PENSAMENTO PLURAL O mundo e a conta que ninguém quer pagar, por Palmarí de Lucena

O texto do escritor Palmarí de Lucena analisa os desequilíbrios comerciais entre China, Estados Unidos e Europa, defendendo que o atual modelo econômico global se tornou cada vez mais instável. Enquanto algumas economias dependem das exportações e outras do endividamento e do consumo, cresce a disputa sobre quem assumirá as consequências dessa estrutura. A falta de cooperação e o avanço do protecionismo podem aprofundar as tensões, tornando inevitáveis mudanças cujos impactos recairão de forma desigual entre os países. Confira íntegra...

Os grandes desequilíbrios comerciais da economia mundial costumam permanecer invisíveis enquanto seus efeitos ainda não alcançam diretamente a vida cotidiana. Consumidores continuam comprando produtos importados, fábricas ampliam sua produção e governos celebram indicadores de crescimento, criando a impressão de que a engrenagem global segue funcionando com relativa estabilidade. Sob essa superfície aparentemente ordenada, porém, acumula-se uma tensão que nenhum indicador isolado consegue dissipar. A tese central é que o atual modelo de comércio internacional se tornou progressivamente insustentável porque as grandes potências resistem a modificar suas próprias estruturas econômicas e procuram deslocar para outros países as consequências de seus desequilíbrios.

A questão ultrapassa a simples contabilidade entre exportações e importações. O que está em jogo é a distribuição internacional da produção, do consumo, da dívida e, sobretudo, dos riscos. A China e outras economias mantêm grandes superávits comerciais e dependem dos mercados externos para absorver uma parcela importante de sua produção, enquanto os Estados Unidos sustentam elevados déficits e permanecem como uma das principais fontes de demanda do sistema econômico mundial. A Europa, situada entre esses dois polos, dispõe de peso econômico considerável, mas enfrenta uma fragmentação política que frequentemente limita sua capacidade de agir como uma força única.

O problema dos desequilíbrios é que sua persistência produz uma perigosa ilusão de normalidade. Durante anos, um país pode produzir mais do que consome, outro pode compensar essa diferença por meio do consumo financiado pelo endividamento, e os mercados financeiros podem manter a circulação de capitais necessária para que o arranjo continue funcionando. Enquanto a estrutura permanece de pé, nada parece urgente. Entretanto, a duração de um desequilíbrio não constitui prova de sua sustentabilidade; muitas vezes, significa apenas que suas consequências ainda não alcançaram o ponto em que se tornam impossíveis de ignorar.

A experiência histórica demonstra que grandes desequilíbrios econômicos raramente desaparecem de maneira espontânea e sem consequências significativas. Quando seus limites finalmente se impõem, o vocabulário abstrato da economia dá lugar a realidades concretas, como recessão, desemprego, falências, crises financeiras e perda prolongada de crescimento. O problema central, portanto, não está apenas na necessidade de restabelecer algum equilíbrio, mas na disputa entre os países para determinar onde recairão os efeitos dessa transformação.

É nesse ponto que a atual configuração da economia mundial se torna especialmente preocupante. As grandes potências parecem cada vez menos dispostas a aceitar soluções que exijam sacrifícios internos significativos. A China possui fortes incentivos para preservar sua capacidade industrial e manter suas exportações, especialmente diante do elevado endividamento e da necessidade de sustentar a atividade econômica e o emprego. Os Estados Unidos, por sua vez, têm razões econômicas e políticas para reduzir sua dependência de déficits comerciais e recuperar parte de sua capacidade industrial. A Europa continua defendendo a cooperação internacional, mas suas divisões políticas e econômicas dificultam a construção de uma estratégia capaz de corresponder ao peso que possui na economia global.

