PENSAMENTO PLURAL O esvaziamento de uma liderança histórica, por Palmarí de Lucena

Em seu texto, o escritor Palmarí de Lucena argumenta que os Estados Unidos estão deixando de exercer a liderança global baseada em cooperação e valores democráticos, adotando uma postura mais unilateral e centrada no poder. Essa mudança enfraquece alianças, reduz a confiança internacional e aumenta a instabilidade global. Em um mundo cada vez mais multipolar, o país continua forte, mas perde legitimidade. “O maior risco não é apenas a perda de influência, mas o esvaziamento do papel simbólico que sustentava sua liderança”, alerta. Confira íntegra...

Durante décadas, os Estados Unidos ocuparam uma posição singular no cenário internacional. Mais do que uma potência militar ou econômica, o país construiu para si a imagem de referência política e moral de um bloco que se convencionou chamar de “mundo livre”. Esse papel, contudo, não era automático nem permanente — dependia de escolhas, compromissos e, sobretudo, de coerência.

O que se observa atualmente é um deslocamento dessa função. Não se trata apenas de uma perda de influência, como tantas vezes ocorreu ao longo da história das grandes potências, mas de uma redefinição — ou mesmo rejeição — do próprio conceito de liderança. Ao privilegiar ações unilaterais e reduzir o valor das alianças tradicionais, os Estados Unidos parecem abdicar de um modelo que exigia negociação, previsibilidade e responsabilidade compartilhada.

Esse movimento carrega implicações profundas. A liderança internacional nunca foi sustentada exclusivamente pela força, mas pela capacidade de gerar confiança. Instituições multilaterais, acordos econômicos e compromissos de segurança coletiva foram, durante décadas, instrumentos que ampliaram a legitimidade americana. Ao enfraquecê-los, abre-se espaço para um cenário mais instável, no qual prevalecem interesses imediatos e relações transacionais.

A história oferece alertas claros. Potências que ignoram os limites entre poder e excesso tendem a enfrentar desgaste acelerado. O desafio não está apenas em manter superioridade militar ou competitividade econômica, mas em equilibrar essas dimensões com coesão interna e visão estratégica de longo prazo. Sem esse equilíbrio, o protagonismo internacional se torna insustentável.

Além disso, o contexto global mudou. A ascensão de novos atores e a fragmentação do poder tornam cada vez menos viável a ideia de uma única nação como eixo organizador do sistema internacional. Nesse ambiente, a insistência em impor vontades, em vez de construir consensos, pode resultar não em liderança, mas em isolamento.

O ponto mais sensível dessa transformação talvez não seja a perda de posição, mas a erosão de significado. Ao longo do tempo, os Estados Unidos projetaram valores que transcendiam seus interesses imediatos — ainda que nem sempre os tenham cumprido plenamente. Quando esses valores deixam de orientar a ação externa, o país não apenas perde influência, mas também parte de sua identidade no cenário global.

Diante disso, a questão central não é quem ocupará o espaço deixado, mas se o próprio conceito de liderança internacional, tal como foi conhecido nas últimas décadas, continuará a existir. Em um mundo mais fragmentado e competitivo, a autoridade tende a ser substituída pela disputa, e a cooperação, pela conveniência.

Resta saber se haverá, no futuro, espaço para reconstruir uma liderança baseada não apenas na força, mas na legitimidade — condição indispensável para qualquer ordem internacional minimamente estável.

 

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