
O comentário do escritor Palmarí de Lucena analisa como Xi Jinping recorre ao historiador grego Tucídides para enquadrar a rivalidade entre China e Estados Unidos como uma disputa clássica entre potência ascendente e potência dominante. A metáfora da “Armadilha de Tucídides” revela não apenas o temor americano diante da ascensão chinesa, mas também a estratégia de Pequim de apresentar seu crescimento como inevitável — e a reação de Washington como o verdadeiro risco de conflito global. Confira íntegra...
No grande salão de Pequim, Xi Jinping evocou um morto de 2.400 anos. Não foi Marx. Não foi Confúcio. Foi Tucídides.
O gesto não foi acidental. Quando o líder chinês menciona o historiador ateniense diante de presidentes americanos, diplomatas europeus ou fóruns internacionais, ele não está demonstrando erudição clássica. Está enquadrando o século XXI dentro de uma tragédia antiga: a ideia de que a ascensão de uma potência inevitavelmente desperta o medo da potência dominante — e que esse medo conduz à guerra.
Tucídides escreveu que o crescimento de Atenas e o temor que isso provocou em Esparta tornaram a Guerra do Peloponeso inevitável. A frase, enterrada por séculos nos estudos clássicos, foi transformada em teoria estratégica contemporânea pelo cientista político Graham Allison sob o nome de “Armadilha de Tucídides”. Desde então, tornou-se um dos conceitos favoritos de analistas americanos tentando explicar a rivalidade entre China e Estados Unidos.
Mas quando xi usa a metáfora, algo mais sofisticado acontece.
A China contemporânea não gosta de se apresentar como potência revisionista. Pequim prefere outra narrativa: a de uma civilização antiga retornando ao lugar que sempre lhe pertenceu. Nesse enquadramento, o problema não é a ascensão chinesa em si, mas a incapacidade americana de aceitá-la sem paranoia estratégica. Ao invocar Tucídides, Xi desloca o centro moral da discussão. A pergunta deixa de ser “o que a China fará com seu poder?” e passa a ser “os Estados Unidos conseguirão evitar o medo que leva impérios ao desastre?”
É uma operação retórica elegante. A metáfora sugere inevitabilidade histórica ao mesmo tempo que oferece uma saída diplomática. Xi alerta para o perigo e, simultaneamente, posiciona a China como o ator racional tentando evitá-lo. A mensagem implícita para Washington é clara: contenção militar, bloqueios tecnológicos e alianças de cerco podem acabar produzindo exatamente o conflito que pretendem impedir.
Há também uma ironia profunda nessa escolha intelectual. Tucídides descreveu um mundo de cidades-estados presas a ciclos brutais de honra, medo e interesse. O sistema internacional contemporâneo é infinitamente mais complexo: economias interdependentes, cadeias globais de suprimento, armas nucleares, mercados financeiros integrados e redes digitais tornam a guerra entre superpotências algo simultaneamente mais improvável e mais catastrófico do que qualquer conflito da Antiguidade.
Ainda assim, líderes recorrem a metáforas antigas porque elas organizam o caos do presente. Analogias históricas funcionam como mapas psicológicos. Em Washington, a ideia da Armadilha de Tucídides alimenta o temor de declínio americano. Em Pequim, ela reforça a percepção de que os EUA reagirão de forma hostil ao crescimento chinês independentemente das intenções de Xi. Em ambos os lados, a metáfora corre o risco de se transformar em profecia autorrealizável.
Talvez esse seja o aspecto mais perigoso da referência de Xi Jinping: não a possibilidade de que Tucídides esteja correto, mas a possibilidade de que os líderes mundiais passem a agir como se ele estivesse.
A história raramente se repete de forma literal. Mas as civilizações frequentemente repetem suas narrativas favoritas.
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