Essa divergência ajuda a explicar o avanço das políticas protecionistas. Tarifas, restrições às importações, controles sobre investimentos e políticas industriais passaram a ocupar um espaço cada vez maior nas estratégias nacionais, não apenas como instrumentos de competição econômica, mas como mecanismos de proteção diante de um sistema em que os países já não confiam que as responsabilidades serão distribuídas de maneira equilibrada. O protecionismo, nesse sentido, pode ser menos a origem do problema do que o sintoma de uma confiança que começou a desaparecer.

O risco é que a tentativa de proteger cada economia individualmente aprofunde justamente a fragmentação que torna uma solução coletiva mais difícil. Se os Estados Unidos reduzirem sua capacidade de absorver produtos estrangeiros e a China continuar procurando mercados para seus excedentes industriais, outras economias poderão ser pressionadas a assumir uma parcela maior dessa tensão. A Europa, nesse cenário, poderá enfrentar uma combinação particularmente delicada de enfraquecimento industrial, aumento do endividamento e redução do crescimento, descobrindo que permanecer entre duas grandes potências não significa necessariamente estar protegida das consequências de sua disputa.

O problema, portanto, não se limita a uma competição comercial entre Estados Unidos, China e Europa. Trata-se de uma disputa mais profunda sobre os limites de um modelo econômico que, durante décadas, permitiu a alguns países depender das exportações enquanto outros sustentavam elevados níveis de consumo e endividamento. À medida que esse modelo se torna mais difícil de manter, cresce também a disputa sobre quem deverá modificar seu comportamento econômico e, principalmente, quem terá poder suficiente para impedir que as pressões ultrapassem suas próprias fronteiras.

A solução mais racional exigiria uma cooperação internacional que parece cada vez mais difícil de alcançar. Economias com grandes superávits precisariam fortalecer sua demanda interna e reduzir sua dependência das exportações, enquanto países com déficits persistentes deveriam diminuir gradualmente sua dependência do endividamento. Essas transformações exigiriam decisões políticas difíceis e consequências internas que poucos governos parecem dispostos a assumir voluntariamente, sobretudo porque reconhecer a necessidade de mudança é muito mais fácil do que aceitar aquilo que ela exige.

A história demonstra que desequilíbrios econômicos dessa dimensão acabam encontrando seus próprios limites, mas quase nunca de maneira voluntária, harmoniosa ou indolor. Quando governos adiam decisões necessárias e tentam deslocar para outras economias as consequências de seus próprios modelos de crescimento, a tensão não desaparece; ela continua circulando pelo sistema e tende a se acumular justamente nos pontos em que a dívida, a dependência externa e a fragilidade política oferecem menos resistência.

A questão decisiva, portanto, não é se a atual arquitetura do comércio mundial poderá permanecer indefinidamente, mas onde surgirão as primeiras fissuras quando sua estrutura começar a ceder. Enquanto China, Estados Unidos e Europa continuarem priorizando a proteção de seus próprios interesses e adiando transformações internas, a economia mundial permanecerá apoiada sobre uma base cada vez mais instável, marcada pelo endividamento, pelo excesso de capacidade produtiva e pelas rivalidades comerciais.

A cooperação internacional ainda poderia impedir que essas tensões se transformassem em rupturas mais profundas, mas essa possibilidade diminui à medida que as grandes potências procuram fechar suas próprias brechas e empurrar a pressão para além de suas fronteiras. Nenhum sistema econômico permanece indefinidamente de pé quando sua estabilidade depende de que alguém continue absorvendo aquilo que os outros já não conseguem sustentar internamente.

Quando os limites desse modelo se tornarem incontornáveis, ficará evidente que o problema nunca foi apenas a existência de desequilíbrios, mas a persistência em acreditar que suas consequências poderiam ser permanentemente deslocadas para outro lugar. Alguns países chegarão a esse momento protegidos por reservas, poder político e capacidade de impor condições; outros estarão expostos desde o início. A verdadeira desigualdade do sistema poderá revelar-se justamente então: não apenas na dimensão dos problemas que cada país ajudou a criar, mas na liberdade desigual que cada um possui para decidir quem será atingido quando a estrutura finalmente começar a ceder.

 

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