
Em sua crônica, o cineasta Durval Leal Filho reflete sobre a importância de um olhar crítico para aferir os valores de obras de arte, especialmente no cinema. Lembra como, no passado, após exibição de filmes, “éramos instigados a perguntar, a explanar a compreensão do visto. A sessão não terminava nos créditos. Começava ali”. E lamenta como “hoje, o cenário é outro. O bombardeio do scroll infinito, herdeiro dos 140 caracteres do Twitter, agora Tik-Tok e X, que deseducam. A sucessão vertiginosa de imagens fragmenta a atenção, direcionadas por algoritmos pre definindo grupos”. Confira íntegra...
Quando jovem, fui cineclubista, fiz curso de formação de plateia aprendi deste cedo a não ter vergonha de perguntar em publico, e expressar o percebido, e o que não entendi.
Tenho a grata lembrança de ter visto e debatidos os filmes, como: Pedra da Riqueza, de Vladimir Carvalho e Aruanda, de Linduarte Noronha, ambos paraibanos, como os internacionais Soy Cuba, e Nanook, O esquimó, e os filmes da Caravana Farkas: Memória do Cangaço (1964), de Paulo Gil Soares; Viramundo (1965), Os Imaginários (1966), Jornal do Sertão (1970), de Geraldo Sarno; Subterrâneos do Futebol (1965), de Maurice Capovilla.
Caravana Farkas (1964-1969), liderada por Thomaz Farkas, fotógrafo Húngaro, produziu com jovens cineastas, documentários sobre cultura popular, sobretudo no Nordeste, buscando revelar o “Brasil desconhecido”, com exibição prevista em escolas e televisão. Exibições proibidas pelo AI-5, do golpe militar de 64.
Não era apenas um passatempo era método de aprendizado, em um tempo em que o estar presente era essencial e a ausência dos colegas era percebida. Projetores de 16mm rodavam filmes em salas e auditórios as escuras, sob frestas, e depois da fita éramos instigados a perguntar, a explanar a compreensão do visto. A sessão não terminava nos créditos. Começava ali. O escuro não era ausência, era laboratório as claras.
Aprendíamos a sustentar a dúvida, a organizar o pensamento, junto com o outro, fazer transformar impressão em argumento. O cinema deixava de ser distração para se tornar exercício de leitura do mundo.
O CINECLUBE ENSINAVA A RUMINAR O TEMPO.
Tempo para rever mentalmente uma cena, para discordar de um colega, para escutar a interpretação alheia. A formação de plateia não era uma forma de adestramento, mas construção de autonomia. Aprendíamos a distinguir forma econteúdo, intenção autoral e recepção pública. A crítica não era destruição, mas análise. O exercício constante de argumentar consolidava a leitura crítica como prática cotidiana.
Essa pedagogia da imagem produzia algo raro: a capacidade de formular questões. A pergunta antecede a opinião. O cineclube não entregava respostas prontas, estimulava inquietações. Por que aquele enquadramento? Por que aquele silêncio? Por que aquela personagem cala?
A sala escura era espaço de elaboração coletiva. Ali, o pensamento não precisava competir com notificações. Ele podia amadurecer. A experiência estética convertia-se em exercício ético.
Como técnico do Núcleo de Documentação Cinematográfico da UFPB, NUDOC – PRAC, em 1989 organizei com apoio da Coordenadora Profa. Vânia Perazzo e do Prof. Iveraldo Lucena, Pró-Reitor de Assuntos Comunitário, o Circuito Universitário Itinerante de Cinema.
Percorríamos uma vez por mês os 7 campi, da UFPB, Bananeiras, Areia, Campina Grande, Patos, Sousa e Cajazeiras, fechando em João Pessoa exibindo filmes 16mm, da EMBRAFILME, preciosos, no acervo do NUDOC. Havia apoio e logística, mas também havia propósito de se sentir servidor publico, ocupando jovens com cultura, identidade e memória.
Não se tratava apenas de exibir; era formar plateia com estudantes universitários, ouvir e debater questões com os jovens profissionais do futuro, dialogar com a leitura crítica da imagem. Cada sessão exigia preparação, escolha criteriosa, mediação posterior.
FORMAR PLATEIA É FORMAR CIDADÃOS CAPAZES DE SUSTENTAR ARGUMENTOS.
