
Em seu comentário, o cineasta Durval Leal Filho externa sua vergonha “por sentir nojo, ojeriza, asco de pessoas, que hoje viraram facções, que carregam dentro do seu âmago, com convicção, as denominações de PeTralhas e Bolsomínios“. E lamenta como, a partir do Supremo Tribunal Federal, “o sistema jurídico, que deveria ser o guardião da ordem, passa a ser percebido como parte do próprio jogo de poder”. Confira íntegra…
Muitas das vezes eu sinto vergonha de mim mesmo. Por achar que temos que ser justos e entender o que há de verdade e de justiça.
Vergonha tenho também por sentir nojo, ojeriza, asco de pessoas, que hoje viraram facções, que carregam dentro do seu âmago, com convicção, as denominações de PeTralhas e Bolsomínios.
Pessoas que defendem duas figuras desumanas, desonestas e desqualificadas que este país já teve em todos os sentidos, em todas as faces institucionalizadas da vida pública.
Assim começa o retrato de um país que parece ter naturalizado o absurdo. Não como exceção, mas como método. A repetição da deformidade política deixou de causar estranhamento e passou a funcionar como rotina administrativa, quase um protocolo informal de sobrevivência institucional.
Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro surgem, nesse cenário, como polos de uma mesma engrenagem. Não exatamente opostos, mas complementares. Dois lados de uma moeda que já não tem valor simbólico, apenas desgaste. O cidadão comum a carrega no bolso, mas já não confia no que ela representa.
O problema, no entanto, não reside apenas nas figuras. Ele se expande na adesão quase religiosa de seus seguidores. Petralhas e Bolsomínios, na sua anamnese política, acreditam na excepcionalidade de seus líderes. Ignoram que ambos operam dentro de um mesmo sistema de manipulação, onde o discurso serve mais para encobrir do que para revelar.
É nesse ponto que o país deixa de ser apenas contraditório e passa a ser funcionalmente incoerente. O Brasil transforma-se em um berço institucionalizado de canalhices. Executivo, Judiciário, Legislativo, ancorado no Ministério Publico omisso e conivente, muitas das vezes parceiro de mesas regadas a Whisky Macallan, eles não apenas coexistem, mas se entrelaçam em uma lógica de interesses que envolve banqueiros, empreiteiros, setores empresariais e estruturas paralelas de poder.
A moral e a ética, que deveriam estruturar o bem público, tornam-se elementos decorativos. É nesse contexto que emerge o episódio que sintetiza o clímax, da sem-vergonhice descarada, dessa engrenagem de cúmplices: o choro do decano do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, ao cumprimentar seu colega Ministro Alexandre de Moraes.
Não é um choro qualquer, mas um gesto público, em cadeia nacional, carregado de simbolismo, que pretende reafirmar valores de um membro da corte, que já não se sustentam com a mesma consistência de herói togado, diante de desmascaramento público de negociatas milionárias por decisões compradas.
Ao exaltar Alexandre de Moraes, o discurso tenta reconstruir uma narrativa de integridade. Mas o efeito produzido é outro. A bizarrice vai ao extremo com soluços de um filme de classe C. O contraste entre a exaltação e as tensões que cercam o ambiente judicial cria uma fissura visível entre o que se diz e o que se percebe.
Será que é irreal é FAKE NEWS, o que se tem revelado?
Enquanto Alexandre de Moraes conduzia a investigação da já anunciada sentença do golpe, avançava também a condenação de um cidadão de 70 anos que havia doado 500 reais para o aluguel de um ônibus, veículo que transportaria pretensos golpistas, ainda que, segundo o próprio enredo, sem que ele soubesse a finalidade da contribuição.
Não há prova de que tivesse conhecimento de planejamento de badernas ou de qualquer plano de golpe, desses que, no imaginário popular, mais se aproximam de um improviso de “danças de jericos” na Esplanada dos Ministérios do que de uma operação articulada.
