre princípios claros, mas sobre identidades políticas que se defendem mutuamente. Nesse terreno, a sinceridade torna-se ainda mais incômoda.

Vivemos uma era que alguns chamariam de quântica. Os lados deixaram de ser apenas opostos e tornaram-se multidimensionais. Aquilo que parecia simples divisão entre dois campos passa a revelar múltiplas camadas de interesses. O Judiciário, o Legislativo e Executivo no debate público aparecem atravessados por essa tridimensionalidade.

A ética e o pudor tornam-se conceitos que cada grupo reivindica apenas quando lhe convém.

Diante disso, quando alguém afirma claramente que vivemos entre dois lados obtusos, nenhum deles completamente ético ou pudoroso, a reação costuma ser previsível. A sinceridade transforma-se em algo que poderíamos chamar de
“SINCERICÍDIO”. Quem fala passa a ser odiado, vilipendiado ou excluído. Não porque esteja necessariamente errado, mas porque sua posição ameaça o conforto das identidades estabelecidas.

No fundo, tudo isso revela algo muito simples e profundamente humano: todos queremos ser amados. No entanto, ser amado sendo verdadeiro parece uma tarefa difícil.

Quando digo que os lados não têm lados, que tudo parece sempre “o lado de lá”, percebo que o meu lado é apenas aqui, o lugar de quem tenta falar com franqueza. E talvez seja exatamente por isso que ninguém consegue ser amado sendo totalmente verdadeiro.

 

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