PENSAMENTO PLURAL O futebol depois do povo, por Palmarí de Lucena

O texto do escritor Palmarí de Lucena contrapõe a memória do futebol popular vivido em bairros pobres de João Pessoa ao espetáculo globalizado e bilionário do esporte contemporâneo. Entre campos improvisados, camisas desbotadas e bolas baratas “Made in China”, o texto examina a transformação do futebol em produto de luxo, marcado por ostentação, marketing e celebridades digitais. Mais do que nostalgia, propõe uma reflexão crítica sobre o afastamento entre o esporte e o povo que historicamente lhe deu identidade cultural e emoção coletiva. Confira íntegra…

Lembro-me de uma tarde na Vila dos Motoristas, em João Pessoa. O calor fazia o asfalto tremer, e os ônibus velhos passavam deixando no ar cheiro de óleo queimado e poeira quente. Havia crianças jogando bola num terreno irregular cercado de vegetação bruta, onde jurubeba e urtiga cresciam no abandono da terra, entre entulhos, latas enferrujadas e restos de concreto rachado. Duas traves improvisadas com chinelos. A bola parcialmente murcha. Uma delas vestia a camisa desbotada de uma equipe local; mal se percebia o nome do jogador impresso artesanalmente nas costas, dissolvido pelo tempo, pelo sol e pelo sabão barato.

Jogavam descalças.

Na periferia do campo improvisado, um menino magro chutava sozinho uma bola quase sem ar contra um muro coberto por propaganda política apagada pela chuva. Cada vez que a bola voltava, ele a dominava no peito com uma elegância inexplicável, como se obedecesse a uma memória ancestral do corpo brasileiro. Sorria depois de dribles inúteis contra o vazio. Havia naquela alegria alguma coisa do velho futebol nacional — a beleza sem finalidade prática, o improviso como forma de sobrevivência.

O jogo parecia não ter começo nem fim. Um menino narrava os lances em voz alta como se estivesse numa final de Copa do Mundo. Outro imitava um locutor de rádio. Ao redor, mães observavam das portas, ventiladores giravam lentamente atrás das janelas e um rádio distante tocava forró.

Ali, o futebol ainda era uma língua popular — rude, barulhenta, improvisada e profundamente brasileira.

Hoje, porém, o futebol fala outro idioma.

Cruza continentes em jatinhos particulares, hospeda-se em hotéis onde os corredores cheiram a madeira polida e perfume importado, surge envolto por campanhas de luxo e contratos publicitários que transformaram jogadores em entidades inalcançáveis. Já não entram apenas em campo; entram em cena.

Em Doha, Miami ou Dubai, os novos protagonistas do esporte desembarcam cercados por seguranças, estilistas, cinegrafistas e influenciadoras digitais cuja presença parece tão estratégica quanto a escalação do time. Os romances tornaram-se extensões da publicidade. As férias, episódios de um catálogo visual permanente. Há jogadores que exibem relógios cujo valor compraria ruas inteiras de bairros populares.

Não parecem homens comuns. Parecem marcas cuidadosamente iluminadas.

O futebol descobriu a estética do excesso.

Os antigos craques brasileiros carregavam joelhos destruídos, vozes roucas e certa melancolia suburbana. Vinham de lugares onde a bola era fuga e sobrevivência. Hoje, muitos surgem moldados desde cedo para o mercado global: corpos monitorados, entrevistas treinadas, gestos calculados para gerar engajamento. Seus rostos pertencem menos aos clubes do que aos patrocinadores.

As arquibancadas acompanharam essa transformação. Desaparecem lentamente os vendedores ambulantes, os radinhos de pilha, os homens que choravam abraçados a desconhecidos. Em seu lugar surgem arenas esterilizadas, consumidores silenciosos e turistas esportivos que registram o jogo como quem visita um monumento histórico.

Filmam mais do que gritam.

Talvez toda cultura popular, quando globalizada o suficiente, comece a afastar-se da própria origem. O samba virou espetáculo internacional. O carnaval tornou-se indústria turística. O futebol converteu-se em passarela planetária para milionários tatuados e celebridades digitais de beleza irreal.

Ainda assim, alguma coisa insiste em sobreviver.

Uma criança pobre ainda improvisa com uma bola ordinária Made in China num campo de barro qualquer de João Pessoa, Olinda ou Fortaleza. Ainda há alguém narrando gols imaginários diante de um muro rachado. Ainda existe um menino usando uma camisa desbotada de um clube esquecido, como se carregasse nas costas uma memória frágil do futebol brasileiro.

Mas talvez a questão já não seja apenas preservar a nostalgia desse futebol perdido.

Talvez seja preciso perguntar se o esporte mais popular do planeta continua realmente pertencendo ao povo que lhe deu significado. Porque um futebol que transforma torcedores em consumidores, estádios em vitrines corporativas e jogadores em ativos globais talvez continue sendo um grande negócio — mas começa lentamente a deixar de ser uma experiência humana compartilhada.

Nenhum espetáculo, por mais bilionário que se torne, consegue sobreviver indefinidamente depois de romper seus vínculos com a rua. Porque o futebol nasceu muito antes das marcas, dos camarotes e dos algoritmos. Nasceu no improviso, na precariedade e na imaginação coletiva de gente comum. E talvez seja justamente ali — no barro, no grito, na camisa desbotada e na bola barata — que ainda resista a última verdade do jogo.

 

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