
A política paraibana é marcada por alianças, rompimentos e recomposições que parecem contraditórias, mas obedecem à lógica eleitoral, aponta o escritor Palmarí de Lucena. Em 2026, diferentes disputas permitem combinações entre adversários, enquanto antigas alianças podem se desfazer diante da sucessão. O texto mostra que nem todo rompimento é traição nem toda aproximação significa reconciliação: muitas vezes são estratégias circunstanciais. No fundo, a política funciona como uma sucessão de rearranjos, em que interesses mudam, alianças se renovam e cada eleição produz uma nova fotografia. Confira íntegra…
Há estados em que a política parece uma ciência. Na Paraíba, às vezes ela se aproxima mais da dramaturgia — com a vantagem de que os personagens podem trocar de papel sem precisar trocar de elenco.
Uma aliança começa com abraços, fotografias e declarações sobre o futuro. Depois vêm as diferenças, as “divergências de percurso”, os “novos projetos” e, finalmente, o rompimento. Algum tempo depois, os antigos adversários podem voltar a conversar. E quando retornam ao mesmo palanque, ninguém parece exatamente obrigado a explicar o passado. Basta dizer que “a política é dinâmica”.
É uma frase extraordinariamente versátil. Pode significar quase tudo.
A eleição de 2026 oferece mais uma demonstração dessa peculiar capacidade de recomposição da política paraibana. Não porque haja algo necessariamente extraordinário em alianças eleitorais — elas fazem parte da democracia —, mas porque a política estadual frequentemente produz combinações que, observadas de fora, parecem improváveis e, observadas de perto, revelam uma lógica bastante racional.
O segredo está em separar os compartimentos.
Uma pessoa pode ser aliada para determinado cargo e adversária para outro. Um partido pode manter neutralidade nacional e, ao mesmo tempo, adotar uma posição estadual. Um candidato pode apoiar um nome para presidente e outro para o Senado. E duas pessoas que discordam em quase tudo podem descobrir que concordam suficientemente em uma coisa: precisam uma da outra naquela eleição.
Em agosto de 2026, por exemplo, Hugo Motta declarou apoio à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, depois de o Republicanos adotar posição de neutralidade na disputa presidencial e liberar seus diretórios estaduais. Na Paraíba, Motta articula politicamente em torno da candidatura de seu pai, Nabor Wanderley, ao Senado, dentro de uma composição que também envolve o grupo do ex-governador João Azevêdo.
Não é necessário chamar isso de contradição. Pode-se simplesmente chamar de política.
E talvez seja esse o primeiro erro de quem observa as eleições apenas pela lente da coerência ideológica: imaginar que todos os atores estão disputando a mesma eleição.
Não estão.
Há uma eleição presidencial, uma eleição para governador, duas cadeiras para o Senado e dezenas de disputas proporcionais acontecendo simultaneamente. Cada uma delas produz incentivos diferentes. O que parece incoerente numa escala pode fazer sentido em outra.
É como assistir a quatro partidas no mesmo estádio e concluir que os jogadores estão trocando de time porque, em determinado momento, suas camisas parecem semelhantes.
Na verdade, são campeonatos diferentes.
Essa característica ajuda a compreender também os grandes rompimentos da história recente. Ricardo Coutinho e Cássio Cunha Lima, por exemplo, protagonizaram uma aproximação eleitoral em 2010 que uniu grupos anteriormente adversários. A aliança cumpriu sua função eleitoral e, posteriormente, os caminhos políticos voltaram a se separar.
O episódio permanece interessante menos como exemplo de “traição” — palavra que pressupõe uma verdade moral que o analista externo dificilmente pode conhecer — do que como demonstração daquilo que a política frequentemente faz: transforma adversários em aliados quando existe um objetivo comum e volta a separá-los quando esse objetivo deixa de ser suficiente para mantê-los juntos.
Não há romance nisso. Há estratégia.
Mas a política gosta de apresentar estratégia com a linguagem do afeto.
“Companheiro.”
“Amigo.”
“Aliado histórico.”
São palavras bonitas. Também são palavras perigosamente temporárias.
Os vices conhecem especialmente bem essa instabilidade. O vice ocupa uma posição quase filosófica: está perto do poder, mas não é o poder; participa da vitória, mas pode ter ambições próprias; ajuda a construir uma sucessão e, dependendo das circunstâncias, pode descobrir que a sucessão é justamente o momento em que a amizade política começa a ser testada.
A história recente da Paraíba oferece exemplos suficientes para transformar o vice em uma espécie de personagem permanente do teatro político estadual.
E há uma razão estrutural para isso. O problema não é necessariamente a personalidade de ninguém. É a matemática.
