
A crônica do escritor Palmarí de Lucena critica a inércia da Prefeitura e da Câmara de Vereadores diante da erosão contínua da barreira do Altiplano do Cabo Branco, agravada desde os deslizamentos de 2019. Enquanto faltam ações efetivas de contenção, drenagem e recomposição ambiental, o poder público prioriza o financiamento de shows e eventos de apelo imediato. O texto aponta uma “hierarquia distorcida de prioridades, em que o espetáculo rende mais dividendos políticos do que a preservação ambiental e a segurança urbana”. Confira íntegra...
A barreira do Altiplano do Cabo Branco segue cedendo — centímetro a centímetro, estação após estação — enquanto a Prefeitura e a Câmara de Vereadores parecem ocupadas demais contando aplausos. Desde os deslizamentos de 2019, o diagnóstico é conhecido, reiterado, fotografado. O que falta não é laudo, é decisão. O que inexiste não é técnica, é prioridade.
A erosão avança porque a proteção recuou. A mata foi rareando, a drenagem não veio, a contenção nunca saiu do papel. A cerca que deveria sinalizar cuidado virou ornamento quebrado, como se a cidade tivesse decidido que o risco pode ser empurrado para amanhã. A cada chuva mais forte, o barranco responde com gravidade. A cada orçamento aprovado, o poder público responde com espetáculo.
É difícil ignorar o contraste. Para financiar shows — desses que alimentam a política do “pão e circo”, embalados por slogans fáceis e fotos convenientes — a máquina pública se mostra ágil, criativa, resoluta. Para enfrentar um problema ambiental estrutural, que exige planejamento contínuo e manutenção silenciosa, a mesma máquina emperra. A cidade vira palco; o território, nota de rodapé.
A Prefeitura prefere o efêmero porque o efêmero rende. A Câmara acompanha porque acompanhar rende também. O custo político de uma obra discreta, sem fita nem palco, parece alto demais para quem governa por calendário eleitoral. A prevenção não viraliza; a recomposição vegetal não vira jingle; a drenagem correta não dá close. E assim, entre um show e outro, a encosta vai embora.
Não se trata de demonizar eventos culturais, mas de expor uma hierarquia perversa. Quando o entretenimento se sobrepõe à segurança ambiental, algo está errado no eixo da gestão. Meio ambiente não é pauta acessória; é infraestrutura básica. Encostas não esperam discursos; respondem à física. E a física não negocia com propaganda.
A omissão é compartilhada. A Prefeitura executa pouco; a Câmara fiscaliza menos ainda. Audiências se sucedem sem consequência, requerimentos se acumulam sem efeito, emendas aparecem para o que dá visibilidade — raramente para o que evita tragédia. O Legislativo, que deveria ser o guardião do interesse público, contenta-se em aplaudir o show enquanto o chão cede.
Quando o próximo deslizamento ocorrer — e ocorrerá —, virá o roteiro conhecido: nota oficial, promessa de estudo, interdição emergencial. Dirão que foi a chuva. Não foi. Foi escolha. Foi a opção reiterada por investir no barulho de uma noite em vez do silêncio de um cuidado permanente.
A barreira não pede aplausos. Pede responsabilidade. Governar não é animar plateia; é sustentar a cidade. E uma cidade em festa, enquanto a encosta entra em ruína, não celebra a vida urbana — aposta contra ela.
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