No mesmo compasso, o Ministro, elevado à condição de “Senhor e Pai da atual democracia brasileira”, pelo decano do STF, atuava para viabilizar um contrato de 129 milhões reais, com o Sr. Daniel Bueno Vorcaro, banqueiro e dândi, proprietário do Banco Master, que brindou ministros com MIMOS, em homenagens seguidas de festas milionárias, destinado ao escritório de advocacia de sua esposa e filhos.
À época, já circulavam rumores sobre compra de influência envolvendo o banqueiro e a classe politica, e sócio oculto de seu colega de STF, além de sinais de instabilidade financeira que colocavam o banco em rota de bancarrota. Coincidência ou sintonia fina, a narrativa institucional seguia firme, enquanto os bastidores pareciam escrever um roteiro paralelo.
E é justamente nessa fissura que a ironia encontra seu lugar. O choro, que poderia ser interpretado como humano, passa a soar como recurso retórico. Um elemento de dramatização. Um esforço de convencimento em um cenário onde a confiança já foi corroída por episódios recentes amplamente discutidos, e sem credito na sociedade brasileira, mais de 70% de rejeição pelas pesquisas.
A cena se torna ainda mais emblemática quando confrontada com relatos de relações com instituições financeiras, passeios em aviões de particulares, contratos indiretos, vendas de decisões judiciais e movimentações financeiras que levantam questionamentos. O magistrado, que deveria representar imparcialidade, passa a ser observado sob a lente da suspeita, não por um fato isolado, mas por um conjunto de percepções acumuladas.
O contraste se intensifica. De um lado, cidadãos comuns sendo penalizados com rigor extremo por atos de menor impacto. De outro, figuras de alto escalão da justiça transitando em zonas cinzentas, vendendo absolvições e anulando processos onde a interpretação da lei parece mais flexível do que deveria ser, para os clientes que divididos entre escritórios de advocacias.
Como se constroem fortunas em tão curto espaço de tempo dentro de funções públicas? Como se sustentam relações que tangenciam interesses privados sem comprometer a função institucional? As perguntas não são novas, o que muda é a frequência com que elas retornam. Como um Ministro do STF em 20 anos amealha milhões de reais para ser sócio de um resort?
O sistema jurídico, que deveria ser o guardião da ordem, passa a ser percebido como parte do próprio jogo de poder. Votos monocráticos, decisões isoladas e ausência de mecanismos claros de fiscalização alimentam a sensação de arbitrariedade. Basta ver as farras dos precatórios e as anulações de processos.
“A FARSA SUPREMA” deixa de ser um desabafo e passa a funcionar como síntese, do modus operandi. Não de um momento isolado, mas de um processo contínuo de desalinhamento entre poder e responsabilidade. No fundo, o que se evidencia é a erosão da confiança. Quando as instituições deixam de representar o interesse público, o tecido social se fragiliza.
A descrença não surge por acaso, ela é construída, repetida, sedimentada.
E assim seguimos, entre lágrimas institucionais e decisões questionáveis, tentando compreender que tipo de justiça está sendo construída. Uma justiça que, em vez de equilibrar, parece inclinar a balança conforme as conveniências do momento.
No final, resta a pergunta que ecoa, não como retórica, mas como necessidade: que moral sustenta esse sistema para um juiz imoral condenar um cidadão?
ESSE CIDADÃO CONDENADO SERÁ QUE TINHA CONHECIMENTO DA ATA DO GOLPE, TAL QUAL ALEXANDRE DE MORAES TINHA CIÊNCIA DA INSOLVÊNCIA DO BANCO MASTER?
E, mais importante, até quando a sociedade aceitará esse arranjo sem exigir uma ruptura efetiva com a lógica estapafúrdia que transforma o poder em privilégio e a justiça em espetáculo?
CADEIA PARA POLÍTICOS, JUÍZES E MINISTROS SUPREMOS CORRUPTOS.
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