
A crônica do escritor Palmarí de Lucena satiriza a política partidária como um sistema de mudanças constantes, no qual ideologias, alianças e discursos se adaptam à conjuntura. Com humor, critica o vocabulário usado para transformar oportunismo em pragmatismo, contradição em complexidade e troca de posição em responsabilidade. O texto questiona a distância entre discurso e prática, sem condenar toda mudança política. Ao final, compara a política a um aeroporto, onde partidos mudam de portão, enquanto o eleitor aguarda o destino prometido. Confira íntegra...
Existe um equívoco persistente no modo como costumamos falar de política. Imaginamos que os partidos existam para abrigar ideias, que as ideologias organizem os partidos e que os políticos, movidos por convicções, escolham o lugar onde pretendem defendê-las. É uma imagem bonita, quase doméstica, como acreditar que uma casa foi construída apenas para proteger a família e não também para valorizar o terreno. Na prática, a política costuma ser uma arquitetura bem mais flexível.
Partidos mudam de nome, mudam de aliados, mudam de posição e, às vezes, mudam até de discurso sem que ninguém considere necessário chamar um engenheiro. O que permanece é a necessidade de ocupar espaço, formar maiorias e sobreviver à próxima eleição. A legenda, nesse ambiente, deixa de parecer uma casa de ideias e passa a funcionar como um endereço provisório, desses em que o morador mantém as caixas prontas porque nunca se sabe quando será necessário mudar novamente.
É por isso que a troca de partido raramente é apresentada como troca de convicção. Ninguém costuma anunciar que deixou uma legenda porque percebeu que seus interesses estavam melhor acomodados em outra. A explicação vem devidamente engomada: houve uma mudança de conjuntura, uma readequação estratégica, uma nova etapa do projeto político ou uma necessidade de ampliar o diálogo. Se a mudança for suficientemente brusca, pode-se sempre recorrer à expressão “recomposição de forças”, que tem a vantagem de parecer uma decisão histórica sem revelar exatamente quem se recompôs com quem.
A língua política possui uma admirável capacidade de transformar uma mudança de rumo em demonstração de maturidade. Quem muda de opinião pode estar errado; quem muda de posição porque a conjuntura mudou está apenas sendo responsável. Assim, a coerência pode ser preservada sem que seja necessário preservar as mesmas ideias. O político continua coerente porque continua dizendo que é coerente, enquanto o passado, que deveria funcionar como compromisso, transforma-se em arquivo.
Há também uma palavra especialmente generosa: pragmatismo. O pragmatismo é o primo bem-vestido do oportunismo. O oportunista pergunta o que pode ganhar; o pragmático pergunta quais são as condições objetivas para alcançar determinado resultado. Em ambos os casos existe uma vantagem, mas o segundo costuma contar com melhores relações públicas.
Não há nada de errado no pragmatismo. Governar exige negociação, alianças, concessões e capacidade de conversar com pessoas que não pensam como nós. Uma democracia formada por interesses diferentes não pode funcionar como uma reunião de condomínio em que todos concordam antes mesmo de começar a discussão. O problema surge quando o pragmatismo deixa de ser ferramenta e passa a ser princípio. Nesse momento, qualquer princípio que atrapalhe uma negociação começa a parecer um luxo.
É aí que o sistema partidário oferece seu espetáculo mais curioso. O eleitor olha para uma legenda e procura uma identidade. O político olha para a mesma legenda e procura uma bancada. O eleitor pergunta em que os dirigentes acreditam; a política profissional pergunta quantos votos eles possuem. As duas perguntas não são necessariamente incompatíveis, mas pertencem a universos diferentes. Na matemática parlamentar, uma bancada numerosa pode valer mais do que uma doutrina impecavelmente redigida.
É nesse ambiente que floresce a política das grandes palavras e dos pequenos compromissos. Fala-se em projeto nacional, governabilidade, responsabilidade institucional, construção política, convergência e diálogo. Todas são expressões respeitáveis. Nenhuma é necessariamente falsa. O problema é que podem servir para descrever praticamente qualquer combinação.
Um acordo entre adversários pode ser chamado de diálogo. Uma mudança de lado pode ser apresentada como responsabilidade. Uma negociação pode ser transformada em governabilidade. Uma aliança improvável pode ser descrita como construção política. Tudo depende da distância entre o acontecimento e o comunicado produzido para explicá-lo.
A vantagem dessas palavras é que permitem que a política continue parecendo política mesmo quando se aproxima perigosamente do balcão de negócios. Não é preciso esconder a negociação; basta elevá-la alguns centímetros acima do chão por meio da linguagem. A velha negociação ganha gravata, um substantivo abstrato e uma entrevista coletiva.
