PENSAMENTO PLURAL Affordability, gênero e o custo invisível de sustentar um lar no Brasil, por Palmarí de Lucena

A perda de affordability (acessibilidade) no Brasil evidencia um desequilíbrio crescente entre renda e custo de vida, com impacto mais severo sobre mulheres chefes de família, pontua o escritor Palmarí de Lucena. Dados indicam menor remuneração, maior carga de trabalho doméstico e maior comprometimento da renda com despesas essenciais. Apesar disso, o debate público permanece fragmentado, com predominância de medidas paliativas. A ausência de uma abordagem integrada — que articule emprego, renda, cuidado e custo de vida — limita a eficácia das respostas e perpetua desigualdades estruturais. Confira íntegra...

A deterioração da acessibilidade econômica — ou affordability, termo que descreve o quanto a vida cabe no orçamento das famílias — tornou-se um dos principais desafios do Brasil contemporâneo. Em termos simples, trata-se da relação entre renda e custo de vida: quando os preços sobem mais do que os ganhos, viver deixa de ser financeiramente sustentável. Esse fenômeno, embora generalizado, atinge de forma desproporcional as mulheres chefes de família, combinando aumento de custos com desigualdades estruturais no mercado de trabalho e na divisão social do trabalho.

Os dados ajudam a dimensionar o problema. Segundo o IBGE, as mulheres recebem, em média, cerca de 20% a 22% menos que os homens, mesmo considerando diferentes níveis de escolaridade. Além disso, apresentam maior inserção em ocupações informais e de menor remuneração, o que reduz a estabilidade da renda.

A desigualdade se intensifica fora do mercado formal. Ainda de acordo com o IBGE, mulheres dedicam, em média, 21,4 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados, enquanto os homens dedicam cerca de 11 horas. Trata-se de uma diferença que praticamente dobra a carga de trabalho não remunerado feminino, limitando o tempo disponível para atividades produtivas e qualificação profissional.

Entre as mulheres chefes de família — que já representam aproximadamente 40% dos lares brasileiros — essa sobrecarga assume caráter estrutural. Elas concentram simultaneamente a responsabilidade pela renda e pelo cuidado doméstico, muitas vezes sem acesso a redes de apoio ou serviços públicos adequados.

Nesse contexto, o problema de affordability se agrava. Famílias de menor renda chegam a destinar mais de 50% de seus rendimentos a despesas essenciais, como alimentação e habitação. Quando esses custos aumentam, a capacidade de adaptação é limitada, e os ajustes recaem sobre a qualidade de vida.

A pressão é particularmente evidente no mercado de moradia. Em grandes centros urbanos, o aluguel frequentemente ultrapassa o patamar de 30% da renda familiar, limite considerado sustentável por parâmetros internacionais. Para mulheres chefes de família, isso implica escolhas recorrentes entre localização, qualidade da moradia e outras necessidades básicas.

O resultado é um ciclo de restrição econômica. A sobrecarga de trabalho doméstico reduz oportunidades de ascensão profissional; a baixa renda limita o acesso a serviços que poderiam aliviar essa carga; e o aumento do custo de vida comprime ainda mais o orçamento. Nesse cenário, affordability deixa de ser um conceito abstrato e passa a definir, concretamente, as condições de vida.

No entanto, a gravidade desse quadro contrasta com a superficialidade do debate público. Não há, no Brasil, um debate nacional estruturado sobre o custo de viver e suas implicações de gênero. Em seu lugar, proliferam políticas públicas paliativas, frequentemente fragmentadas e de alcance limitado, incapazes de enfrentar as causas estruturais da desigualdade econômica.

No campo político, é recorrente o uso de retórica de combate à violência contra a mulher — tema de reconhecida relevância — em pronunciamentos e campanhas eleitorais que nem sempre dialogam com a dimensão econômica das desigualdades enfrentadas por mulheres, especialmente aquelas responsáveis pelo sustento do lar. Ainda que o enfrentamento à violência seja indispensável, a centralidade desse tema, quando não acompanhada de propostas voltadas à autonomia econômica, ao acesso ao trabalho digno e à redução do custo de vida, pode limitar a abrangência do debate público.

Apesar da clareza dos dados, a acessibilidade econômica segue sendo tratada de forma fragmentada, sem a devida integração entre políticas de renda, emprego, cuidado e habitação. O aumento do custo de vida não afeta todos de maneira uniforme — e reconhecer essas diferenças é condição necessária para a formulação de respostas mais eficazes.

Affordability, portanto, não é apenas uma questão de preços ou salários, mas de como renda, tempo e responsabilidades são distribuídos na sociedade. Enfrentar esse desafio requer uma abordagem abrangente, baseada em evidências e orientada para a redução de desigualdades estruturais, de modo a garantir condições mais equilibradas de vida para diferentes grupos sociais.

Sem esse esforço coordenado, o risco é a manutenção de um cenário em que o acesso ao básico permanece desigual, com impactos diretos sobre o bem-estar das famílias e o desenvolvimento econômico do país.

 

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