
Partindo de Não Vai Acontecer Aqui, de Sinclair Lewis, o ensaio do escritor Palmarí de Lucena examina a vulnerabilidade das democracias diante da crença em sua própria imunidade. Ao retratar a ascensão gradual de um líder autoritário por meios institucionais, o romance antecipa reflexões desenvolvidas por Steven Levitsky e Daniel Ziblatt em Como as Democracias Morrem. O texto argumenta que a erosão democrática ocorre não apenas nas instituições, mas também na imaginação política, quando sociedades deixam de reconhecer seus próprios riscos. Confira íntegra...
Toda ordem política repousa sobre uma ficção compartilhada: a convicção de que o mundo institucional que conhecemos continuará existindo amanhã. As democracias dependem dessa crença silenciosa. Seus cidadãos acostumam-se à alternância de poder, à liberdade de expressão e à estabilidade das regras até que essas conquistas passem a parecer naturais. É precisamente nesse ponto que reside sua fragilidade. O hábito da democracia pode produzir a ilusão de sua permanência.
Quando Sinclair Lewis publicou Não Vai Acontecer Aqui, em 1935, seu verdadeiro alvo não era apenas o autoritarismo. Era a incredulidade. O romance surgiu em um período de profunda instabilidade política. Enquanto regimes autoritários se consolidavam na Europa, muitos americanos permaneciam convencidos de que experiências semelhantes jamais encontrariam terreno fértil nos Estados Unidos. A confiança nas instituições transformava-se, pouco a pouco, em uma espécie de certeza histórica.
Lewis desconfiava dessa convicção.
O título de seu romance captura precisamente esse estado de espírito. “Não vai acontecer aqui” não é apenas uma afirmação política; é uma disposição psicológica. A frase expressa a crença de que certos perigos pertencem sempre à experiência dos outros. A maior vulnerabilidade das democracias não está necessariamente na ignorância de suas ameaças, mas na convicção de que elas permanecem distantes, confinadas a outros tempos ou outras sociedades.
A originalidade de Lewis consiste em deslocar a questão central do debate político. O problema não é compreender como surge um líder autoritário. A história oferece inúmeros exemplos desse fenômeno. O desafio é entender por que sociedades inteiras demoram tanto a reconhecer sua presença.
Buzz Windrip, o político populista imaginado por Lewis, não chega ao poder pela força. Ele conquista apoio por meio das próprias instituições democráticas. Apresenta-se como defensor do povo contra elites corruptas, mobiliza ressentimentos sociais e promete restaurar uma grandeza nacional supostamente perdida. Não rejeita a democracia; reivindica sua representação exclusiva.
O aspecto mais inquietante da narrativa é a normalidade do processo. Não há ruptura imediata da ordem constitucional. Há eleições, legalidade formal e apoio popular. O autoritarismo avança gradualmente, por meio de pequenas alterações que, consideradas isoladamente, parecem insuficientes para provocar preocupação. Somadas, contudo, transformam profundamente a natureza do regime.
É nesse ponto que o romance estabelece um diálogo surpreendente com Como as Democracias Morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Publicado mais de oito décadas depois, o livro chega a uma conclusão semelhante: as democracias contemporâneas raramente colapsam por meio de golpes militares ou rupturas abruptas. Com frequência, elas são corroídas a partir de dentro por líderes eleitos que utilizam os instrumentos legítimos do sistema para enfraquecer os limites impostos ao próprio poder.
A convergência entre as duas obras é reveladora. O que Lewis percebeu pela intuição literária, Levitsky e Ziblatt demonstraram por meio da análise política. Ambos descrevem processos nos quais a aparência institucional permanece preservada enquanto a substância democrática se deteriora gradualmente. As eleições continuam a existir. Os tribunais continuam funcionando. A imprensa permanece ativa. O problema é que a autonomia e a credibilidade dessas instituições passam a ser progressivamente questionadas e enfraquecidas.
Mais do que um problema jurídico ou institucional, trata-se de uma questão cultural e moral. Democracias dependem não apenas de leis, mas também de hábitos de tolerância, autocontenção e respeito aos adversários. Quando a política deixa de ser uma disputa entre concorrentes legítimos e passa a ser percebida como um conflito entre patriotas e inimigos, os fundamentos invisíveis da vida democrática começam a se desgastar.
Quase um século após sua publicação, Não Vai Acontecer Aqui permanece atual porque não pretende prever acontecimentos específicos. Seu objetivo é mais profundo. O romance investiga a facilidade com que sociedades democráticas confundem estabilidade com permanência e confiança com imunidade.
A literatura não prevê o futuro. Sua contribuição mais duradoura consiste em ampliar nossa capacidade de percepção. Ao escrever Não Vai Acontecer Aqui, Sinclair Lewis produziu uma reflexão sobre a vulnerabilidade das democracias diante de suas próprias certezas. Seu romance recorda que o primeiro triunfo do autoritarismo não ocorre sobre as instituições, mas sobre a imaginação política de uma sociedade.
Afinal, aquilo que não conseguimos imaginar dificilmente conseguimos reconhecer quando começa a acontecer diante de nós.
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