
Em seu comentário, o cineasta Durval Leal Filho trata dos medos, temores e preconceitos que acompanham o indivíduo ao longo de sua vida, e se detém no receio que algumas pessoas têm em relação às práticas de religiões de origem africana. “A religião deveria ser tradução do medo. Traduzir o trovão em Zeus, a encruzilhada em Exu, o rio em Oxum. Mas quando a sociedade nega o estudo, a tradução falha e o símbolo vira rótulo”, pontua. Confira íntebra…
Desde menino fui medroso. Cresci cercado de medos. Medo de ficar sozinho. Medo de me sentir fechado dentro de uma caixa de fósforos, quando tinha febre. O medo foi construção para a resistência.
Foi tentativa de compreender que, sozinho, ninguém faz sombra, a não ser a sua. E a sombra talvez seja o primeiro medo de todos. Ela revela algo que a luz mostrou, mas que a razão ainda não entendeu.
Lentamente superei muitos desses temores. Alguns permanecem. O inexplicável humano continua me surpreendendo. Talvez porque o medo nunca desapareça completamente. Ele apenas muda de forma. O que antes era pavor infantil transforma-se em pergunta. E toda pergunta nasce de algo que ainda não compreendemos.
Caminhando pelos medos, lembro da meninada de bicicleta no Miramar. Miramar é um bairro de João Pessoa-PB, fica no alto da falésia do Cabo Branco, que se debruça sobre no extremo oriental das Américas, na latitude 07º e longitude 34º.
Na década de 1970 era cercado de sítios de mangueiras e caminhos para moleques andarem sem destino de bicicleta ou por aí catando frutas, como pequenos coletores juvenil. Em meio às brincadeiras, às aventuras, nos deparávamos com despachos, trabalhos e macumba.
Isso nos fazia parar. Continuar era atravessar ritual exposto, sem toalha, sem proteção. O medo era único: dali ninguém passava.
Às vezes, havia uma galinha preta, sangue no pires, velas pretas e vermelhas, ramos de arruda, cachaça. Tudo espalhado. Fita vermelha, retrato rasgado. Cada despacho tinha desenho diferente, função própria e endereço sem rua.
Olhávamos e seguíamos o resto do caminho com a sensação de ter invadido segredos. Continuar significava atravessar um território que não compreendíamos. Ninguém explicava o que era. Ninguém traduzia aqueles símbolos. Restava apenas a imaginação. E a imaginação costuma preencher o desconhecido com ameaças.
À noite, o medo ganhava som. Tambores ecoavam de pontos do Miramar onde funcionavam terreiros e casas de Umbanda e Candomblé, que entoavam seus pontos ao som dos tambores. Os ritmos atravessavam a escuridão e chegavam às casas. O som parecia anunciar que existia outra linguagem, outra forma de interpretar o mundo. Para muitos era celebração. Para outros, mistério. Para nós, meninos, era apenas mais um motivo para alimentar fantasias.
Um dia, a convite de uma amiga, viajei pelos terreiros da Paraíba. Começamos em João Pessoa, nas casas de santos, no Candomblé e na Umbanda. Fui conhecer territórios que, para mim, eram medo puro de infância e de adolescência. Era o medo de parar na encruzilhada. Encruzilhada é dádiva oferecida a orixás, santos, guerreiros, pretos-velhos e exus.
Ah, como tive medo de Exu. Quanto tempo levei para querer saber quem ele era. Até nos estudos de religião eu pulava essa parte.
Foi nesse processo que encontrei Exu. Durante muito tempo associei seu nome às interpretações populares construídas pelo preconceito. Descobri, porém, uma figura muito diferente daquela criada pela ignorância.
Anos depois, a mesma amiga me disse algo que virou chave: os orixás, na linguagem iorubá, dialogam com os elementais. O pensamento aproxima a mitologia grega a África. Exu é Hermes. É Pã. Na tradição iorubá, Exu está ligado à comunicação, ao movimento e aos caminhos. É a entidade da comunicação e dos caminhos. Exu abre e fecha a rua. Exu não é monstro. É a entidade elemental de uma nação iorubá.
Trata-se de uma religião ancestral, animista, que nasceu do medo de povos que lutavam, que olhavam o futuro com receio e buscavam no céu uma aliança. Faziam oferendas: despachos,
trabalhos e macumba. Cada oferenda possuía característica, cada uma com especificidade.
Quase como missa de sétimo dia, quase uma missa de ação de graças para abrir empresas. Quase promessa forte, tudo uma questão de fé. Tudo um jogo para espalhar medo, para jogar o medo dentro de um universo de sombras.
As sombras me fizeram crescer. Comecei a entender que ninguém gosta de pisar em cima de sombra. Nem das próprias. Medo passou a aliviar quando percebi: trabalho, despacho e macumba são oferendas, são sentidos dados ao medo. O medo maior é não se ver a si mesmo. É ficar se olhando pelos olhos dos outros.
A sociedade aprendeu cedo a usar o medo e religião para moldar comportamentos. Do elemental primitivo ao templo organizado, o mecanismo é o mesmo: nomear o que assusta, dar rito ao que não se controla, transformar dúvida em regra.
Quando faltam educação e cultura, o rito vira muro, preconceito e termina em conflito.
O medo do despacho na encruzilhada não nasceu do orixá. Nasceu da ignorância. Criança não distingue símbolo de ameaça. Vê galinha, vela, sangue e entende perigo. Sem escola, sem mediação cultural, a religião do outro vira feitiçaria. Vira sujeira
na rua. Vira motivo para atravessar a calçada. Assim se implanta o primeiro preconceito: o medo do diferente.
A religião deveria ser tradução do medo. Traduzir o trovão em Zeus, a encruzilhada em Exu, o rio em Oxum. Mas quando a sociedade nega o estudo, a tradução falha e o símbolo vira rótulo.
“Macumba é coisa do diabo”. “Candomblé é atraso”. “Espiritualidade africana é crime”.
Sem educação, a fé do outro assusta mais do que a própria fé. O fariseu teme o anjo. O saduceu só crê no agora. Ambos disputam sentidos, mas sem cultura o debate vira guerra. O conflito nasce porque ninguém aprendeu a escutar mito como linguagem, e não como ameaça.
Os medos da infância podem ser instrumentos de aprendizagem. O medo da sombra ensina sobre a luz. O medo da febre ensina sobre o corpo. O medo da solidão ensina sobre os vínculos humanos. Quando a sociedade transforma todo medo em pecado ou ameaça, perde a oportunidade de educar.
O tambor do Miramar era uma aula sem professor. Era ritmo, oralidade e memória. Mas, sem instrumentos para compreender aquilo, muita gente enxergava apenas barulho. O que não é compreendido facilmente transforma-se em incômodo e frequentemente produz rejeição.
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