PENSAMENTO PLURAL Paraíba: um Estado partido entre litoral e interior, por Emir Candeia

O professor Emir Candeia observa, em seu texto, como a Paraíba tem se desenvolvido em polos distintos, e não no Estado como um todo. “O estado foi sendo administrado, ao longo de décadas, de forma desequilibrada, concentrando poder, investimento, estrutura e oportunidade no litoral, enquanto o interior recebeu, em grande parte, ações pontuais, paliativas e de efeito mais visual do que transformador”, pontua. Confira íntegra...

A Paraíba precisa encarar uma verdade incômoda: o estado foi sendo administrado, ao longo de décadas, de forma desequilibrada, concentrando poder, investimento, estrutura e oportunidade no litoral, enquanto o interior recebeu, em grande parte, ações pontuais, paliativas e de efeito mais visual do que transformador.

Quando se observa o tamanho populacional das cidades, essa distorção aparece com clareza. Campina Grande, hoje, tem uma população semelhante à de João Pessoa de cerca de 35 anos atrás. Patos, por sua vez, se aproxima da João Pessoa de muitas décadas atrás. A comparação é simbólica e revela um fenômeno maior: enquanto a capital e sua região avançaram com mais força, grande parte do interior ficou marchando em câmera lenta.

O problema não é fazer pintura de prédios públicos, calçamento, pavimentação e pequenas melhorias urbanas. Isso é importante e a população precisa disso. O problema é quando a política para o interior se resume a isso. A sensação que fica é a de uma velha prática colonial: entregar espelhos, perfumes e colares para distrair, sem repartir o verdadeiro poder, sem instalar base econômica sólida, sem criar autonomia regional, sem construir futuro.

É a política da sala arrumada e da casa desorganizada. A sala é o litoral: bonita, visível, mostrada nas propagandas, nos discursos e nas vitrines do poder. O resto da casa é o interior: áreas que sobrevivem com carências históricas, pouca interiorização de investimentos estruturantes e dependência crescente dos grandes centros.

Esse modelo empurra a população para onde existe hospital melhor, escola melhor, universidade, emprego e serviços. O paraibano do interior não deixa sua terra porque quer. Sai porque precisa. Migra porque sabe que, em muitos casos, para estudar, tratar uma doença, arrumar trabalho ou crescer na vida, terá de ir para Campina Grande, João Pessoa ou outras cidades maiores.

Mas essa migração também produz um efeito perverso. Ao mesmo tempo em que esvazia economicamente o interior, pressiona as maiores cidades. Crescem os problemas de moradia, surgem ocupações em áreas sem infraestrutura, aumenta a demanda por água, esgoto, transporte, saúde e educação. Aparece a favelização. E muitos dos que chegam não encontram emprego qualificado, mas sim subemprego, informalidade e, às vezes, um ambiente de vulnerabilidade social que pode empurrar parte deles para a marginalidade.

A situação tende a se agravar porque outro fenômeno já está em curso: a queda da natalidade. Durante muito tempo, mesmo cidades pouco dinâmicas ainda cresciam porque nascia muita gente. Esse motor está perdendo força. Isso significa que o interior poderá crescer cada vez menos, ou até estagnar, se não houver uma política séria de desenvolvimento regional.

É aí que entra a responsabilidade dos governos estaduais. A Paraíba precisa parar de ser governada apenas com a cabeça voltada para o litoral. O governador não pode agir como administrador de uma faixa geográfica privilegiada, deixando o restante do estado vivendo de sobras, promessas e obras dispersas. Governar a Paraíba exige enxergar o mapa inteiro.

É preciso cobrar dos candidatos, especialmente dos que disputam o governo do estado, um projeto claro para o desenvolvimento integral da Paraíba. Não um conjunto de frases bonitas, mas um plano concreto, regionalizado, mensurável e duradouro.

Esse projeto deveria começar por alguns pontos centrais.

Primeiro: descentralizar os investimentos públicos estruturantes. O interior precisa de hospitais regionais fortes, centros de diagnóstico, educação técnica de qualidade, universidades conectadas às vocações locais e serviços públicos capazes de fixar a população em suas próprias regiões.

Segundo: criar polos econômicos no interior. Não basta depender de comércio, prefeitura e folha de pagamento estatal. É preciso estimular agroindústria, tecnologia, turismo, energias renováveis, indústria de transformação, reciclagem, logística e serviços especializados em várias regiões do estado.

Terceiro: qualificar a mão de obra local. O jovem do interior não pode continuar sendo treinado para sair de sua cidade. Ele precisa ser preparado para produzir riqueza onde vive.

Quarto: garantir infraestrutura de verdade. Estrada é importante, mas não resolve tudo. É preciso saneamento, internet de alta qualidade, energia confiável, habitação planejada, distritos industriais e segurança para atrair investimento.

Quinto: fortalecer cidades-polo como centros regionais de desenvolvimento. Campina Grande, Patos, Sousa, Cajazeiras, Guarabira, Monteiro e outras cidades não podem ser vistas apenas como administradoras de carências regionais. Elas devem ser tratadas como motores econômicos e sociais de suas regiões.

O que falta à Paraíba não é apenas recurso. Falta visão estratégica. Falta compreensão de que um estado não se desenvolve de verdade quando apenas uma parte dele avança. Quando o litoral concentra demais, o interior enfraquece. E quando o interior enfraquece, o estado inteiro adoece.

Chegou a hora de trocar a política de vitrine pela política de estrutura. Trocar a maquiagem pela transformação. Trocar o agrado momentâneo por um projeto duradouro.

A Paraíba não pode continuar sendo um estado de duas velocidades: uma rápida no litoral e outra lenta no interior. Ou se constrói um projeto para todos, ou continuaremos assistindo ao esvaziamento de muitas cidades, ao inchaço desordenado das maiores e ao desperdício do enorme potencial humano e econômico espalhado por todo o território paraibano.

Desenvolver a Paraíba de verdade é desenvolver o estado como um todo. O resto é propaganda.

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