O eleitor também participa dessa comédia, embora geralmente receba o papel de espectador indignado. Reclama das alianças, mas quer estabilidade. Reclama da troca de partidos, mas exige resultados. Reclama das concessões, mas espera que o governo consiga aprovar alguma coisa. Quer princípios e maioria, coerência e governabilidade, pureza e eficiência.
A política, que já tem seus defeitos, precisa ainda resolver o problema de agradar a alguém que deseja simultaneamente coisas que nem sempre cabem no mesmo discurso. Talvez por isso tenha desenvolvido uma solução elegante: separar o discurso da prática. No discurso, todos continuam defendendo princípios. Na prática, os princípios entram em uma sala para conversar com a aritmética. E a aritmética costuma vencer.
Não há nada de particularmente brasileiro nessa tentação. Toda política democrática envolve coalizões, compromissos e mudanças de posição. O que parece especialmente brasileiro é a extraordinária distância entre a solenidade da explicação e a simplicidade do mecanismo. O mecanismo pode ser a necessidade de votos; a explicação será uma ampla convergência em torno dos interesses nacionais. O mecanismo pode ser a necessidade de aliados; a explicação será a ampliação do diálogo institucional. O mecanismo pode ser a sobrevivência política; a explicação será o amadurecimento do projeto.
É uma diferença de vocabulário, mas também pode ser uma diferença de honestidade.
Talvez devêssemos ser menos ingênuos a respeito dos partidos. Eles não são igrejas, embora frequentemente tenham fiéis. Não são famílias, embora alguns sobrenomes pareçam possuir escritura. E não são exatamente clubes de debate filosófico, embora produzam uma quantidade considerável de discursos. São instrumentos de poder. Isso não os torna necessariamente ruins. Um martelo também é um instrumento de poder quando encontra um prego. A questão é saber para que serve o martelo e quem está segurando-o.
O problema surge quando a embalagem ideológica começa a ser tratada como conteúdo. Quando uma legenda pode mudar de posição sem precisar explicar adequadamente a mudança, a identidade partidária passa a ser menos uma promessa e mais uma marca. E marcas podem ser reposicionadas. Uma empresa pode trocar a embalagem, modificar a campanha publicitária e anunciar que entrou em uma nova fase. Na política, o procedimento é praticamente o mesmo, mas recebe nomes mais nobres.
Não se trata de reposicionamento. Trata-se de renovação. Não é mudança. É evolução. Não é recuo. É prudência. Não é contradição. É complexidade.
“Complexidade” talvez seja uma das palavras mais eficientes do vocabulário político porque funciona como um pequeno cofre onde podem ser guardadas duas opiniões incompatíveis. Quando alguém pergunta como foi possível defender ontem uma coisa e hoje outra, basta lembrar que a realidade é complexa. E é. Mas a realidade ser complexa não significa que a explicação precise ser vaga.
No fundo, a questão não é exigir que políticos jamais mudem de opinião. Isso seria pedir uma espécie de fossilização intelectual. Pessoas inteligentes podem rever posições, partidos podem mudar e sociedades podem aprender. Uma pessoa que sustenta exatamente a mesma opinião durante quarenta anos não é necessariamente coerente; talvez apenas esteja intelectualmente de férias.
O que merece desconfiança é outra coisa: a ideia de que toda mudança seja necessariamente amadurecimento e toda adaptação seja necessariamente virtude. Às vezes, mudar é aprender. Às vezes, é simplesmente mudar. Às vezes, uma aliança é uma ponte para uma ideia melhor. Outras vezes, é apenas uma ponte para o outro lado.
A política ficaria mais interessante se pudesse admitir essa diferença sem recorrer imediatamente ao dicionário de eufemismos. Não precisamos de políticos eternamente presos às próprias bandeiras. Precisamos de políticos capazes de explicar por que deixaram uma bandeira e escolheram outra. O problema não está em mudar de caminho; está em fingir que o mapa sempre mostrou o caminho novo.
No fim, talvez a melhor metáfora para o sistema partidário não seja a de uma casa, mas a de um aeroporto. Há terminais, conexões, malas, passageiros, atrasos, mudanças de portão e destinos anunciados em painéis eletrônicos. O cidadão compra a passagem acreditando que sabe para onde vai. De repente, o portão muda.
A companhia informa que não houve alteração de destino, apenas uma “readequação operacional”. O passageiro olha para o painel, olha para a passagem e percebe que continua no aeroporto, cercado pelas mesmas lojas, pelas mesmas malas e por pessoas igualmente confusas.
Talvez isso seja política. Talvez seja apenas uma maneira muito sofisticada de não perder o próximo voo.
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