
Em sua crônica, o cineasta Durval Leal Filho comenta sobre a trajetória do ator Wager Moura e do filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça. “O filme Agente Secreto foi aceito em todos os aspectos. Uma história narrativa que traz barbárie, uma temporalidade triste de um Brasil autoritário, mas traduz elegância na diversidade do povo brasileiro. Há observações sarcásticas, talvez desnecessárias, mas presentes na contextualização do universo do autor”, pontua. Confira íntegra…
A necessidade de ser aceito pulsa como um drama inescapável na sociedade atual. Vivemos em um mundo que nos cobra admissão constante, onde ser conhecido mundialmente define o valor. A efemeridade transformou tudo em uma mirabolante aldeia galática, pairando nas nuvens das inter-relações algorítmicas e virtuais.
Nesse ambiente veloz, quase não existe silêncio para a construção do indivíduo. Tudo pede resposta imediata, presença constante, validação pública. Como se cada gesto precisasse de testemunhas, como se cada ideia precisasse nascer já acompanhada de aplausos.
Essa pressa por aceitação vira utopia. Há um tempo de buscar a citação e um tempo de colher a necessidade do acento. Entre uma coisa e outra existe o silêncio da maturação, a paciência da experiência. Ser aceito muitas vezes parece ganhar na loteria social, com uma plateia que vibra por alguns instantes e logo procura outro vencedor.
Mas você aceita está na essência do que é. A verdadeira aceitação não nasce da multidão, nasce de dentro, no lugar onde o indivíduo reconhece sua própria trajetória. Essa mistura é a própria matéria-prima da nossa cultura. Um país que narra suas histórias constrói memória. Um país que esquece seus relatos perde o fio da própria identidade.
Não há dúvida: temos um desenho e uma paisagem humana fabulosa no cinema, no teatro e na construção de perfis difusos. Tantas nacionalidades misturadas ao “Autraxaropitex”, somos diversos, com histórias para narrar: boas, tristes, que devem ser relembradas e contadas como escrita fina.
A comunidade se olha e busca defender, mas centenas de filmes brasileiros estão nas prateleiras: bons projetos, roteiros, cinematografias ali realizada. Que quase ninguém conhece. São filmes existem para não ser vistos e para ser esquecidos, filmes feitos para serem filme que nasce sem presunção de preservação. Esse esquecimento silencioso é uma das maiores tragédias culturais. O cinema não vive apenas de produção; ele precisa de memória.
No cinema brasileiro, essa subjetividade aleatória explode no momento atual. Pense no filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho como cineasta e Wagner Moura como um grande ator. Um ator que, desde sua essência de atuar, no cotidiano como personagem política cidadão, até o ser criador de personagens como artista. O cinema torna-se então uma metáfora dessa busca por reconhecimento. Cada filme carrega o desejo de ser visto, compreendido, discutido. Mas também carrega o risco de se perder na expectativa do aplauso fácil.
Essa mistura é a própria matéria-prima da nossa cultura. Um país que narra suas histórias constrói memória. Um país que esquece seus relatos perde o fio da própria identidade.
Ser percebido no seu tempo define tudo. O Agente Secreto representa aceitação já definida, desde o jovem cineasta que mostrou talento no curta Recife Frio, com um tema inusitado. Sua direção, linguagem e produtos cresceram dos através de editais publico, forjando sua formação técnica do intelectual criador. O reconhecimento não nasce apenas do talento individual; ele também se forma nas estruturas que permitem ao artista existir.
É o processo do Estado como agente de formação, produção e difusão. O Agente Secreto traz essa maturidade que une conhecimentos, inter-relações pessoais e competências com eficiência no momento que Kleber se encontra com a parceira Emilie Lesclaux, produtora do filme.
Nesse encontro de trajetórias, surgem obras que sintetizam experiência e sensibilidade. A criação artística raramente é solitária. Ela nasce do diálogo entre pessoas, instituições e circunstâncias históricas.
Sua filmografia cresce, e as inter-relações se abrem. Fica mais fácil o conhecimento: no primeiro momento, é aceito pelo roteiro de excelente qualidade. Se eu sou aceito como cineasta porque um produtor acredita e uma equipe investe em uma grande ideia, temos então um grande produto. Assim também é uma aceitação.
Trazendo para o tempo real da mídia, não receber prêmios do Oscar não significa nada. Significa apenas um parâmetro pontual de uma sociedade em rede querendo ser aceita, mas não enxergando no entorno uma realidade que evolui sem aceitar parâmetros rígidos sociais, políticos e humanos.
O filme Agente Secreto foi aceito em todos os aspectos. Uma história narrativa que traz barbárie, uma temporalidade triste de um Brasil autoritário, mas traduz elegância na diversidade do povo brasileiro. Há observações sarcásticas, talvez desnecessárias, mas presentes na contextualização do universo do autor.
Vários excelentes filmes já produzidos no Brasil. Agora, infelizmente, vivemos em um país sem tela para a história nacional narrada e contada. O coeficiente do cinema nacional continua fora das telas quando o filme extrapola a necessidade de se aceitar em Hollywood.
A ausência de espaços de exibição cria um paradoxo: produzimos muito, mas nos vemos pouco. Filmes nascem, respiram por um instante e desaparecem.
A comunidade se olha e busca defender, mas centenas de filmes brasileiros estão nas prateleiras: bons projetos, roteiros, cinematografias ali realizada. Que quase ninguém conhece. São filmes existem para não ser vistos e para ser esquecidos, filmes feitos para serem filme que nasce sem presunção de preservação.
Esse esquecimento silencioso é uma das maiores tragédias culturais. O cinema não vive apenas de produção; ele precisa de memória.
Porque a memória hoje está depositada no cinema virtual. Poucos sistemas recriam, poucos museus de imagem e som se fortalecem. Assim como centenas de filmes realizados no Brasil, o Agente Secreto está no outro parâmetro: qualidade técnica, visibilidade internacional.
Ele se aceita em festivais nacionais e internacionais. Você aceita ter um grande público quando se aceita primeiro no nosso território, na nossa casa. Aí começa a crescer a empatia, a valorização para trabalhar com eficiência.
O cinema brasileiro, rico em essências, sufoca na miragem hollywoodiana, esquecendo suas prateleiras vivas. A aldeia galática nos distrai, mas a aceitação verdadeira brota da casa própria, da narrativa crua do povo misturado.
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