PENSAMENTO PLURAL O país que continua chegando, por Palmarí de Lucena

O Brasil convive com uma singularidade histórica: a permanente expectativa de futuro, aponta o escritor Palmarí de Lucena. Entre obras inacabadas, promessas recorrentes e sucessivas ondas de modernização, o país acumula tempos distintos no mesmo presente. Enquanto novas tecnologias redefinem a economia e a vida cotidiana, velhos desafios permanecem. Mais do que econômica, a desigualdade brasileira é também temporal. O resultado é uma nação em constante transformação, mas marcada pela sensação persistente de inacabamento, como se estivesse sempre a caminho de realizar seu próprio projeto de país. Confira íntegra…

O Brasil talvez seja um dos poucos lugares onde o futuro consegue envelhecer sem nunca ter chegado completamente.

Basta percorrer o país com alguma atenção. Há promessas espalhadas pela paisagem como vestígios arqueológicos. Algumas sobrevivem em viadutos interrompidos, conjuntos habitacionais inacabados ou distritos industriais que já conheceram dias melhores. Outras permanecem escondidas em discursos oficiais, sempre reapresentadas com nova embalagem e a mesma convicção. O país produz expectativas com uma velocidade admirável; realizações, nem sempre na mesma proporção.

Essa sensação me acompanhou recentemente ao reencontrar uma antiga narrativa de viajantes cruzando o interior brasileiro. Não era a história em si que chamava atenção, mas a familiaridade do cenário. A estrada surgia como uma promessa permanente, conduzindo não necessariamente a um destino, mas à expectativa de que algo decisivo estivesse logo adiante.

Poucas ideias moldaram tanto a imaginação nacional quanto a crença na chegada iminente do futuro. Em diferentes épocas, ele assumiu formas distintas. Já esteve nas ferrovias, nas rodovias, nas hidrelétricas, nas capitais planejadas, nos computadores, na internet. Hoje habita os algoritmos, os centros de dados e as promessas da inteligência artificial. Mudam os símbolos. Permanece a convicção de que a próxima transformação tecnológica realizará aquilo que as anteriores deixaram inacabado.

Talvez a característica mais singular do Brasil seja justamente essa relação com o tempo.

Em muitas sociedades, as épocas parecem suceder-se. Aqui, elas se acumulam. O novo raramente substitui o antigo; ambos passam a coexistir. Em poucos quilômetros, é possível atravessar décadas. Há lugares onde o futuro desembarcou cedo demais e outros onde o passado permanece exercendo silenciosamente sua autoridade. Entre um extremo e outro, milhões de brasileiros aprendem a habitar realidades simultâneas.

É comum ouvirmos que o problema central do país é a desigualdade. A observação está correta, mas talvez incompleta. A desigualdade brasileira não é apenas econômica. Ela é temporal. Diferentes experiências históricas compartilham o mesmo presente. Enquanto alguns discutem os limites éticos das novas tecnologias, outros ainda enfrentam desafios que seus avós reconheceriam sem dificuldade. O extraordinário não é a existência dessa distância. É a naturalidade com que ela se incorporou à paisagem.

Talvez por isso o discurso da modernização exerça fascínio tão duradouro. Ele oferece uma narrativa simples para uma realidade complexa. Sugere que a próxima inovação será capaz de eliminar contradições que, na verdade, pertencem à própria formação do país. A história brasileira, contudo, costuma ser menos linear. Cada avanço produz ganhos reais, mas raramente dissolve os impasses anteriores. Em vez de substituir camadas antigas, acrescenta novas.

O resultado é um país permanentemente em construção e permanentemente inconcluso.

Ao longo do tempo, aprendemos a transformar essa condição em identidade. Falamos do Brasil como projeto, como promessa, como potência, como horizonte. Quase sempre no futuro do presente. Raramente no presente do presente. Como se a plenitude nacional estivesse sempre reservada para a próxima década, para o próximo ciclo econômico ou para a próxima revolução tecnológica.

Talvez seja por isso que a imagem da estrada continue ocupando um lugar tão especial em nosso imaginário. Não porque simbolize deslocamento, mas porque simboliza expectativa. A estrada sugere que existe algo depois da curva. Algo que justifica continuar avançando.

E assim seguimos.

Mudam os governos, as tecnologias, os slogans do progresso e os objetos de fascínio coletivo. O que permanece é essa curiosa sensação de inacabamento. Como se o Brasil estivesse sempre prestes a acontecer.

Talvez sua maior singularidade resida justamente aí: na capacidade de continuar chegando, mesmo depois de tanto tempo na estrada.

 

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