PENSAMENTO PLURAL Quando o telefone atravessa a linha do campo, por Palmarí de Lucena

A crônica do escritor Palmarí de Lucena reflete sobre a fragilidade da confiança no futebol quando decisões esportivas parecem ser influenciadas por interesses políticos. A partir da revisão da punição de Folarin Balogun pela FIFA, após a intervenção do presidente Donald Trump junto a Gianni Infantino, o texto questiona até que ponto o poder pode atravessar as quatro linhas. “Mais do que um episódio disciplinar, a narrativa discute a importância da igualdade das regras para preservar a credibilidade e a essência do esporte”, alerta. Confira íntegra...

O futebol sempre acreditou numa pequena utopia: a de que, entre as quatro linhas, todos os homens se tornam iguais.

O craque milionário e o menino que saiu do subúrbio. O país rico e a nação esquecida. O favorito e o azarão. Todos submetidos ao mesmo relógio, ao mesmo apito e ao mesmo regulamento. É essa ilusão democrática que transforma uma bola em patrimônio da humanidade.

Mas, de vez em quando, a realidade invade o gramado sem precisar vestir chuteiras.

Bastou um cartão vermelho para que o jogo deixasse de ser apenas futebol. A expulsão de Folarin Balogun parecia um daqueles episódios que o esporte resolve por conta própria: um lance duro, a interpretação do árbitro, a punição prevista na regra e a inevitável suspensão automática. O roteiro parecia encerrado.

Então o telefone tocou.

Não era o chamado do técnico para o banco de reservas. Nem a voz aflita de um dirigente qualquer. Era a política batendo à porta do futebol.

Donald Trump conversou com Gianni Infantino. Pouco depois, a FIFA encontrou um caminho jurídico para suspender a punição do atacante. Balogun voltou ao jogo. O regulamento, antes rígido como uma trave de aço, tornou-se flexível como uma rede ao vento.

É evidente que toda decisão disciplinar pode ser revista. O erro humano também veste uniforme. Mas o futebol vive menos das decisões do que da confiança que desperta. Quando a exceção parece escolher seus personagens, nasce uma dúvida que nenhuma coletiva de imprensa consegue dissipar.

Antes desse episódio, Infantino havia entregado a Trump um Prêmio da Paz da FIFA, homenagem que despertou surpresa entre observadores do esporte internacional. O gesto foi interpretado como um símbolo da proximidade entre o dirigente da entidade e o presidente de um dos países-sede da Copa do Mundo. Depois veio o pedido de revisão da punição. Depois veio a mudança da decisão.

Talvez tudo tenha acontecido dentro da mais absoluta legalidade.

Talvez.

Mas o futebol também vive de símbolos. E, muitas vezes, os símbolos pesam mais do que os documentos.

A Bélgica protestou. A UEFA manifestou espanto. Torcedores dividiram-se entre a defesa do talento de Balogun e a desconfiança sobre os bastidores. Enquanto isso, a bola permanecia imóvel, aguardando apenas o momento de voltar a rolar.

Há uma beleza antiga no futebol. Ela não mora apenas no gol improvável nem na defesa impossível. Mora, sobretudo, na crença de que o campo é um território onde o poder perde força e o mérito ganha voz. Durante noventa minutos, imaginamos que presidentes, reis, bilionários e operários não conseguem alterar a trajetória de uma bola.

É essa crença que sustenta o encanto do jogo.

Quando ela vacila, perde-se mais do que uma discussão sobre um cartão vermelho. Perde-se um pedaço da inocência do esporte.

Balogun continuará correndo. Atacantes continuarão marcando gols. Árbitros continuarão errando. As arquibancadas continuarão lotadas e o futebol seguirá sobrevivendo, como sempre sobreviveu às suas próprias contradições.

Mas algumas partidas deixam marcas que não aparecem no placar.

Há jogos em que a dúvida marca primeiro.

E quando o telefone atravessa a linha do campo, o futebol vence apenas se a confiança do torcedor permanecer em jogo. Porque nenhuma tecnologia, nenhum regulamento e nenhum poder são capazes de restaurar aquilo que a suspeita insiste em levar: a certeza de que, diante da bola, todos são realmente iguais.

 

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