
O texto do escritor Palmarí de Lucena analisa a cultura do cancelamento em instituições acadêmicas e culturais brasileiras, destacando como a substituição do debate por rótulos e desqualificação prejudica o pluralismo. Aponta o uso de acusações simplificadoras, a atuação de forças difusas e o crescimento da autocensura. O resultado é o empobrecimento intelectual e o afastamento de talentos. Defende-se equilíbrio entre liberdade e responsabilidade, com respeito ao contraditório, ao devido processo e à escuta como fundamentos essenciais. Confira íntegra…
Há um fenômeno crescente nas instituições acadêmicas e culturais do Brasil que não se impõe por decretos nem se anuncia em atos oficiais, mas que, ainda assim, produz efeitos profundos: a cultura do cancelamento. Difusa, veloz e muitas vezes movida por impulsos legítimos, ela se manifesta como um mecanismo informal de julgamento — e, em certos casos, de exclusão.
É preciso, desde logo, evitar simplificações. Universidades, academias e espaços culturais não podem ser territórios de complacência diante de práticas discriminatórias ou abusivas. A crítica, a revisão e a responsabilização são pilares da vida intelectual. O problema surge quando esse necessário zelo ético se transforma em patrulhamento permanente, substituindo o debate pela condenação sumária.
Com frequência, já não se confrontam ideias, mas se rotulam indivíduos. Professores, escritores, artistas e pesquisadores passam a ser avaliados menos pelo conteúdo de suas contribuições e mais por episódios isolados, muitas vezes descontextualizados. A complexidade cede lugar à simplificação, e o ambiente que deveria acolher o dissenso transforma-se, progressivamente, em espaço de uniformidade.
Mais preocupante ainda é quando forças difusas — nem sempre identificáveis — passam a atuar na desqualificação prévia de pessoas interessadas em participar desses ambientes. Não se trata apenas de crítica, mas de um processo de rotulação que distorce, por vezes calunia e busca macular reputações antes mesmo que ideias sejam devidamente consideradas. O resultado é um efeito dissuasório: talentos se retraem, vozes qualificadas se afastam e o debate empobrece.
Nesse contexto, a rotulação ideológica apressada — chamar alguém de “comunista” ou “fascista” como forma de encerrar o debate — revela menos sobre o alvo do que sobre o método. Trata-se de um expediente retórico que dispensa o argumento e aposta na desqualificação. É a escolha das sombras em vez da luz: um ambiente em que preconceitos, reducionismos e certa desonestidade intelectual operam como filtros, distorcendo a realidade e empobrecendo o diálogo.
Essa dinâmica, guardadas as devidas proporções, evoca práticas históricas como o Macarthismo, em que a suspeição e o rótulo substituíam a análise e o contraditório. Não se trata de equiparar contextos, mas de reconhecer um padrão recorrente: quando etiquetas passam a definir pessoas, o espaço para o pensamento crítico se estreita perigosamente.
Um dos efeitos mais corrosivos desse ambiente é a autocensura. Jovens pesquisadores passam a calibrar suas ideias não apenas por sua consistência, mas por sua aceitabilidade. Curadores evitam temas controversos. Gestores preferem o previsível ao instigante. O medo, ainda que silencioso, passa a orientar decisões que deveriam ser guiadas pela curiosidade e pelo rigor.
Há também um dano institucional. Quando práticas de desqualificação se tornam toleradas, instala-se uma cultura de suspeição permanente. A reputação deixa de ser construída ao longo do tempo e passa a ser vulnerável a julgamentos apressados. E, nesse processo, perde-se algo essencial: a confiança de que o mérito e a integridade intelectual serão critérios centrais.
Parte desse fenômeno se explica pelo contexto mais amplo das redes sociais, que aceleraram o tempo do julgamento e reduziram o espaço da nuance. A lógica da visibilidade instantânea favorece posições extremadas e penaliza a ponderação. O que antes exigia debate agora se resolve em reações rápidas — muitas vezes com consequências duradouras e irreversíveis.
Diante desse cenário, o desafio não é escolher entre liberdade e responsabilidade, mas preservar ambas. Isso exige reafirmar princípios básicos: o devido processo, o direito à defesa, a distinção entre crítica e difamação. Exige também maturidade para sustentar o dissenso sem recorrer à exclusão.
Mais do que regras, é necessária uma ética da escuta. Escutar não significa concordar, mas reconhecer que o outro pode trazer uma perspectiva relevante. Sem essa disposição, a universidade perde sua vocação, e a cultura se converte em repetição.
Entre o aplauso fácil e o silêncio imposto, cabe às instituições — e a todos que delas participam — escolher o caminho mais exigente: o da liberdade com responsabilidade, do rigor com justiça e do debate com pluralidade. É nesse terreno, incerto e por vezes desconfortável, que o conhecimento avança e a cultura floresce — longe das sombras, e mais próximo da luz.
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