O público não era consumidor de imagem era interlocutor, e a formação acontecia em via dupla: todos éramos aprendizes, inclusive eu, pois me sentia privilegiado de sugerir filmes e com eles aprender com olhares diversos.
A universidade expandia seus muros pela imagem, e a imagem devolvia questões incômodas e necessárias, com alunos em preparação para questionar e se posicionar no presente e no futuro.
Entre as obras que circularam estavam A Hora da Estrela, O Homem que Virou Suco, O Encouraçado Potemkin e Iracema: Uma Transamazônica. Não eram títulos escolhidos ao acaso. Cada filme trazia um país, um tempo, um conflito social. O debate após a projeção organizava as percepções dispersas. Perguntar era parte do rito. Não bastava gostar ou não gostar; era preciso compreender o enquadramento, a narrativa, o contexto histórico.
O cineclube me ensinou que diálogo constrói pensamento crítico. A troca de percepções amplia horizontes. Quando um estudante apontava um detalhe que eu não havia visto, o filme se reabria. Conexão emocional além de likes. A experiência coletiva criava comunidade interpretativa. Não era unanimidade; era diversidade argumentativa. A escuta atenta era tão importante quanto a fala. Aprendíamos que compreender exige tempo e alteridade.
A formação de plateia, nesse sentido, é formação cidadã. Quem aprende a analisar um filme aprende a analisar discursos, notícias, imagens políticas. A leitura crítica extrapola a tela. A superficialidade digital, ao reduzir tudo a fragmentos, fragiliza essa competência.
A ausência de mediação transforma a imagem em estímulo isolado. O cineclube, ao contrário, contextualiza. Insere a obra em uma tradição, em uma história, em um debate.
Aquela pedagogia do tempo contrasta com o regime atual de aceleração permanente.
Hoje, o cenário é outro. O bombardeio do scroll infinito, herdeiro dos 140 caracteres do Twitter, agora Tik-Tok e X, que deseducam. A sucessão vertiginosa de imagens fragmenta a atenção, direcionadas por algoritmos pre definindo grupos.
A leitura crítica rareou; tudo é capturado em flashes, injetado na redução da profundidade cognitiva, onde o simulacro de autenticidade soa autêntico. A lógica davelocidade substitui a lógica da compreensão. O gesto de deslizar o dedo substitui o gesto de sustentar o olhar.
O algoritmo molda gerações jovens. Opera por reforço, por repetição, por estímulo rápido. Consumo voraz, moldura social de gratificações efêmeras. O que prende por segundos é premiado, agora, o que exige minutos é descartado.
Livros viram obsolescência; romances, crônicas e contos, relíquias para “pessoas que não têm o que fazer”. A lógica do mercado atravessa a subjetividade. O tempo de leitura é visto como improdutivo diante da produtividade da rolagem.
Eu, com mais de 60 anos, não nativo digital, resisto nos nichos. Não por nostalgia, mas por convicção. Lembro Macabéa, personagem de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. Uma paraibana no papel da ouvinte da Rádio Relógio Federal, ainda no analógico, oposta ao tic-tac voraz. Macabéa vivia na lentidão das pequenas coisas. Sua precariedade não a impedia de sentir.
Hoje, o ritmo de 8 segundos do scroll dita o consumo cultural. A atenção tornou-se mercadoria escassa.
QUE OS JOVENS REDESCUBRAM O LENTO.
Naquele tempo, atenção se esticava. A sessão exigia permanência. Não havia botão de pular. O espectador aprendia a atravessar cenas silenciosas, planos longos, narrativas complexas. Não havia um smatphone a mão. Esse treino da paciência estruturava a mente. A superficialidade contemporânea, ao contrário, premia o impacto imediato. A pergunta cede lugar à reação. O comentário substitui a análise. A cultura do atalho enfraquece a construção do argumento.
A superficialidade não é destino inevitável, está na escolha cultural. Se o algoritmo organiza preferências, a educação pode organizar critérios. O cineclube é uma metodologia possível: ver, discutir, argumentar, escutar.
Não como negação do presente, mas como ampliação de possibilidades.
Que a sala escura, ou a imersão temporal sem pressa, volte a ser espaço de pergunta. Que a imagem seja mais que estímulo: seja linguagem a decifrar. Antes que a efêmera aculturação apague as estrelas de Clarice, é preciso reacender o hábito de perguntar.
PENSAR EXIGE PAUSA, HOJE, UM GESTO DE RESISTÊNCIA.
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