PENSAMENTO PLURAL Deus, os pastores e a urna, por Palmarí de Lucena

A crônica do escritor Palmarí de Lucena analisa a relação entre lideranças evangélicas e política, a partir de artigo de Juliano Spyer sobre as preferências eleitorais de pastores em relação a Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. O texto destaca o conflito entre o pragmatismo dos dirigentes religiosos e as escolhas dos fiéis, mostrando que a influência pastoral tem limites. Com ironia, defende a autonomia da consciência individual e questiona o uso da religião como instrumento de poder político. Confira íntegra...

Na política, até quem fala em nome do céu precisa prestar atenção ao que acontece na terra.

Deus anda muito requisitado na política brasileira. É chamado para abençoar candidaturas, iluminar decisões e proteger a pátria. Não consta que tenha comparecido a alguma convenção partidária, mas seu nome circula pelos palanques com desenvoltura. É um cabo eleitoral peculiar: não pede cachê, não dá entrevistas e, sobretudo, não desmente quem fala em seu nome.

Os políticos conhecem a força de uma bênção. Os pastores conhecem a força de uma palavra pronunciada diante da congregação. Quando os interesses se encontram, a política ganha ares de culto e o culto, não raro, se aproxima de um comitê eleitoral.

Tudo parece funcionar muito bem até que o rebanho resolve escolher o próprio caminho.

Foi o que me chamou a atenção no artigo do antropólogo Juliano Spyer, publicado na Folha de S.Paulo. Ao examinar a relação entre as lideranças evangélicas e a candidatura de Flávio Bolsonaro, o colunista descreve uma situação curiosa: importantes dirigentes religiosos preferiam Tarcísio de Freitas, por considerá-lo uma alternativa eleitoralmente mais competitiva contra Lula. A preferência, porém, esbarrava na força do bolsonarismo entre os próprios fiéis.

A conta dos pastores parecia simples. A política, entretanto, tem o inconveniente hábito de não obedecer às planilhas.

Segundo o relato de Spyer, Silas Malafaia manifestou reservas à escolha de Flávio e defendeu Tarcísio. Outros dirigentes também demonstraram preocupação com os rumos da candidatura. Havia, portanto, uma diferença entre a avaliação eleitoral de parte das lideranças e a identificação de uma parcela dos fiéis com o sobrenome Bolsonaro.

Eis uma situação que merece ser observada sem pressa: o pastor faz suas contas, avalia os candidatos, pondera os riscos. O fiel, sentado no banco da igreja, pode estar fazendo outra conta. E não necessariamente consulta o pastor antes de chegar ao resultado.

Na política, como na vida familiar, nem sempre quem fala mais alto é quem dá a última palavra.

Spyer relata que, à medida que Flávio se consolidou como nome da direita bolsonarista, as lideranças evangélicas passaram a se aproximar de sua candidatura. O episódio sugere uma combinação de pragmatismo político, pressão da base e preocupação com a influência que essas lideranças poderiam preservar junto a um eventual governo.

Não é preciso imaginar conspirações para perceber a ironia. Quem está acostumado a orientar os outros também precisa aprender a mudar de posição quando as circunstâncias mudam.

O púlpito, afinal, não é uma torre de controle.

Talvez tenhamos exagerado a capacidade dos pastores de determinar o voto evangélico. Durante muito tempo, pareceu conveniente imaginar milhões de eleitores como um rebanho que se desloca ao simples movimento do cajado. Para os políticos, seria uma facilidade extraordinária: conquistar o dirigente, receber a bênção e aguardar os votos.

Mas gente não vem em pacote.

O fiel pode respeitar o pastor e discordar de sua preferência eleitoral. Pode compartilhar a mesma fé sem compartilhar o mesmo candidato. Pode ouvir o sermão no domingo e, na cabine de votação, seguir a própria consciência.

A fé não elimina a teimosia humana. Se eliminasse, os casamentos seriam mais simples, as famílias discutiriam menos e as eleições talvez nem precisassem de campanha.

Há, no episódio descrito por Spyer, uma inversão interessante. Os políticos procuram os pastores porque acreditam que eles podem influenciar os fiéis. Mas, quando a preferência da congregação não coincide com a avaliação do dirigente, o movimento pode acontecer na direção contrária: é o pastor quem precisa prestar atenção ao que os fiéis desejam.

O rebanho também tem suas opiniões. E, às vezes, faz questão de demonstrá-las.

Isso não significa que os líderes religiosos tenham perdido sua influência, nem que os evangélicos pensem todos da mesma maneira. Significa apenas que a relação entre fé e política não cabe numa fotografia de palanque, com todos sorrindo na mesma direção.

O problema começa quando essa fotografia pretende valer como procuração divina.

Pastores têm todo o direito de defender candidatos. Podem participar do debate público, criticar governos e expressar suas convicções. Mas há uma diferença entre recomendar um político e sugerir que sua candidatura recebeu uma autorização especial dos céus.

Uma coisa é dizer: “Acredito que este candidato seja o melhor”. Outra é insinuar: “Deus já escolheu; agora é a sua vez de obedecer”.

A primeira frase abre uma conversa. A segunda tenta encerrá-la.

E convenhamos: há políticos que já encontram dificuldade suficiente para explicar suas próprias decisões. Atribuir-lhes também a responsabilidade de representar a vontade divina é uma tarefa que nem o mais entusiasmado cabo eleitoral deveria assumir.

O curioso é que, no fim, a política costuma revelar aquilo que os discursos procuram esconder: os interesses humanos, as conveniências, as dúvidas e as mudanças de rumo. Alianças que parecem eternas precisam ser revistas. Convicções proclamadas com solenidade convivem com cálculos bastante terrenos.

Não há novidade nisso. A novidade é imaginar que, quando a religião entra em cena, os homens deixam de ser homens.

Talvez seja esse o ponto que mais me interessa no episódio. Não a preferência por Tarcísio ou por Flávio em si, mas a constatação de que nem mesmo uma liderança espiritual consegue controlar inteiramente a vontade de quem a escuta. O poder de aconselhar não é o poder de decidir pelo outro.

No fim, o político pede votos, o pastor oferece sua orientação e o fiel faz o que lhe parece correto. Pelo menos é assim que deveria funcionar numa democracia em que a consciência não tem dono.

Deus, felizmente, não precisa justificar alianças, explicar mudanças de posição ou responder a pesquisas eleitorais. Os homens, por sua vez, têm o hábito de invocá-lo justamente quando precisam dar às próprias escolhas uma autoridade maior do que a sua.

Resta uma pequena pergunta, dessas que não exigem resposta do céu: se até os pastores precisam ouvir os fiéis para decidir o caminho, por que tantos políticos insistem em acreditar que podem falar por todos?

Deus não vota. O pastor não vota pelo rebanho. E o candidato, por mais que invoque os céus, ainda precisa convencer quem vive aqui embaixo.

 

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