Enquanto a eleição está distante, muitos projetos conseguem conviver. Quando chega a hora de decidir quem será o candidato, entretanto, a palavra “unidade” passa por uma pequena cirurgia semântica: todos continuam unidos, desde que seja o seu nome na cabeça da chapa.
É aí que antigas alianças podem estremecer.
E é aí também que surgem os chamados odd couples da política — aqueles pares que parecem improváveis até que alguém apresente a calculadora.
Na Paraíba, a calculadora eleitoral costuma ser uma excelente terapeuta de relações difíceis.
Ela não pergunta se os parceiros se gostam.
Pergunta quantos votos cada um pode acrescentar.
Essa lógica pode ser observada na disputa pelo Senado em 2026. Há duas vagas em jogo, o que produz uma circunstância peculiar: não é preciso que todos concordem sobre um único candidato. É possível construir combinações.
Um grupo pode desejar João Azevêdo para uma vaga, outro nome para a segunda, enquanto diferentes lideranças preservam seus próprios interesses eleitorais. Nessa configuração, alianças aparentemente contraditórias deixam de ser paradoxais e passam a ser funcionais.
A pergunta não é mais “quem é amigo de quem?”.
É: quem pode caber na mesma equação?
A política paraibana, aliás, tem longa experiência com esse tipo de aritmética.
Antigos adversários podem se aproximar. Antigos aliados podem se afastar. Grupos familiares podem reencontrar-se. Lideranças regionais podem mudar de posição. Partidos podem adotar uma orientação nacional e permitir soluções estaduais diferentes.
Nada disso, por si só, constitui irregularidade ou incoerência. São movimentos próprios da disputa democrática.
O problema surge apenas quando nós, espectadores, tentamos transformar essas movimentações em novelas morais.
A palavra “traição” é sedutora porque simplifica.
Ela cria um herói, um vilão e uma vítima.
A política real costuma ser mais tediosa e, por isso mesmo, mais interessante: existem interesses legítimos, cálculos eleitorais, ambições pessoais, compromissos partidários, relações históricas, divergências programáticas e circunstâncias que mudam.
Nem todo rompimento é traição.
Nem toda aproximação é reconciliação.
Nem todo abraço significa amizade.
Às vezes significa apenas que há fotógrafos por perto.
Essa cautela é especialmente importante em 2026, quando a campanha oficial entra em uma nova fase. O Tribunal Superior Eleitoral estabelece 16 de agosto como início da propaganda eleitoral, inclusive na internet. A partir daí, a política deixará progressivamente o ambiente das articulações e ganhará o palco mais explícito dos palanques, programas eleitorais, redes sociais, debates e pedidos de voto.
Será interessante observar como as alianças serão narradas.
Porque toda aliança precisa de uma história.
Os políticos não dizem apenas com quem estão. Explicam por que estão.
E essa explicação é talvez a parte mais literária da política.
O adversário de ontem passa a ser descrito como “liderança importante”.
A divergência de anteontem vira “superação de diferenças”.
O rompimento transforma-se em “amadurecimento”.
A antiga crítica ganha o nome de “debate democrático”.
E o abraço que encerra tudo recebe, invariavelmente, a legenda “juntos pelo futuro”.
É possível que todos estejam sendo sinceros.
Também é possível que estejam apenas fazendo campanha.
As duas coisas não são necessariamente incompatíveis.
Talvez essa seja a melhor maneira de olhar para a eleição paraibana de 2026: não como uma coleção de traições, mas como uma sucessão de rearranjos. Não como um desfile de incoerências, mas como a permanente negociação entre projetos que, em alguns momentos, coincidem e, em outros, deixam de coincidir.
A política não precisa que seus protagonistas sejam amigos.
Precisa que consigam trabalhar juntos tempo suficiente para vencer uma eleição.
Depois disso, começa outra eleição.
E, com ela, outra fotografia.
Na Paraíba, portanto, talvez não exista exatamente uma arte de trair.
Existe algo mais sofisticado: a arte de permanecer politicamente disponível para o próximo capítulo.
O que parece rompimento pode ser apenas uma bifurcação.
O que parece reconciliação pode ser uma ponte.
O que parece casamento pode ser uma coligação com prazo eleitoral.
E o que hoje parece impossível pode amanhã aparecer num palanque, sorrindo para as câmeras.
Não há necessidade de atribuir a ninguém intenções que não tenham sido publicamente declaradas. Basta observar os fatos, as alianças e seus movimentos.
Afinal, em política, a fotografia é pública.
A legenda é negociável.
E o próximo capítulo ainda está sendo escrito.
Os textos publicados nesta seção “Pensamento Plural” são de responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Blog.