
A condução das guerras contemporâneas revela um erro persistente: a crença de que tecnologia e precisão substituem a compreensão humana, observa o escritor Palmarí de Lucena. “O conflito com o Irã expõe essa ilusão, ao mostrar que ataques externos tendem a fortalecer regimes, não a enfraquecê-los”, acrescenta e ainda: “O problema não é falta de informação, mas de imaginação. Ao ignorar memória, identidade e emoção, líderes produzem estratégias tecnicamente sofisticadas, porém politicamente frágeis — incapazes de antecipar as consequências que, invariavelmente, agravam o conflito.” Confira íntegra...
Há um equívoco perigoso — e cada vez mais disseminado — orientando a condução das guerras contemporâneas: a crença de que conflitos podem ser administrados como sistemas técnicos, resolvidos por precisão, velocidade e superioridade tecnológica. Trata-se de uma ilusão sofisticada, mas ainda assim uma ilusão.
O conflito envolvendo o Irã expõe esse erro com desconcertante nitidez. Ao apostar que a eliminação de lideranças, o controle do espaço aéreo e a destruição de infraestrutura levariam ao colapso do regime, seus estrategistas não apenas erraram o cálculo — erraram o objeto do cálculo. Partiram da premissa de que Estados e sociedades reagem como sistemas previsíveis. Não reagem.
A guerra, ao contrário do que parecem supor seus planejadores, não é um problema de engenharia. É um fenômeno humano, saturado de memória, identidade e emoção. Reduzi-la a coordenadas, alvos e cronogramas é não apenas simplificá-la, mas distorcê-la.
Há, hoje, um fetiche pela precisão. Celebra-se a capacidade de atingir um alvo com exatidão milimétrica, como se isso implicasse controle sobre os desdobramentos do conflito. Não implica. Saber onde atingir não é saber o que se está atingindo. Um ataque pode eliminar um indivíduo e, ao mesmo tempo, multiplicar a força simbólica que ele representa. Pode destruir uma estrutura e fortalecer a narrativa que a sustenta.
O erro recorrente — e, a esta altura, inescusável — é acreditar que pressão externa desarticula regimes. A experiência demonstra exatamente o contrário: a agressão tende a consolidar o poder interno, reorganizar a sociedade em torno da ameaça e transformar divergências em unidade. O que se imagina como fragilização frequentemente se converte em reforço.
Não se trata, portanto, de uma falha de informação. Nunca se soube tanto sobre o inimigo. Trata-se de uma falha de interpretação — ou, mais precisamente, de imaginação. Falta aos formuladores de estratégia a capacidade de conceber que o outro não pensa como eles, não reage como eles e, sobretudo, não valoriza as mesmas coisas.
Essa limitação é agravada por uma transformação mais ampla: o esvaziamento das humanidades no processo decisório. História, literatura e filosofia — outrora instrumentos centrais para a compreensão do comportamento humano — foram substituídas por modelos, métricas e simulações. O resultado é uma elite estratégica altamente capacitada do ponto de vista técnico e profundamente limitada do ponto de vista interpretativo.
Há uma ironia nisso. Quanto mais sofisticados se tornam os meios de guerra, mais rudimentar parece tornar-se a compreensão de seus fins. Domina-se o “como”, ignora-se o “por quê”.
A tecnologia, ademais, introduz um fator adicional de risco: a compressão do tempo. A distância entre identificar e agir foi drasticamente reduzida. Decide-se em tempo real, frequentemente antes que haja tempo para compreender. A ação deixa de ser consequência da reflexão e passa a substituí-la. Age-se porque é possível agir — não porque se entendeu o suficiente.
Esse padrão não é apenas um erro tático. É um erro de mentalidade. Revela uma forma de pensamento que privilegia o controle imediato e despreza as consequências de médio e longo prazo. E, em guerra, são justamente essas consequências que definem o resultado.
O mais grave é que essa forma de condução do conflito não apenas falha — ela tende a produzir aquilo que pretende evitar. Ao invés de encerrar disputas, prolonga-as. Ao invés de enfraquecer adversários, radicaliza-os. Ao invés de estabilizar, desorganiza ainda mais.
Convém dizer com todas as letras: não se trata de um acidente. Trata-se de uma cegueira estrutural. Líderes que dominam sistemas complexos, mas não compreendem emoções humanas fundamentais — honra, humilhação, lealdade, ressentimento — estão mal equipados para decidir sobre guerra. E, ainda assim, são eles que decidem.
A ilusão de controle total, alimentada por dados e algoritmos, produz estratégias elegantes no papel e desastrosas na realidade. Porque aquilo que escapa à medição — e quase tudo o que importa escapa — continua operando com força decisiva.
A guerra não se deixa domesticar por planilhas.
Ignorar isso não é apenas um erro analítico. É uma irresponsabilidade política.
E, como a história insiste em demonstrar, erros desse tipo não permanecem confinados aos gabinetes onde são concebidos. Cobram seu preço — alto, previsível e, ainda assim, repetidamente ignorado.
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